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WILFRID ALMENDRAHARVESTGALERIA MUNICIPAL DE ARTE DE ALMADA Av. D. Nuno Ãlvares Pereira, 74 - A 2800-177 Almada 10 OUT - 28 FEV 2026
A Galeria Municipal de Almada acolhe a exposição Harvest do artista Wilfrid Almendra. A exposição constitui a primeira individual institucional do artista no nosso país. Numa primeira sala flores delicadas surgem apertadas entre vidros transparentes. Cristalizadas, enclausuradas, foram retiradas do seu lugar original que lhes pertencia por direito, a natureza. A paisagem natural, ela própria, consistiu numa invenção, a partir do momento em que os homens, com a urgência no cultivo das terras, as fracturaram, manipularam, e alteraram o seu curso. A paisagem é, por excelência, fragmento, construção, artifício, ideia. Almendra oferece-nos o deleite, o regalo das flores, através da captura do instante, no tempo. As flores pairam como aparições, sombras de uma ideia de natureza infindável, mas extinta. É por isso que se torna tão difícil não evocar os problemas do ambiente, tão actuais e fracturantes. E dessa forma a moldura da natureza vai-nos inquietando, porque o seu território vai-se estreitando, miniaturizando, e dissolvendo. Almendra, pelo menos assim o vejo, é hábil em representar a fugacidade, a transitoriedade do ato, e a sobrevivência do gesto anónimo das populações fragilizadas que procuram abrigar-se nas suas construções débeis e efémeras. É deles que faz homenagem. O esforço, por vezes inglório, dos povos que, mesmo sedentários, lutam contra as condições climáticas, económicas e ambientais adversas. Mas Almendra evoca a impressão digital dos trabalhadores, o incompleto, o gesto, o ato e a potência de Aristóteles.
Vista da exposição Harvest, de Wilfrid Almendra. Galeria Municipal de Arte de Almada. © Antonio Jorge Silva
No começo do percurso, Almendra colocou uma estrutura ténue, delgada, sobre o solo, ao centro da sala. Vários materiais, alguns de frágil construção, como chapas onduladas entre outros, assomam, articulados entre si, de modo débil. A estrutura, que aparenta ser uma amostra de um pequeno habitat, um abrigo, ou vedação, foi construída com o recurso a vários materiais reciclados, que terão sido encontrados ao acaso, no campo ou na cidade. Intuímos essas pequenas construções, como os espaços imaginados em que se inserem. Almendra consegue, primeiro, transportar-me para fora da galeria, e depois, fazer-me perceber, através da transitoriedade, a inexistência de barreiras arquitectónicas.
Vista da exposição Harvest, de Wilfrid Almendra. Galeria Municipal de Arte de Almada. © Antonio Jorge Silva
Talvez esta exterioridade, e falta de fronteiras, possa estar associada às memórias e à experiência que Almendra teve em criança. O pai foi emigrante em França, e o artista habituou-se a ver o trabalhar nas hortas comunitárias, onde havia legumes para comer e se cultivavam flores. O artista conhece bem a vida do trabalho. Em adolescente, trabalhou num matadouro, na confecção de bifes e molhos.
Vista da exposição Harvest, de Wilfrid Almendra. Galeria Municipal de Arte de Almada. © Antonio Jorge Silva
Toda a exposição é feita destas estruturas sensíveis, e de flores delicadas e engastadas, mas o que Almendra parece celebrar é a própria vida, a vida dos trabalhadores, com as suas produções de delicada e efémera estética. O artista, em plena conexão, e sintonia, com as causas sociais e ambientais, revela a capacidade de resiliência dos trabalhadores, de saberem reerguer e construir, a partir dos escombros, verdadeiros e preciosos atos poéticos, de arte anónima, de extrema riqueza e significado.
Vista da exposição Harvest, de Wilfrid Almendra. Galeria Municipal de Arte de Almada. © Antonio Jorge Silva
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Carla Carbone
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