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RUI CALÇADA BASTOSSEGUNDO SONOCASA DA CERCA - CENTRO DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua da Cerca 2800-050 Almada 18 JUL - 22 NOV 2026
Umas botas de caminhante surgem suspensas quando, de vislumbre, as perscruto pela primeira vez. Pinturas de paisagem anunciam um trajecto incerto, sem destino aparente. Intuo uma ideia de viagem, de transitoriedade, costumeira na obra de Rui Calçada Bastos. Do outro lado descubro um cavalete, este pesado, contrário à leveza das peças que se distendem e palpitam, ao longo da exposição “Segundo Sono”, agora patente na Casa da Cerca e com curadoria de Cláudia Ramos .
Rui Calçada Bastos, Um passo gigante, 2026. Vista da exposição Segundo Sono, Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea. © António Jorge Silva
O cavalete, desgastado e sombrio, declara um jogo de opostos, de ambivalências que se afirmam na exposição, e na escolha do artista. As marcas de tinta, que se acumularam ao longo do tempo, na sua madura e maciça superfície de madeira enegrecida, deslocam-me, abruptamente, para o passado e para o lugar do artista no atelier. Espaço de intensidades, gestos e emoções. Remete-me para o trabalho invisível da pintura, os seus vestígios, cheiros e texturas, e para os objectos e utensílios que a suportam, e que, aos quais, lhes é dada, habitualmente, pouca atenção ou visibilidade. Era Daniel Buren que falava, certa vez, da ligação que se estabelecia entre o lugar íntimo do atelier, onde ocorre, claramente, o processo do artista — a experimentação, a hesitação, o erro — e a galeria, lugar de decisão e exibição formal da obra. Porém, estes dois lugares nem sempre se apresentaram cindidos. Por vezes, é no espaço da galeria que as fantasmagorias da criação se debelam e insinuam, e as dicotomias se digladiam e debatem. Diluindo fronteiras, entre a fantasia e a realidade, a ilusão e o verosímil. Porque as imagens também se apresentam enganosas aos nossos olhos. As peças suspensas de Calçada Bastos arrebatam-nos, surpreendem-nos, até percebermos, por fim, como se mantêm, tecnicamente, “a pairar” no ar.
Rui Calçada Bastos, Céu limpo, 2026.Vista da exposição Segundo Sono, Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea. © António Jorge Silva
O cavalete, por seu turno, permanece alheio e à revelia das levezas e iridescências que polvilham o espaço expositivo. Tudo nele se torna pesado, firme, material. O tempo aqui é gravidade, literalidade, matéria física. Por um lado, os vestígios concretos de tinta, deixados à superfície pela pintura, por outro, uma imagem umbrosa de uma paisagem pintada que se deixa adivinhar, e reforça a peça, pesada e grave, estendida sobre o solo da galeria. Os contornos, visíveis, de tinta deixados por pinturas de outrora, agora ausentes, sobre o mesmo cavalete (pesado e sombrio) usado pelo artista, induz-me ao vazio e à menção de uma ausência, assim como ao desvelamento do objeto de que falava Martin Heidegger, no seu “Ser e Tempo”. O objecto passou a ser notado e causou estranheza, porque deixou de ser usado como objecto utilitário e passou a ter uma aura de peça de arte, num contexto como o da exposição. As paisagens e as obras suspensas delongam e demoram no olhar. O lampejo dos vestígios de tinta aleatórios, mas que prefiguram a existência do ato criativo, e da gestualidade pictórica do artista, sugerem também a fugacidade do tempo, tornado evidente. O gesto, o movimento, são desvendados por meio de uma acção demorada e contemplativa do observador. As pequenas caixas portáteis, ou malas, do artista convocam, no observador, um estado melancólico, e evocam uma referência da frágil condição humana e da fugacidade nómada da vida. O olhar do artista poderia ser sobre si mesmo, autobiográfico, mas acima de tudo sobre os outros, sobre nós, a nossa solidão, a transitoriedade da existência, a perda, a memória, mas também a recuperação da vida, a esperança, a contemplação da beleza, e da natureza.
Carla CarboneEstudou Desenho no Ar.Co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador.
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