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ANDRÉ ROMÃOINVERNOGALERIA VERA CORTÊS (ALVALADE) Rua João Saraiva 16, 1st 1700-250 Lisboa 29 JAN - 14 MAR 2026
Tudo no mundo é estranho e maravilhoso Ortega y Gasset
Chove muito em Lisboa. E é Inverno. Minguo, como mingua a lua. A metáfora enlaça-me junto a ela. Somos próximos e contínuos, porque minguamos. Por meio desta metáfora, concedo a mim a sua característica e aproximo nossas vertiginosas distâncias. As metáforas são a fonte viva dessa realidade mais fundamental que é o facto de sermos uma continuidade cósmica por meio de delicadas pontes. Toda a técnica, toda a poesia e todo o gesto artístico é um tatear de distâncias, um exercício de aproximação. Talvez tenha sido o romantismo, sobretudo na poesia, que melhor aproximou o homem da natureza, conquistando imagens que reivindicavam um atravessamento amoroso entre tudo o que existe. Almejava o retorno a um estado de natureza idílico que seria também a natureza original do homem. Esta aproximação amorosa entre humano e natureza flerta com uma ideia que me agrada, que é a ideia de uma metamorfose erótica original entre todas as coisas do cosmos. Nessa metamorfose, a vida e a morte, a cor e a sombra, a pedra e o musgo enlaçam-se em formas estéticas, que podem ou não durar no tempo. Do poeta britânico William Butler Yeats, há um poema, presente na exposição de Romão, que diz:
Where the wave of moonlight glosses The Stolen Child. William Butler Yeats
Do nome do poema, The Stolen Child, poderíamos dizer que é o próprio ’homem’. Nietzsche, na sua crítica ao platonismo e na reivindicação de uma filosofia dos sentidos, di-lo claramente: É só nos rituais Dionisíacos gregos que a Natureza encontra seu filho perdido, o Homem. O seu esforço para afastar-se e diferenciar-se dela é sua aparente superação enquanto humano, mas contém no germe do seu gesto a sua inevitável derrocada. Há, nesse espaço de silêncio e música que existe entre a humanidade e o cosmos, uma série de frestas, formas e alianças, que podem ser apanhadas e materializadas, operando visões que produzem e são produzidas pelo movimento do mundo. Nessas visões, vigora um ímpeto metafórico como parte da própria natureza do mundo, dado o facto mais fundamental de que as coisas se atravessam entre si nas suas formas e essências, nas suas cores e cheiros, nas suas estéticas e nos seus resquícios. É por isso que os símbolos são, por tantas vezes, considerados místicos: porque consolidam em imagens uma amálgama de sentidos cósmicos; e almejam uma linguagem originária em que antes do nome é que se encontra o verdadeiro nome: revelação de sentido sem a mediação do intelecto. André Romão é um belo exemplo de um trabalho ao mesmo tempo romântico e simbolista, metafórico e escultórico, contemporâneo e atemporal, trazendo à vida Inverno, na Galeria Vera Cortês: uma enluarada exposição, introspectiva e minimalista que apresenta um conjunto de 8 peças de elevada carga poética, iluminadas por lâmpadas que ao mesmo tempo iluminam e concedem sombra aos objetos. Um homem suspenso no ar é beijado por uma arraia. Mais além, uma canção de sinos contínuos saem da sua boca. Um corpo, que é na verdade um tronco de carvalho retorcido, está deitado horizontalmente, vestindo uma máscara japonesa do período Edo. No espaço da galeria, as obras se suspendem e se comunicam em uma atmosfera intimista que nos faz andar, encontrar, rodear e, sobretudo, querer permanecer na presença de obras que são de um surrealismo coeso, de um romantismo contemporâneo e de uma sóbria delicadeza. O trabalho de Romão poder-se-ia dizer ser metáforas materializadas, implicadas em um jogo poético de formas naturais em que o sentido é encontrado, ao mesmo tempo, nas formas e nos materiais, possibilitando que na obra habite um fluxo constante e indissolúvel entre representação e matéria. Um ser feminino e misterioso vive na floresta. As mãos em madeira despontam pequenos rebentos. É inverno e a sazonalidade é uma das verdades que partilhamos com toda a matéria orgânica que habita o mundo. É talvez precisamente pela carga poética, aliada ao domínio técnico, que o trabalho de André Romão se distingue. Ao buscar aquilo que vai mais além do tempo presente, chega ao tempo presente; querendo de nós mais do que aquilo que julgamos ser, chega a nós próprios. Na galeria está presente um ímpeto que enlaça atmosferas à formas, com um nítido cuidado com o tempo em que vive, mas que captura-o ao transcendê-lo. É delicado o seu pisar na floresta do hoje. Romão costura formas vivas, onde a natureza supera o lugar de matéria prima para revelar-se signo vivo, espaço privilegiado do laço cósmico entre tudo que existe. Somos parte da natureza, mas sobretudo, somos essa natureza, que nos atravessa e cria em nós histórias e fantasias, mudanças e metamorfoses, formas e alegorias, símbolos e ruínas. A exposição, nesse sentido, revela a maestria de Romão na confecção de pontes de sentido e materialidade, símbolos e metáforas que aparecem para pupilas bem abertas e que vêm à vida através da arte. Na densidade das imagens que duram no tempo, nessa amálgama de símbolos criados e recriados, André Romão traz à superfície obras de forte e delicada expressividade, acompanhadas por duas luas expostas na parede, símbolo atemporal que tem se repetido em trabalhos mais recentes do artista. Se uma lua sugere a atmosfera de repouso, guarda e nebulosidade que o Inverno convoca e expressa, duas luas vão ainda mais além e sugerem um espaço-tempo distinto, uma quem-sabe-outra-realidade, que se mistura ao regime visível mas que é também por ele obscurecida, que nos está oculta, mas que pode ser acessada por uma qualquer codificação. A exposição Inverno poderia ser, nesse sentido, mais do que uma exposição: uma meditação cosmo-poética, um tatear de códigos: uma sugestão de realidades que vibram connosco e em nós, apresentadas por meio de obras onde a poesia se materializa e, ao mesmo tempo, nos materiais está desperta.
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