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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto: Guillaume Vieira, cortesia da Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, Les témoins, 2025. Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto: Guillaume Vieira, cortesia da Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, Les témoins, 2025 (pormenor). Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto Guillaume Vieira, cortesia da Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, Par la nuit (la vallée d'Ossau), 2025 (pormenor). Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, Ker, 2025. Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, Staccato (Tejo), 2025. Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, Staccato (Tejo), 2025 (pormenor). Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, Les déracinés (Vasculum), 2025 (pormenor). Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.


Isabelle Ferreira, AJF, 2022, série “L_invention du courage (O salto)â€, 2021-2025. Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP


Isabelle Ferreira, Tor oro, 2022, série “L'invention du courage (O salto)â€, 2021-2025. Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação E

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ARQUIVO:


ISABELLE FERREIRA

NOTRE FEU




MAAT
Av. de Brasília, Central Tejo
1300-598 Lisboa

22 OUT - 02 MAR 2026


 

 


Xorieri mintzo zen, mintzo zen errekari
(Falava com os pássaros, falava com o riacho)
Oihaneko zuhaitzeri, ta zeruko izarreri
(Com as árvores da floresta e as estrelas do céu)
Mintzo zen haizeari, xoro batentzat zaukaten
(Falava com o vento, diziam que era louca)
Etzakien irakurtzen gizonen liburutan
(Não sabia ler os livros dos homens)

Xorieri mintzo zen, de Michel Labéguerie

 

 

 

Isabelle Ferreira, Ker, 2025 (pormenor). Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.

 

 


Percurso 1

Corte e costura. Rasgões de madeiras esculpidos, quase falsos, demasiado belos. Madeira craquelada, sofrida, epidérmica. Vestígios sobrepostos num jogo de cores texturadas. Há composições infalíveis, onde a ruína não é forçada, não é efeito ou finalidade – a tentação fatalista e ficcionante. Pedaço de madeira como mapa, painel de hipóteses. A anonimidade permite a projeção. Estalactites perfeitas. A procura de um rosto é revelada no final – série como um percurso que nos direciona até a um desconhecido descoberto. Agrafos rochosos, ornamentais – ajudam à caminhada. Madeira sublimada: a paisagem como bug vectorial. O orgânico torna-se digital. O mesmo processo nas pinturas conduz a uma intimidade obliterada na grande paisagem, envolvente, complexa. A madeira escarpada e afiada, assente num carrinho de mudanças, como numa loja de bricolage. Procede-se ao levantamento de peças: os vestígios de um trabalho manual. Os agrafos fixam um lugar concreto, inamovível. Procuram-se as partes do todo, o refazer das montanhas, sob o vento do tempo. A quebra, o intervalo. Controlo belo, sem exageros: o tom da madeira paralelo ao nublado do céu. Os tomos de madeira perfurados numa joalharia férrea e cintilante. Enraizamento, musgo, vivência, praga. A madeira polida e a madeira crua. Os agrafos alinhados materializam o caminho. Cobrem o pó e as cinzas. A vontade de serradura, ou de rarefação. Aderem à madeira, cada bloco como um mundo. Ao longe pareciam livros. A portabilidade das peças do mapa ventoso, trazidas ao ombro por corpos desaparecidos: o vivo é uma peça cromada, cristalizada, o signo de uma ausência. A gruta cavernosa do museu. Moldura xistosa sobre a clareza dos montes. Estabelecer o ponto de fuga. A vertigem de um apagamento. O ponto final. A noite escura. Cartolina pedregosa numa travessia árida e árdua.

 

Isabelle Ferreira, Ar, 2021, série “L'invention du courage (O salto)”, 2021-2025. Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.

 

 

Percurso 2

Mão omnipotente de sibila, na procura de um rosto que conhece, fabricando a incógnita. A cor é traço de vida na caminhada. Há vasculuns vazios. O drama é belo e trágico. Sublime manual. Tátil extático. A crepetência da madeira nas montanhas rochosas. Um lugar de situação. Manchas na madeira paralelas, como que segmentadas ao mesmo comprimento, fazendo o painel. Agradeço o cajado. Para nós o vento bule. Ao longe. Retângulos perfeitos, escarpas simuladas. Andar em círculos, em busca do ponto de fuga. As plantas sugeridas são impossíveis em tamanha aridez. É esse o desenraizamento instaurado, que se pretende superar. O fogo apagou-se. Recuperemos o trajeto, com os sapatos possíveis. O vidro sempre opaco, inacessível à transparência. Obras fronteiriças, com obstáculos à saída. Binóculos para a paisagem. Correm rios negros, sonâmbulos, coagulados. Já a brancura agrafa o lugar de cada objeto. O corredor fecha-se. Encosto, sobreposição, fixação. Pariu-se uma pedra, frágil e lascada. Levamo-na no bolso. Chamamos-lhe democracia.

 

 

 

Isabelle Ferreira, Par la nuit (la vallée d'Ossau), 2025 (pormenor). Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.

 

 

 

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Miguel Pinto
Nascido em 2000. Mestre em Jornalismo pela Universidade Nova de Lisboa, redigiu uma tese sobre a ética noticiosa no Portugal do século XVII, e as suas interseções com uma mundivisão barroca. Licenciado em História da Arte, colaborou com publicações como Hyperallergic, Público ou Umbigo. Trabalha no Departamento de Comunicação da Cinemateca Portuguesa. Escreve nas horas vagas.

 

 



MIGUEL PINTO