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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Arpad Szenes, Vieira da Silva e Mário Cesariny, 1964. Castelo de Chambord, Loire. Fotografia: Alberto de Lacerda


Vieira da Silva, “Composition”, 1936. Óleo sobre tela. 81 x 100 cm. Col. CAM - Fundação Calouste Gulbenkian, depósito na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva


Mário Cesariny, “O opérário”, 1947. Tinta-da-china, aguada e gache sobre papel colado em platex. 63 x 50 cm. Col. Eunice Maria Cruz


Arpad Szenes, “Enfant au cerf-volant”, c. 1934-1935. Óleo sobre contraplacado. 22,7 x 29,3 cm. Col. Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva


Vieira da Silva, “Enigme, 1947”. Óleo sobre tela. 89 x 116 cm. Col. Particular

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Correspondências - Vieira da Silva por Mário Cesariny




MUSEU ARPAD SZENES - VIEIRA DA SILVA
Praça das Amoreiras, 56
1250-020 Lisboa

05 JUN - 04 OUT 2008


Na mesma década em que se assistiu no grande ecrã às aventuras de Jules et Jim (1962), outra tríade artística convivia por terras francesas: Maria Helena Vieira da Silva, Mário Cesariny e Arpad Szenes. Existem, por acasos felizes, afinidades electivas entre alguns criadores, mais ou menos conhecidas do público mas que surgem sublimadas nas respectivas obras. Afinidades arquivadas e testemunhadas por variada documentação e por cartas: epístolas em papel, declarações públicas e cartas de jogo.

São estas correspondências que, na sua pluralidade, foram abertas na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva. Este espaço museológico, por vezes ainda desconhecido do visitante nacional, situa-se entre as Amoreiras e o Largo do Rato em Lisboa e nele podemos encontrar uma coerente colecção permanente das obras dos dois pintores que viveram e trabalharam juntos, em Paris, na segunda metade do século XX. Esta dupla de artistas, e sobretudo a figura de Vieira da Silva, é revisitada nesta exposição, comissariada por João Pinharanda e Marina Bairrão Ruivo (Directora da Fundação ASVS), através da perspectiva do poeta e pintor Mário Cesariny.

No rés-do-chão do Museu, no hall de entrada. encontramos a chave que nos conduzirá a decifrar o enigma desta correspondência entre Mário e Vieira da Silva: uma colagem em papel (s/título, 1964) em que sobressai, numa sinfonia de paus e copas, a figura da Rainha e do Cavaleiro que vela por ela cantando “Amo-ris actus”. No primeiro andar paralelamente às salas da colecção permanente da Fundação, encontramos “o rapto da pintura pela poesia” ou Mário de Sá-Carneiro raptando Maria Helena Vieira da Silva (de Mário Cesariny, 1972), como afirma João Pinharanda no catálogo da exposição. O mote está lançado e seguem-se arquivos de correspondências, fotografias de Césariny que constam da obra que o poeta lhes dedicou, O Castelo Surrealista, publicada em 1984. Realça-se o percurso pictórico de Cesariny entre os dois pintores, e podemos ver as pinturas do poeta (o que é raro).

A inserção de uma obra datada de 2001 nesta exposição surpreende pela frescura da sua aparição e pelo eco que faz ao gesto artístico duchampiano de Bycicle Wheel Remade de Fernando Brito. Porém esta aparição é única e quase tímida mas muito salutar.

O percurso expositivo segue um pouco a ordem da vida dos artistas e a exposição termina dando vontade de voltar a ler e reler Cesariny. O poeta conheceu a pintora ainda antes de a conhecer, através da sua pintura e foi um dos primeiros a exaltar o seu mérito na imprensa nacional. Pediu uma bolsa de estudos para estudar a sua obra e durante vinte anos concebeu uma obra que lhe iria dedicar O Castelo Surrealista, de 64 a 84. Vieira da Silva lia Cesariny e sabia que a sua poesia era a que Portugal desconhecia. Mas como sempre, apesar do desinteresse que o nosso país vota aos seus mais importantes exponentes (enquanto jovens e vivos), tudo dele contava. Poderíamos dizer que viveram a estação do surrealismo europeu os três juntos e Cesariny, na sua obra pictórica, exprime-o de uma forma espontânea e rica de sentimento, sem a elevação técnica de Arpad ou Vieira. Arpad e a linha horizontal das paisagens, Vieira da Silva, o céu e a verticalidade do cosmos das cidades em chamas. Cesariny mais próximo de Arpad nas formas. Mas é a poesia que rapta a pintura e ganha as suas formas nas palavras de A Cidade Queimada (1964), obra escrita após o encontro dos três pintores e que, nas palavras do mesmo, o faz renascer para a escrita. É interessante verificar a simplicidade das cartas que se trocam, mesmo com as instituições portuguesas.

Uma das mais belas declarações de amor de Mário a Helena Vieira da Silva é talvez a tela que lhe dedicou - Na morte de Maria Helena (1992), na qual troca o fio da horizontalidade das suas linhas de água por um fio vertical; o amor é uma troca de perspectivas.

O catálogo da exposição é mais uma cuidada edição da Assírio e Alvim que foi a editora bem-amada do poeta.




Sílvia Guerra