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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Graham Gussin, “Know Nothing (Self Portrait as X-The Man X-Ray Eyes)â€, 2003. Fotografia, cor.


Graham Gussin, “Spillâ€, 1999. Filme de 16mm, p/b, loop, 12’.


Graham Gussin, “Remote Viewerâ€, 2002.


Graham Gussin, “Fall (7200-1)â€, 1997. Projecção vídeo, laptop, programa aleatório, duração infinita. 52 x 45 cm.


Graham Gussin, “Film Posterâ€, 2008. Site-specific.


Graham Gussin, “Film Posterâ€, 2008.


Graham Gussin, “Illumination Rig (Island)â€, 2008. Fotografia em caixa de luz, 1,48 x 1,80 m.


Graham Gussin, “Deliverance Mobileâ€, 2008. Fotografia, alumínio, aço.

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ARQUIVO:


GRAHAM GUSSIN

YOUR TIME MY SPACE/ FILM SPACE FILM TIME/ YOUR SPACE MY TIME




SOLAR - GALERIA DE ARTE CINEMÃTICA
Solar de S. Roque Rua do Lidador
Vila do Conde

27 SET - 16 NOV 2008

A suspensão de uma espera

YOUR TIME MY SPACE/ FILM SPACE FILM TIME/ YOUR SPACE MY TIME é o título da exposição de Graham Gussin (Londres, 1960) que se encontra patente na galeria Solar. E este título, por sua vez, revela (quase na totalidade) o mote questionante e matérico (filmes) que o autor empregou na elaboração das obras que se encontram reunidas em Vila de Conde.

As obras de Gussin, e a forma de privação da narrativa que nelas executa, ganham o epíteto de mistério, que é adensado pelo seu recurso ao suporte de filmes de terror, que marcaram a história dessa cinematografia.

Gussin, através das suas criações, indicia uma exploração sensorial: do tempo e do espaço, ao mesmo tempo que questiona o espectador: como um exterior que imprime nestas dimensões (de tempo e espaço) uma ideia de encontro e de espera. Uma exploração sensorial: que ideias de cegueira (“Know Nothingâ€, 2003), de fuga (“Remote Viewerâ€, 2002), equilíbrio/desequilíbrio (“Fall (7200-1)â€, 1997) ou de suspensão (“Deliverance Mobileâ€, 2008); são apontamentos sintomáticos retirados a uma totalidade inalcançável que permanece ainda como mistério.

A noção de mistério surge aqui, mais pela criação de situações onde a ausência de problemas e de narrativa lineares abrem exponencialmente o leque de subjectivações possíveis. É para essa extensão do inassimilável que a denominação de mistério melhor contribui.

O filósofo Gabriel Marcel (Paris, 1889-1973†) no seu Journal Métaphysique (1) apresenta uma esclarecedora distinção entre as noções de problemas e mistérios. Para Marcel, num problema os dados estão perante mim e são-nos exteriores. Apresentam-se desordenados e num esforço de organização (susceptível de satisfazer as exigências de um pensamento) procurar-se-lhe-á uma ordem capaz de eliminar essa sua condição disposicional. (ex. de um problema: um conjunto de dados astrológicos).

Já no mistério os dados são demasiado envolventes para que um exógeno possa formar um corpo. A envolvência dos dados discorre numa extensão à qual nós nos encontramos incluídos. (ex. de um mistério: a vida). O mistério, “a sua essência é não estar totalmente perante mim†(G. Marcel, Être et avoir, p.205), é assim, que “querer†resolver um mistério é, sobretudo, transformá-lo num problema: fazer dele um objecto que se põe diante de nós ou do nosso pensamento, corrompendo a sua essência de enormidade não-açambarcante. (ex. de um não-açambarcante: a vida. Apesar das tentativas de a tornar num problema de govermentalização).

Em “Ambient Horror (Day of the Dead Fifteen Layers)â€, um video de 2006, o filme de George A. Romero é exposto a várias velaturas de diferentes partes do filme, originando um branco translúcido, que cria um efeito, que em alguns sítios se confunde com uma cortina noutros com um nevoeiro. Uma inquietação é potenciada ao tornar imperceptível a acção que por trás dessas camadas se desenrola. Pode-se encontrar ainda nesta obra, uma espécie de citação à pintura que recorre frequentemente à técnica da velatura.

Já em “Spillâ€, filme de 16mm, datado de 1999, vimos a formação de um denso nevoeiro (artificial) que envolve o interior de um complexo industrial ao abandono. Espalha-se num manto que cobre o chão, embatendo em paredes e descendo escadas, como se de uma personagem se tratasse. Privado de chão, o interior do complexo ganha uma estrutura de fantasmagoria, suspensão e encobrimento, que alicia ao imaginário fértil em situações, que o cinema de terror continua a propiciar.

Em “Know Nothing (Self Portrait as X-The Man X-Ray Eyes)â€, uma fotografia de 2003, o autor expõe um seu retrato com membranas negras a sobreporem-se aos olhos. A história deste trabalho remete, uma vez mais à cinematografia de terror, onde a experiência de um cientista na tentativa de ver através das coisas. Acaba no exuberante êxito de ver através de todas as coisas, para perder o seu olhar no vazio do infinito. O artista ao mostrar-se com esse olhar, recria-se na personagem e mostra uma disponibilidade para a ausência que o nada sei e o nada vejo evidencia.

Na vídeo instalação “Remote Viewer†de 2002, duas projecções que se encontram num frente-a-frente revelam um exercício em que uma ausência do artista é contraposta por uma procura encetada por um indivíduo com capacidades telepáticas (um espectador remoto). É explicado num texto que acompanha a instalação que o artista encetou uma viagem a Askja, na Islândia e que ao mesmo tempo, um espectador remoto, em Londres, e sem qualquer conhecimento do paradeiro de Gussin, tenta localizá-lo. Numa das projecções vemos longos travellings através de paisagens rochosas e de elevações montanhosas e que encadeia com um road-movie onde uma câmara subjectiva sugere a fuga de Gussin por aquelas paragens algo agrestes e inóspitas. Enquanto a outra projecção apresenta o interior de um estúdio de filmagens, onde o espectador remoto sentado a uma secretária. Fixa o olhar num quadro negro que se encontra suspenso próximo do seu rosto e rabisca, numas folhas, grafismos e sinaléticas que nos são indecifráveis e que supostamente traduzem os resultados da sua procura. Este trabalho além de conter uma poiésis (uma criação a acontecer, que em simultâneo se afirma em obra finalizada), cria uma situação onde a procura do autor na obra é o cerne da própria obra.

“Film Poster†(site-specific, 2008) e “Untitled Film†(projecção, 1997-2003.) Graham Gussin recorre a frases e palavras para, em “Film Poster†sugerir em forma de lista, um filmar de várias situações, dando sempre uma grande liberdade para a interpretação de cada uma das situações (este guia encontra-se em grande dimensão, na parede lateral de um edifício contíguo à galeria, existindo também num outro formato: como cartaz e que o visitante poderá trazer consigo). E em “Untitled Film†criar com a projecção de frases: tempos e espaços diegéticos, determinados pelo autor, e que no cinema é frequentemente usado como separadores para avançar ou recuar na narrativa, ex. “10 Years Later†ou “Back Home Years Agoâ€.

Em “Fall (7200-1)â€, projecção vídeo, com laptop, um programa aleatório, e uma duração infinita, 52 x 45cm, datada de 1997, apresenta a projecção de uma paisagem natural: uma elevação montanhosa, verdejante e com um leito de água. Uma paisagem que se assemelha ao que uma indústria panfletária nos habituou a designar por retiro ou local para escapadelas vitalizantes. Porém, paira sobre essa paisagem, a ameaça de um acontecimento intenso que pode abalar, a qualquer momento, o equilíbrio natural e a suposta calmaria que nos é transmitida. Um programa informático faz desfilar sucessivos zeros no ecrã de um computador, presente junto da projecção, e que aleatoriamente executa uma intervenção no vídeo revelando uma situação inesperada, um diferente e deslocado acontecimento que questiona a condição frágil e precária do que se subentende por equilíbrio.

A obra “Illumination Rig (Island)â€, fotografia em caixa de luz, de 2008, funciona mais como citação a uma série de trabalhos, de arte pública, anteriores e mais emblemáticos de Gussin. As criações com o nome de “Illumination Rigâ€, tem como característica comum, o uso de holofotes de cinema para efectuar vários apontamentos de luz sobre situações tão diversas como: entulhos, traseiras de prédios, um arbusto, uma rocha, ou qualquer disposição que indicie uma citação a Robert Smithson, do qual Graham Gussin não se contém num manifesto gesto de admiração. Gussin tenta criar o ambiente de cenários-plataformas de rodagem de filmes (o plateau ou o set) onde uma textura ou uma arquitectura, sobre o foco ganha a preponderância de personagem.

“Illumination Rig (Island)†foi uma criação apresentada na oitava bienal de Sarjah nos Emirados Ãrabes Unidos em que vários holofotes iluminavam o entulho de uma ilha que de noite se encontrava, desta maneira, praticamente toda iluminada. A obra disponível em Vila de Conde é uma pobre réplica, que não mostra nem uma situação, nem uma extensão, que as “Illuminations Rings†anteriores contemplavam. Mesmo quando, a localização em que se encontra, na Solar (em frente a um descampado matoso) puxe para o universo do outdoor publicitário.

“Deliverance Mobileâ€, fotografia, de 2008 e “Dark Light Piece (Night of the Living Dead) Luminosity Wave Formâ€, vídeo, de 2002 são as restantes obras que se encontram em exibição. A primeira muito ao jeito das esculturas flutuantes de Calder apresenta uma série de elipses enegrecidas que contém impressas fotografias que colhem momento de suspensão, de espera – interlúdios na apropriação de cenas do filme Deliverance de John Boorman. Aqui a “suspensão (suspence) é para ser levada à letra†segundo palavras do site oficial de Graham Gussin. As elipses, ao mexerem-se em movimentos de translação e rotação, relacionam-se entre si criando diversas possibilidades narrativas. A segunda apresenta um vídeo numa fusão e entrelaçamento de ondas tecnologicamente geradas. As ondas são originadas pela leitura das diferentes luminosidades, de cada frame, do filme de Romero e formam uma massa verde em movimento.

Os trabalhos de Graham Gussin apresentados na Solar são uma relevante mostra da sua actividade. Um autor que não receia as citações e que tem no cinema (onde a citação acontece constantemente), a matéria que necessita.




NOTAS
(1) Publicação de 1927.





Rui Ribeiro