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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Nicolás Robbio, Sem Título, 2009. Vista da instalação na exposição “Emissores Reunidos: O Amanhã de Ontem Não é Hoje”.


Nicolás Robbio, “I’m Not Here”, 2009. Vista da instalação na exposição “Emissores Reunidos: O Amanhã de Ontem Não é Hoje”.


Nicolás Robbio, “Cine”, 2009. Vista da instalação na exposição “Emissores Reunidos: O Amanhã de Ontem Não é Hoje”.


Isabel Carvalho, “Como Sucedâneo da Vida”, 2009. Vista da instalação na exposição “Emissores Reunidos: O Amanhã de Ontem Não é Hoje”.


Isabel Carvalho, “Mostruário de horas tecidas em ambientes pesados resultando em diferentes padrões estéticos”, 2009. Vista da instalação em “Emissores Reunidos: O Amanhã de Ontem Não é Hoje“.

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ARQUIVO:


ISABEL CARVALHO /NICOLÁS ROBBIO

Emissores Reunidos: O Amanhã de Ontem Não é Hoje




ANTIGA RDP - PORTO
Rua Cândido dos Reis, N.º 74 Porto


03 JUL - 20 SET 2009


Esta intervenção expositiva do Museu de Serralves na Baixa do Porto apresenta-se sob diversos prismas. Por um lado, pretende dinamizar o acesso à arte na Baixa histórica do Porto, reforçando a ligação arquitectónica e histórica entre o edifício do Sindicato dos Bancários do Norte, posterior sede da RDP, concebida pelo Arquitecto Marques da Silva e a Casa de Serralves (do mesmo autor). Por outro lado, apresenta uma exposição temporária de dois artistas intitulada “Emissores Reunidos” e, ainda traz para fora de portas a colecção de vídeo de Serralves.

Nestes últimos dez anos, o Porto, tem assistido ao aparecimento e desaparecimento de inúmeros espaços “alternativos” dedicados à cultura e à arte contemporânea: o Salão Olímpico, a Sala, o Arte em Partes (com parte comercial e cultural sempre em mutação onde se destaca o projecto IN. TRANSIT), recentemente Uma Certa Falta de Coerência e o Espaço Campanhã, para além de tantos outros.

Recentemente esta dinâmica de espaços independentes eclodiu em Lisboa, cidade que se sempre se ancorou mais em grandes instituições e paralelamente na vida activa das suas galerias comerciais. Espaços e iniciativas como a Plataforma Revólver, o Kunsthalle de Lisboa, o Espaço Avenida, ou a Fábrica do Braço de Prata, para citar alguns.

Na conferência de imprensa da exposição “Emissores Reunidos”, João Fernandes (Director do Museu de Serralves) sublinhou o interesse de uma casa como Serralves, inscrita no panorama internacional, acompanhar estes movimentos “alternativos”, expondo no centro histórico da cidade. Penso que a distância entre a Fundação de Serralves, situada na Boavista, e a Rua Cândido dos Reis, não justifica uma itinerância da colecção permanente do museu na cidade. Contudo, reconheço que é uma forma de tornar visível obras que muitas vezes estão em depósito dando-lhes um período expositivo mais alargado.

Algo de diferente se passa com a exposição que tem curadoria de Ricardo Nicolau. Com o título “O Amanhã de Ontem Não é Hoje”, genialmente tomado de empréstimo do crítico Lawrence Alloway, constitui uma das exposições mais interessantes deste verão na cidade.

Nicolás Robbio (Mar del Plata,1975) é uma excelente descoberta, artista que poderíamos considerar um novo conceptual, nas suas vertentes escultórica e de instalação sonora. As obras concebidas para o edifício de “Emissores Reunidos” são singularmente poéticas. Isabel Carvalho (Porto,1977) oscila, como é constante na sua prática artística, entre uma inspiração proveniente das artes “menores” ou decorativas, patente nas suas instalações espaciais, e uma aguda observação doméstico−científica nos seus trabalhos em vídeo, que têm a minha preferência.

As obras de Robbio dialogam com uma excelente resolução artística entre o edifício, as práticas laborais (sindicato e rádio) que o habitaram, e a cidade do Porto. Reflexos da Ponte da Arrábida e do cinema Batalha em micro-instalações, um sino que no seu mecanismo abraça todo o edifício, a vibração de um instrumento de cordas revelada por um equilíbrio de forças visível, um estúdio de gravação assombrado por sons a um nível de decibéis fortíssimo recriam uma rádio habitada de forma artística.

A sala de convívio dos antigos funcionários da RDP revista por Isabel Carvalho é o lugar voyerístico por excelência do edifício, os espelhos cinzelados, o balcão em alumínio onde repousa um livro de crítica sobre a própria instituição de Serralves (penso nas injúrias de Jan Fabre nas suas performances no Louvre) e como diria a artista, mordemos a mão que nos alimenta? Encontram-se ainda programadas diversas actividades para esse espaço durante o mês de Setembro.

“One plus One” como diria o curador da exposição, é bem conseguido espacialmente. Depois é o assombrar de memórias e sensações radiofónicas, para pessoas como eu, que comecei a escrever crítica de arte e cultura para a Rádio Universidade de Coimbra no extinto Portugal àrder (programa diário orientado por Suzana Costa). Os rádio amadores voltam hoje para continuar a sentir o humano imaginário da Guerra dos Mundos de George Wells.

A voz sempre fez parte da ficção científica. Logo ali ao lado, no Edifício da Reitoria do Porto, encontramos outra excelente reflexão sobre a cidade na exposição, “Rescaldo e Ressonância” organizada por Inês Moreira. Apresentando trabalhos de três artistas: Paulo Mendes, Jonathan Saldanha e André Cepeda. Outro diálogo ainda mais cru entre arte e espaço, entre história e arquitectura, entre o incidente e a inscrição dos portugueses na sua história.

Pena que não sejam emitidas na mesma sintonia estas correntes de pesquisa curatorial, e que por vezes, o perene espírito aburguesado, numa cidade comercial, industrial e universitária como o Porto não permita uma reflexão em diálogo entre estas múltiplas manifestações e colaborações mais abertas entre estas diferentes iniciativas. Como Lisboa e Porto, continuamos tão perto e tão longe.



Sílvia Guerra