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RITA MAGALHÃESFACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSRMUSEU NACIONAL DE SOARES DOS REIS Palácio dos Carrancas Rua D. Manuel II 4050-342 Porto 29 JAN - 18 MAI 2026
A exposição "Face a Face" no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto (até 18 de Maio), teria sido polidamente aborrecida se tivesse apresentado apenas os quadros de naturezas-mortas das colecções do museu. Dezasseis telas datadas dos séculos XVII e XVIII, o grande período das naturezas mortas, provenientes de Espanha, da Flandres ou da Holanda (mas nenhuma da pintora nacional, Josefa de Óbidos, nem aquele belo Pieter Claezs de 1645, exposto noutra parte do museu), e doze outras telas são de pintores portugueses do final do século XIX ou do início do século XX.
Anónimo, Fruitero (numa paisagem), séc. XVII/XVIII. Óleo sobre tela, 89.2x72cm, MMP | MNSR. © Rui Pinheiro.
Como em tantas outras exposições de naturezas mortas (Les Choses au Louvre em 2022 foi uma notável excepção, pois procurava revelar a alma secreta dos objetos inanimados), contentamo-nos em meditar um pouco sobre a futilidade das coisas, de divertir-nos um pouco (diante da horrenda lagosta de Eduardo Viana) e, basicamente, de simplesmente admirar sem mais a técnica repetida mil vezes, como o virtuosismo do jogo de luz sobre as uvas na pintura anónima do século XVII/XVIII, Fruteiro (numa paisagem), ou a suavidade táctil das pétalas das violetas silvestres ("amores perfeitos" em português) de Alice Grillo de Lima (primeiro quartel do século XX). Contentar-nos-íamos com isso à falta de algo melhor não fosse o facto de, misturadas com estas 28 telas nas paredes vermelhas, estarem 28 fotografias de Rita Magalhães. Fotografias, realmente? À entrada da sala, com vista para a exposição, uma extravagante moldura dourada apresenta uma Vanitas discreta. O objetivo é evidente, levar o visitante a interrogar-se: pintura ou fotografia? Então, claro, o pequeno jogo poderia ser de distinguir sem ler as legendas o que é pintura e o que é fotografia, e, às vezes, podemos enganar-nos. Uma das distinções evidentes aqui, é antes de mais que as naturezas mortas pintadas são, na sua maioria, nítidas, completas, estáticas, bem acabadas, bem “polidas”, elas afirmam-se claramente face ao mundo, elas assumem o seu papel de representação. Enquanto as fotografias são desfocadas, indecisas, caprichosas, movimentadas, as formas são abertas, fragmentadas, os contornos são imprecisos.
Rita Magalhães, Saco de pano, 2024. 170x90cm.
As pinturas fecham o olhar sobre o que elas mostram, as fotografias abrem-no, em direção ao desconhecido, em direção ao sonho. Reparem neste simples saco de lona suspenso: pode ver ali um vestido, um fantasma, um animal marinho, um pedaço de carne, quem sabe? Os ramos pendentes parecem desenhar com a sua sombra caligrafias abstratas; jovens raparigas fundem-se nas flores e na vegetação como Dafne transformando-se num loureiro (enquanto nas duas pinturas do século XVIII das quatro estações, as duas mulheres com as suas expressões inocentes, são bem presentes e preferem desviar as atenções dos frutos da primavera ou do outono, artisticamente pintados ao seu lado).
Rita Magalhães, Entre as flores, 2025. 53x70cm
Como expliquei com mais detalhe há quatro anos, durante a sua exposição de paisagens algo melancólicas numa galeria próxima, Rita Magalhães não intervém na pós-produção para transformar assim a imagem, mas ela complementa o seu equipamento de câmara com diversos dispositivos óticos permitindo-lhe jogar entre a realidade e a invenção, distanciar-se de uma representação demasiado fiel, e introduzir mistério e onirismo nas suas composições. Estas fotografias foram realizadas ao longo das estações do ano numa divisão isolada de uma mansão familiar, uma divisão própria, um lugar íntimo e secreto. E a expressão sensual destas imagens parece brotar ela também de um lugar íntimo e secreto, oculto de todos, no âmago de si mesma. Os jogos de luz, os arranjos, as texturas, tudo aqui contribui para reforçar esta sensação de intimidade e sensualidade.
Rita Magalhães, Figos, 2020. 98x130cm
Pois estas imagens são terrivelmente, irrevogavelmente sensuais. Os figos abertos, as pétalas das flores, as romãs a desabrochar, tudo aqui convida à carícia, tudo suscita o desejo. Certamente que estes frutos são simbólicos: a romã símbolo de união e de concórdia; a maçã de amizade; a pêra de doçura; a rosa de beleza; o pêssego de amor; o figo de sexualidade. Mas, para além destas alegorias, é a forma como a artista as observa e as trata que nos comove. Nem distância, nem reserva: para o conseguir, é necessário abandonar toda a frieza superficial para atingir verdades mais profundas, sejam elas melancólicas ou sensuais, é preciso expor-se, tornar-se vulnerável, entregar-se aqui como em nenhum outro lugar. Essa sensualidade é uma lufada de ar fresco aqui, pois, em outras partes deste museu, que por outro lado é de grande qualidade, ela parece ter sido banida (como aliás em muitos outros em Portugal). À parte uma medíocre e púdica tela de José Malhoa, A Ilha dos Amores (1908), a única pintura um pouco sensual de todo o museu, salvo erro, é Céfalo e Prócris de Marques de Oliveira (1879), a única que ousa mostrar um seio feminino (mas a legenda faz questão de salientar que este tipo de tema – mitológico – é muito raro em Portugal…). As galerias aqui contêm apenas paisagens, retratos e cenas de género (com alguns nus masculinos de Soares dos Reis), e, durante a minha visita anterior, no final de 2025, a anatomia feminina era exibida apenas sob a forma de desenhos anatómicos do médico Alberto Sousa. Para compensar esta secura é, pois, necessário apressar-se, antes de 18 de Maio, ir até ao fundo do museu e passear languidamente diante das paredes vermelhas desta exposição única…
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