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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Willem de Ridder e Wim T. Schippers, “Mars door Amsterdamâ€, December 1963


Francis Alÿs, “Ambulantes IIâ€, edição 2-4, 1992-2003


Sam Leiter, “Phone Callâ€, 1957


Bill Owens, “Suburbiaâ€


Doug Aitken, “Electric Earthâ€, 1999


Doug Aitken, “Electric Earthâ€, 1999


Doug Aitken, “Electric Earthâ€, 1999

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COLECTIVA

Mapping the City




STEDELIJK MUSEUM AMSTERDAM
Museumplein 10
1071 DJ Amsterdam, Nederlands

16 FEV - 20 ABR 2007


A 6 de Dezembro de 1963, às três horas da tarde, seis homens sobem as escadas do túnel de passagem para peões da Estação Central, para realizar uma marcha através da cidade de Amesterdão. Em largas passadas, o grupo caminha pelas ruas Niuewendijk e Kalverstraat e atravessa a praça Munt em direcção à Rembrandtplein. A marcha termina tão abruptamente como começou. Poucas pessoas terão percebido que se tratava de uma curta performance (17 minutos para ser mais precisa) do movimento Fluxus, pensada pelos artistas Wim T. Schippers e Willem de Ridder. Com a projecção do registo da performance “Mars door Amsterdam†– uma pequena acção que ocorreu no centro de uma vulgar cidade durante uma regular tarde de inverno – dá-se início à mostra “Mapping the City†no Stedelijk Museum, inaugurada no passado dia 16 de Fevereiro.

Leontine Coelewij, curadora da exposição, pretende fazer uma revisão da forma como artistas e fotógrafos apreendem e experienciam a cidade desde os anos 60 até aos nossos dias. Como é que navegamos pela malha das ruas, passamos por prédios e atravessamos praças? Como é que nos comportamos na cidade? Quais são as regras e os rituais desta complexa construção urbanística e social?

Também nos anos 60, um outro artista Neerlandês desenvolvia os seus trabalhos nas ruas de Amesterdão, perguntando a transeuntes desta cidade como ir do ponto A ao ponto B. Por exemplo: como ir da praça Dam à Leidseplein. A cada esquema esboçado pelos interpelados, Stanley Brouwn deu-lhes o nome “This way Brouwnâ€. A efemeridade e a falta de intenção estética tornou, então, este projecto revolucionário. Brouwn entregou a criação do trabalho a terceiros: o transeunte casual da rua.

As acções de Brouwn, Schippers e De Ridder, são típicas da cidade moderna (rapidez, acaso, transitoriedade) e mostram como artistas nos anos 60, concebiam uma visão crítica sobre a cidade e a usavam como campo de trabalho. Mas em que é que consiste essa experiência da cidade moderna? Podemos pensar em dois conceitos como guias deste mapeamento: a figura de flâneur de Baudelaire, que caminha pela cidade observando-a, e a actividade de deambular sem um destino específico, que Guy Debord apresenta como uma nova forma de usufruir o espaço urbano.

O flâneur, descrito pela primeira vez por volta de 1860 em “O Pintor da Vida Modernaâ€, observa a multidão com alguma distância e é apresentado como um produto por excelência da modernidade. Originalmente pertence às ruas e arcadas da París do século XIX, mas também pode pertencer à Cidade do México do final século XX, onde o artista belga Francis Alÿs está sediado desde os finais dos anos 80. Alÿs é um caminhante solitário, que observa a vida caótica desta cidade e a regista em notas escritas, esboços, desenhos, fotografias e vídeos. O seu olhar dirige-se acriticamente para quem passeia ou simplesmente passa na praça central da cidade – Zocalo, que ele próprio define como sendo o seu atelier. Turistas, estudantes, empresários ou vendedores ambulantes que carregam os seus produtos, dão uma imagem de uma cidade ao mesmo tempo moderna e tradicional.

As caminhadas de Alÿs também se podem caracterizar como “derivas†Situacionistas. Debord descreve na sua “Theorie de la Deriveâ€, publicada na Revista Internacional Situacionista em 1958, esta actividade, como um procedimento de estudo psicogeográfico. Derivar, pode ser definido como um deambular pela cidade sem um destino, com o único objectivo de experienciar a cidade. Os Situacionistas – um grupo de jovens activistas, artistas e filósofos que formaram a base teórica da revolução estudantil de 1968 – desenvolveram a “deriva†como uma crítica ao urbanismo e arquitectura funcionais, e segundo eles demasiado impessoais, característico da sociedade de consumo das cidades modernas. A procura de uma nova experiência citadina tornava-se então importante.

Foi precisamente neste período, que muitos fotógrafos encarnaram a personagem do flâneur e caminharam pela multidão anónima, para a observar com um olhar atento aos pormenores e desenvolver uma nova forma de fotografia: a fotografia de rua. Um dos exemplos presentes nesta mostra, é o nova-iorquino Saul Leiter, que apresenta uma série de diapositivos da década de 50, onde a confusão da cidade é acentuada pelos reflexos de vitrinas. Em foco estão misturas de imagens de pessoas e automóveis, que se sobrepõem simultaneamente, criando uma malha de cores e formas por vezes difíceis de decifrar.

Mas o conceito de cidade estende-se e na década de 70 surge um novo fenómeno: a classe média branca americana deixa o antigo centro da cidade e vai viver para os novos arredores. Uma casa própria numa envolvente segura e limpa e com carro à porta – era o ideal de vida. Assim fotografou Bill Owens nestes subúrbios de 1973, a felicidade e os ideais da classe média. A cada imagem Owens acrescenta um comentário, dito por quem é fotografado, que ganha nos nossos dias um sentido irónico.

Baudelaire situou o flâneur na capital do século XIX: Paris. No trabalho de Doug Aitken, observamos uma das metrópoles do século XXI através dos olhos de um flâneur contemporâneo: Los Angeles – a cidade onde o espectáculo da nossa capitalista sociedade de consumo, atinge o seu expoente máximo. Mas Aitken mostra-nos o inverso desse mundo em “Electric Earth†(1999). À noite, nas ruas abandonadas de Los Angeles, as lojas estão fechadas e os parques de estacionamento vazios. Em “Ecology of Fear†(1999) Mike Davis descreve Los Angeles como a cidade exemplo do medo e do perigo (ataques terroristas, tumultos raciais, cataclismos). Os condomínios fechados para os mais abonados, desenvolvidos e pensados para evitar o crime e a violência, proliferam, ao mesmo tempo que a vida pública e o contacto interpessoal nas ruas da cidade é aniquilado. “Electric Earth†dá uma visão intrigante e ao mesmo tempo sinistra de Los Angeles dos nossos dias, onde o flâneur já não caminha na multidão – mas dança sozinho numa cidade desolada. Infelizmente não necessitamos de atravessar o oceano para nos depararmos com a mesma realidade. Este vídeo recordou-me em muito, embora numa outra escala, os últimos passeios nocturnos que dei nas ruas desertas do Porto.


Daniela Paes Leão