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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição, André Romão, Inverno, Galeria Vera Cortês. © Bruno Lopes


Vista da exposição, André Romão, Inverno, Galeria Vera Cortês. © Bruno Lopes


André Romão, Ferida Fossil. Exposição Inverno, Galeria Vera Cortês. © Bruno Lopes


André Romão, Doppelmond. Exposição Inverno, Galeria Vera Cortês. © Bruno Lopes


André Romão, Beijo Kiss. Exposição Inverno, Galeria Vera Cortês. © Bruno Lopes


André Romão, Via Lactea, 2026. Fragmento escultórico (terracota patinada, Itália, década de 1930), sinos. 93 x 17 x 20 cm. Exposição Inverno, Galeria Vera Cortês. © Bruno Lopes

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ARQUIVO:


ANDRÉ ROMÃO

INVERNO




GALERIA VERA CORTÊS (ALVALADE)
Rua João Saraiva 16, 1st
1700-250 Lisboa

29 JAN - 14 MAR 2026


 

 

Tudo no mundo é estranho e maravilhoso
Para pupilas bem abertas.

Ortega y Gasset

 

Chove muito em Lisboa. E é Inverno. Minguo, como mingua a lua. A metáfora enlaça-me junto a ela. Somos próximos e contínuos, porque minguamos. Por meio desta metáfora, concedo a mim a sua característica e aproximo nossas vertiginosas distâncias. As metáforas são a fonte viva dessa realidade mais fundamental que é o facto de sermos uma continuidade cósmica por meio de delicadas pontes. Toda a técnica, toda a poesia e todo o gesto artístico é um tatear de distâncias, um exercício de aproximação.

Talvez tenha sido o romantismo, sobretudo na poesia, que melhor aproximou o homem da natureza, conquistando imagens que reivindicavam um atravessamento amoroso entre tudo o que existe. Almejava o retorno a um estado de natureza idílico que seria também a natureza original do homem. Esta aproximação amorosa entre humano e natureza flerta com uma ideia que me agrada, que é a ideia de uma metamorfose erótica original entre todas as coisas do cosmos. Nessa metamorfose, a vida e a morte, a cor e a sombra, a pedra e o musgo enlaçam-se em formas estéticas, que podem ou não durar no tempo. Do poeta britânico William Butler Yeats, há um poema, presente na exposição de Romão, que diz:

 

Where the wave of moonlight glosses
The dim gray sands with light,
Far off by furthest Rosses
We foot it all the night,
Weaving olden dances
Mingling hands and mingling glances
Till the moon has taken fight;
To and fro we leap
And chase the frothy bubbles,
While the world is full of troubles
And anxious in its sleep.

The Stolen Child. William Butler Yeats

 

Do nome do poema, The Stolen Child, poderíamos dizer que é o próprio ’homem’. Nietzsche, na sua crítica ao platonismo e na reivindicação de uma filosofia dos sentidos, di-lo claramente: É só nos rituais Dionisíacos gregos que a Natureza encontra seu filho perdido, o Homem. O seu esforço para afastar-se e diferenciar-se dela é sua aparente superação enquanto humano, mas contém no germe do seu gesto a sua inevitável derrocada. Há, nesse espaço de silêncio e música que existe entre a humanidade e o cosmos, uma série de frestas, formas e alianças, que podem ser apanhadas e materializadas, operando visões que produzem e são produzidas pelo movimento do mundo.

Nessas visões, vigora um ímpeto metafórico como parte da própria natureza do mundo, dado o facto mais fundamental de que as coisas se atravessam entre si nas suas formas e essências, nas suas cores e cheiros, nas suas estéticas e nos seus resquícios. É por isso que os símbolos são, por tantas vezes, considerados místicos: porque consolidam em imagens uma amálgama de sentidos cósmicos; e almejam uma linguagem originária em que antes do nome é que se encontra o verdadeiro nome: revelação de sentido sem a mediação do intelecto.

André Romão é um belo exemplo de um trabalho ao mesmo tempo romântico e simbolista, metafórico e escultórico, contemporâneo e atemporal, trazendo à vida Inverno, na Galeria Vera Cortês: uma enluarada exposição, introspectiva e minimalista que apresenta um conjunto de 8 peças de elevada carga poética, iluminadas por lâmpadas que ao mesmo tempo iluminam e concedem sombra aos objetos.

Um homem suspenso no ar é beijado por uma arraia. Mais além, uma canção de sinos contínuos saem da sua boca. Um corpo, que é na verdade um tronco de carvalho retorcido, está deitado horizontalmente, vestindo uma máscara japonesa do período Edo.

No espaço da galeria, as obras se suspendem e se comunicam em uma atmosfera intimista que nos faz andar, encontrar, rodear e, sobretudo, querer permanecer na presença de obras que são de um surrealismo coeso, de um romantismo contemporâneo e de uma sóbria delicadeza. O trabalho de Romão poder-se-ia dizer ser metáforas materializadas, implicadas em um jogo poético de formas naturais em que o sentido é encontrado, ao mesmo tempo, nas formas e nos materiais, possibilitando que na obra habite um fluxo constante e indissolúvel entre representação e matéria.

Um ser feminino e misterioso vive na floresta. As mãos em madeira despontam pequenos rebentos. É inverno e a sazonalidade é uma das verdades que partilhamos com toda a matéria orgânica que habita o mundo.

É talvez precisamente pela carga poética, aliada ao domínio técnico, que o trabalho de André Romão se distingue. Ao buscar aquilo que vai mais além do tempo presente, chega ao tempo presente; querendo de nós mais do que aquilo que julgamos ser, chega a nós próprios. Na galeria está presente um ímpeto que enlaça atmosferas à formas, com um nítido cuidado com o tempo em que vive, mas que captura-o ao transcendê-lo.

É delicado o seu pisar na floresta do hoje. Romão costura formas vivas, onde a natureza supera o lugar de matéria prima para revelar-se signo vivo, espaço privilegiado do laço cósmico entre tudo que existe. Somos parte da natureza, mas sobretudo, somos essa natureza, que nos atravessa e cria em nós histórias e fantasias, mudanças e metamorfoses, formas e alegorias, símbolos e ruínas.

A exposição, nesse sentido, revela a maestria de Romão na confecção de pontes de sentido e materialidade, símbolos e metáforas que aparecem para pupilas bem abertas e que vêm à vida através da arte. Na densidade das imagens que duram no tempo, nessa amálgama de símbolos criados e recriados, André Romão traz à superfície obras de forte e delicada expressividade, acompanhadas por duas luas expostas na parede, símbolo atemporal que tem se repetido em trabalhos mais recentes do artista.

Se uma lua sugere a atmosfera de repouso, guarda e nebulosidade que o Inverno convoca e expressa, duas luas vão ainda mais além e sugerem um espaço-tempo distinto, uma quem-sabe-outra-realidade, que se mistura ao regime visível mas que é também por ele obscurecida, que nos está oculta, mas que pode ser acessada por uma qualquer codificação.

A exposição Inverno poderia ser, nesse sentido, mais do que uma exposição: uma meditação cosmo-poética, um tatear de códigos: uma sugestão de realidades que vibram connosco e em nós, apresentadas por meio de obras onde a poesia se materializa e, ao mesmo tempo, nos materiais está desperta.

 


Mariana Varela
É escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.

 



MARIANA VARELA