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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Alice Grillo de Lima, Amores-perfeitos, anterior a 1926. Óleo sobre tela, 52.5×43.5 cm. MMP | MNSR © Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Rita Magalhães, Romãs, 2024. 130x97cm


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Rita Magalhães, Ramo de macieira, 2025. 170x108cm.


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro


Rita Magalhães, Vanitas, 2025. 54x68cm


Vista da exposição Face a Face - Rita Magalhães e a Natureza-Morta na Coleção do MNSR 2026. MMP | MNSR @ Rui Pinheiro

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ARQUIVO:


RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR




MUSEU NACIONAL DE SOARES DOS REIS
Palácio dos Carrancas Rua D. Manuel II
4050-342 Porto

29 JAN - 18 MAI 2026


 


Sejamos francos! Não nos sentimos frequentemente, ou quase sempre, um pouco aborrecidos perante naturezas-mortas? Podemos admirar a beleza, a riqueza, a abundância, as formas, as cores. Podemos ser seduzidos por efeitos de trompe-l'oeil, de analogias, de evocações ou por reflexos e jogos de luz. Elogiaremos o talento do pintor, a sua habilidade em representar a luz, as texturas. Perante uma natureza-morta, é suposto meditar sobre a riqueza, sobre o poder, sobre a passagem do tempo, sobre a fugacidade dos prazeres, sobre a morte muitas vezes face às vaidades. Mas admitamos, muitas vezes é um pouco aborrecido. Sentimos admiração pelo artista, mas mantemo-nos distantes. Nenhuma emoção além da estética, mesmo se, por vezes, ela possa ser imensa perante um Cézanne, um Morandi ou um Weisberg. E, sobre este género, em última análise, menor, a literatura é abundante (Sterling, Wajcman, Bertrand Dorléac, ….) e as exposições numerosas (da National Gallery ao Louvre). Por vezes, para ir além dessa beleza formal, existem raras exceções, quando o pintor se entrega de corpo e alma, esquece a distância que o separava do seu tema, quando vemos na tela as suas angústias, as suas paixões, as suas entranhas, o seu coração, o seu sexo, a sua morte. É assim a raia de Chardin, o boi esfolado de Rembrandt e, mais ainda, o de Soutine. Como disse Denis Malartre a propósito das naturezas-mortas de Chardin: são "objectos sensíveis, tão saborosos e reais que nos fazem acreditar em milagres. Aqui, a abstracção faz salivar". 

A exposição "Face a Face" no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto (até 18 de Maio), teria sido polidamente aborrecida se tivesse apresentado apenas os quadros de naturezas-mortas das colecções do museu. Dezasseis telas datadas dos séculos XVII e XVIII, o grande período das naturezas mortas, provenientes de Espanha, da Flandres ou da Holanda (mas nenhuma da pintora nacional, Josefa de Óbidos, nem aquele belo Pieter Claezs de 1645, exposto noutra parte do museu), e doze outras telas são de pintores portugueses do final do século XIX ou do início do século XX. 

 

Anónimo, Fruitero (numa paisagem), séc. XVII/XVIII. Óleo sobre tela, 89.2x72cm, MMP | MNSR. © Rui Pinheiro.

 

Como em tantas outras exposições de naturezas mortas (Les Choses au Louvre em 2022 foi uma notável excepção, pois procurava revelar a alma secreta dos objetos inanimados), contentamo-nos em meditar um pouco sobre a futilidade das coisas, de divertir-nos um pouco (diante da horrenda lagosta de Eduardo Viana) e, basicamente, de simplesmente admirar sem mais a técnica repetida mil vezes, como o virtuosismo do jogo de luz sobre as uvas na pintura anónima do século XVII/XVIII, Fruteiro (numa paisagem), ou a suavidade táctil das pétalas das violetas silvestres ("amores perfeitos" em português) de Alice Grillo de Lima (primeiro quartel do século XX).

Contentar-nos-íamos com isso à falta de algo melhor não fosse o facto de, misturadas com estas 28 telas nas paredes vermelhas, estarem 28 fotografias de Rita Magalhães. Fotografias, realmente? À entrada da sala, com vista para a exposição, uma extravagante moldura dourada apresenta uma Vanitas discreta. O objetivo é evidente, levar o visitante a interrogar-se: pintura ou fotografia? Então, claro, o pequeno jogo poderia ser de distinguir sem ler as legendas o que é pintura e o que é fotografia, e, às vezes, podemos enganar-nos. Uma das distinções evidentes aqui, é antes de mais que as naturezas mortas pintadas são, na sua maioria, nítidas, completas, estáticas, bem acabadas, bem “polidas”, elas afirmam-se claramente face ao mundo, elas assumem o seu papel de representação. Enquanto as fotografias são desfocadas, indecisas, caprichosas, movimentadas, as formas são abertas, fragmentadas, os contornos são imprecisos.

 

Rita Magalhães, Saco de pano, 2024. 170x90cm.

 

As pinturas fecham o olhar sobre o que elas mostram, as fotografias abrem-no, em direção ao desconhecido, em direção ao sonho. Reparem neste simples saco de lona suspenso: pode ver ali um vestido, um fantasma, um animal marinho, um pedaço de carne, quem sabe? Os ramos pendentes parecem desenhar com a sua sombra caligrafias abstratas; jovens raparigas fundem-se nas flores e na vegetação como Dafne transformando-se num loureiro (enquanto nas duas pinturas do século XVIII das quatro estações, as duas mulheres com as suas expressões inocentes, são bem presentes e preferem desviar as atenções dos frutos da primavera ou do outono, artisticamente pintados ao seu lado).

 

Rita Magalhães, Entre as flores, 2025. 53x70cm

 

Como expliquei com mais detalhe há quatro anos, durante a sua exposição de paisagens algo melancólicas numa galeria próxima, Rita Magalhães não intervém na pós-produção para transformar assim a imagem, mas ela complementa o seu equipamento de câmara com diversos dispositivos óticos permitindo-lhe jogar entre a realidade e a invenção, distanciar-se de uma representação demasiado fiel, e introduzir mistério e onirismo nas suas composições. Estas fotografias foram realizadas ao longo das estações do ano numa divisão isolada de uma mansão familiar, uma divisão própria, um lugar íntimo e secreto. E a expressão sensual destas imagens parece brotar ela também de um lugar íntimo e secreto, oculto de todos, no âmago de si mesma. Os jogos de luz, os arranjos, as texturas, tudo aqui contribui para reforçar esta sensação de intimidade e sensualidade.

 

Rita Magalhães, Figos, 2020. 98x130cm

 

Pois estas imagens são terrivelmente, irrevogavelmente sensuais. Os figos abertos, as pétalas das flores, as romãs a desabrochar, tudo aqui convida à carícia, tudo suscita o desejo. Certamente que estes frutos são simbólicos: a romã símbolo de união e de concórdia; a maçã de amizade; a pêra de doçura; a rosa de beleza; o pêssego de amor; o figo de sexualidade. Mas, para além destas alegorias, é a forma como a artista as observa e as trata que nos comove. Nem distância, nem reserva: para o conseguir, é necessário abandonar toda a frieza superficial para atingir verdades mais profundas, sejam elas melancólicas ou sensuais, é preciso expor-se, tornar-se vulnerável, entregar-se aqui como em nenhum outro lugar.

Essa sensualidade é uma lufada de ar fresco aqui, pois, em outras partes deste museu, que por outro lado é de grande qualidade, ela parece ter sido banida (como aliás em muitos outros em Portugal). À parte uma medíocre e púdica tela de José Malhoa, A Ilha dos Amores (1908), a única pintura um pouco sensual de todo o museu, salvo erro, é Céfalo e Prócris de Marques de Oliveira (1879), a única que ousa mostrar um seio feminino (mas a legenda faz questão de salientar que este tipo de tema – mitológico – é muito raro em Portugal…). As galerias aqui contêm apenas paisagens, retratos e cenas de género (com alguns nus masculinos de Soares dos Reis), e, durante a minha visita anterior, no final de 2025, a anatomia feminina era exibida apenas sob a forma de desenhos anatómicos do médico Alberto Sousa. Para compensar esta secura é, pois, necessário apressar-se, antes de 18 de Maio, ir até ao fundo do museu e passear languidamente diante das paredes vermelhas desta exposição única…

 

 


Marc Lenot
É desde 2005 autor do blog Lunettes Rouges, publicado pelo jornal Le Monde. Em 2009 obteve o grau de Mestre com uma dissertação sobre o fotógrafo checo Miroslav Tichý, e em 2016 doutorou-se pela Universidade de Paris com uma tese sobre fotografia experimental contemporânea. Membro da AICA, venceu em 2014 o Prémio de Crítica de Arte AICA França, pela sua apresentação do trabalho da artista franco-equatoriana Estefanía Peñafiel Loaiza.



MARC LENOT