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SUSANA ROCHALEAKING BODIESPLATO (PORTO) Rua de Brito Capelo, n.º 152 4050-118 Porto 24 JAN - 28 FEV 2026
O prazer, argumenta a artista, resiste à fantasia do corpo tecnológico altamente funcional e otimizado, pois não existe sem excessos, desperdícios e fricção com a dor. Assim, a interligação neurocognitiva entre dor física e prazer emocional pode repercutir-se numa “estética melancólica”. Sendo que a arte tem essa capacidade de nos permitir experimentar emoções profundas por identificação, a comoção sem consequências diretas, e a expansão do território afetivo. Neste sentido, “Leaking Bodies” explora a ambiguidade do prazer (ou hedonismo) e como a tecnologia, sendo arquivo e gatilho de memórias, despoleta experiências que tanto nos confortam, como nos ferem.
Vista da exposição Leaking Bodies de Susana Rocha. PLATO, Porto. © Ana Santos / Cortesia da galeria PLATO
O conjunto de obras apresentadas não se prende a um literalismo antropomórfico que possibilite uma tradução simplista da fórmula narrativa adotada. Ao invés, surge em abstrações variadas, mas dentro de um mesmo programa estético e material. Como que uma formatação física da imaginação/intuição que Brian Massumi (2002) argumenta ser o pensamento que melhor acompanha o “virtual” nas suas passagens, interstícios, dobras e redobras, sustentado pelo “diagrama sem fixar”. Ou seja, as obras ramificando-se diversas a partir de um núcleo estético, não revelam um “desenho” final, mas um mapa de forças e relações com zonas de instabilidade, continuidade e vizinhança. E sem formas definitivas, auguram desdobramentos e o vir-a-ser. Dos materiais destaca-se uma repetição do uso de fitas de borracha preta, estruturas metálicas (grades, argolas...) e ferragens (parafusos, tachas...), que remetem para a força, o suporte, o controlo e, de certa forma, para a artificialidade. Compostos em diferentes instalações, evidenciam uma estética aproximada de subculturas como o gótico urbano, o metal, o punk ou mesmo as práticas sadomasoquistas que, não obstante, integram aspetos diferenciadores na forma como concetualizam o prazer e a dor. Esta materialidade de permanência é invadida por apontamentos que convocam a fluidez e a efemeridade. Permitindo a recordação de que a corporalidade pós-humana pode ser: nomádica no sentido da epistemologia do deslocamento que transgride dualismos (sujeito/objeto; natureza/cultura; corpo/mente); não unitária porque nela se assomam composições, contradições, por vezes estratificações, e multiplicidades; e, também, como campo de intersecções biológicas, sociais, materiais, simbólicas, institucionais e afetivas. É o vidro transparente, em formas quebradas e afiladas e em gotas penduradas nas estruturas metálicas ou na ponta das fitas de borracha, que traz a representação dessa fluidez da ação do corpo-água. Como uma provocação orquestrada da possibilidade de corpos inorgânicos coreografarem processos orgânicos. Há um sentido de vazamento que é, paradoxalmente, perda e caminho. A estanquicidade adormecida dá espaço à fluidez da matéria que abandona um corpo para encontrar outro. Como acontece na vida quotidiana. Será a chuva no toque com todas as peles do mundo – seja o zinco dos telhados, as folhas de uma árvore, o cabelo aprumado – assim como as lágrimas que escorrem pelas faces como pequenos rios. São processos biológicos, naturezas líquidas, composições químicas e arrebatamentos da existência. Em “Sinking Feeling” (2025), uma fita de borracha preta, como espinha dorsal, sustenta formas afuniladas de vidro transparente, que se desdobram como ramificações nervosas. Nesta encenação, a matéria corporifica o conflito psíquico onde o EGO surge destabilizado, o ID pronunciado e o SUPEREGO adormecido. Pulsão fulgurante, moral reprimida. O encontro entre borracha e vidro denuncia um regime de forças: entre elasticidade, fragilidade, resistência e quebra. O objeto, sendo artifício, não sente. Mas, guarda vestígios do tempo e do gesto, como um arquivo de tensões que o olhar reconhece e reconfigura. E ao guardar, consciencializa-nos para as inquietações prazerosas e dolorosas que passam pelo corpo – e nele permanecem. De um outro sentir, as luvas dimensionalmente sobre-humanas (“Clinical Touch”, 2025) auguram um toque amplificado. Serão estas, hipérboles do transumanismo que colocam o humano no monstruoso ou como expressão exacerbada do prazer e/ou da dor, como as inserções metálicas pontiagudas, que as rematam, sugestionam? As ferragens, sejam achatadas ou afuniladas, servem um jogo de contrastes ao serem, literalmente, cravadas nas imagens emolduradas de “Hedone #1” (2025) e “Hedone #2” (2025). Na substância líquida ou na potencial maciez da pelagem, estes pequenos objetos metálicos surgem como invasores e desestabilizadores da fluidez e do prazer.
Pormenor de Leave it to the worms, 2025, de Susana Rocha. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo
Como símbolo do princípio e do fim, da vida e da escatologia, surge a larva. Conhecemo-la como pré-forma de uma transformação e celebração de uma outra vida que irá brotar. Mas, como verme, calha-lhe também a denúncia do lamento do corpo em decomposição, pois sendo “operário das ruínas” devora os tecidos e “à vida em geral declara guerra”, conforme declarou o poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914), no seu poema “Psicologia de um vencido” (1909). Em “Leave it to the worms” (2025), pequenas larvas de vidro “passeiam” pela estrutura, como transitividade e transformação. Podendo indiciar que todos os corpos, orgânicos ou artificiais, negoceiam a sua própria ruína e metamorfose. A exposição de Susana Rocha, divergente de uma utopia assética do corpo e do embotamento afetivo, propõe, desta forma, uma contaminação entre (bio)físico e (tecno)afetivo. Entendendo as corporalidades (orgânicas e não orgânicas) como espaços de fluidez, e não como “percursos” congelados numa trilha única. Dor e prazer desaguam (e não raras vezes se cruzam) em intensidades e tensões, fazendo parte da extensão entre realidade e virtualidade. Combinando cuidado e controle, intrusão e deleite, metamorfose e ruína. Da existência que proveio há milhões de anos da alquimia estelar, terminámos em húmus, adubo de reminiscências, arquivos de contato. No “entre” ficam as viagens do ser, entre dor e prazer: o que passou, o que restou e o que se transformou. No fim, talvez sejamos memória e objeto, rasto e coisa. Talvez o fim, na verdade, seja só um estratagema sórdido de continuidades.
Sandra Silva
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Referências Augusto dos Anjos. Psicologia de um vencido In Escritas. https://www.escritas.org/pt/t/12233/psicologia-de-um-vencido
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Nota sobre as imagens A exposição Leaking Bodies, de Susana Rocha, esteve primeiramente patente de 18 de Outubro a 21 de Novembro de 2025 no espaço da galeria Plato em Évora. As imagens da exposição aqui presentes foram realizadas nesse espaço, à excepção da primeira imagem inserida no corpo do texto.
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