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ANTÓNIO OLAIOI think differently, now that I can paintCENTRO CULTURAL VILA FLOR Avenida D. Afonso Henriques 701 4810-431 Guimarães 27 JAN - 15 ABR 2007 O exterior, e depois, a margem terão sido os primeiros lugares da escrita em relação à imagem. Se nos lembrarmos dos títulos que do exterior ainda apontam para a obra, ou das placas colocadas nas molduras que contêm a data e o nome do autor gravado, verificamos que nas composições clássicas de pintura a bidimensionalidade da escrita seria inconciliável com a tridimensionalidade do espaço de representação da imagem. As múltiplas formas de inserção de uma na outra passaram pela criação de lugares, topos exclusivos capazes de sustentar esta aparente clivagem, por exemplo, o trompe-l’œil acabou por criar uma margem fictícia na representação que permitia distinguir o espaço da imagem e o espaço da escrita. A fabricação de um suporte que fosse parte do cenário, uma pedra talhada na paisagem, ou mesmo um livro, assim como a utilização do “cartellino”, eram outras estratégias, que se averiguavam nas obras do germânico Dürer e do veneziano Giovanni Bellini, que autorizavam um espaço adequado à escrita na presentificação da imagem. A palavra era, sem dúvida, uma perturbação heterogénea no espaço pictórico. O trabalho do artista António Olaio, que agora pode ser visto numa exposição antológica no Centro Cultura Vila Flor em Guimarães, no seu formato vídeo/performance/canção, pintura, ou desenho, apresenta a escrita associada à imagem sem esse conflito, mas antes num jogo semântico que nos permite referenciar outros artistas longínquos das anteriores problemáticas renascentistas: Marcel Duchamp e René Magritte. “Fontaine” e “Ceci n’est pas une pipe”, títulos de obras emblemáticas da vanguarda na modernidade, iniciaram um percurso de performatividade conceptual na arte, que pode ser aqui estabelecido precisamente na relação entre a palavra e a imagem. O ready-made de Duchamp que altera por si o significado de “objecto-comum” para “obra de arte”, onde o título e a assinatura estão para conferir esse acto. E o cachimbo de Magritte, imagem verbal e imagem visual, que desierarquiza a antipatia dispondo os elementos diferentes, o texto e a imagem, mas ao mesmo tempo unindo-os numa mesma matriz. Tal como nas imagens de António Olaio a palavra aparece caligraficamente desenhada sem requisitar nenhum espaço que lhe seja previamente justificado, como reflectiu Michael Foucault, esta inserção que implicaria um “discurso” na imagem, na arte, em Magritte acabaria por ser não-afirmativo. Algumas pinturas de Olaio potenciam a trivialidade: a representação de um pormenor de uma cama usada num ambiente romanticamente melancólico, os lençóis cor-de-rosa; tornam-se uma expedição “NATIONAL GEOGRAFIC”. Aquilo que é cliché desdobra-se e transforma-se em acção conceptual. Outras encadeiam relações complexas entre a composição da imagem e o discurso. Em “Is speech faster than thought?, cada palavra está na íntegra numa “paisagem”, sendo quase uma simulação da velocidade e do trajecto de pensamento. O trabalho de Olaio vem da performatividade, da performatividade do pensamento e das imagens, “...é nas possibilidades plásticas das ideias que a imagem se forma. Plásticas mesmo no sentido como as gentes das ciências o aplicam. Uma substância plástica, ou uma célula plástica é aquela que se adapta melhor. É como a possibilidade das células estaminais que têm uma enorme versatilidade podendo vir a tornar-se rins, pulmão ou estômago.”, disse o artista. A exposição não é em si generosa, não nos entrega aquilo que queríamos ver e ouvir: a tentativa de reunir toda a obra de António Olaio. Ela é antes fragmentada, querendo ser antológica: as séries estão maioritariamente desmembradas, por exemplo de “Bambi is in jail” aparecem três peças. A imagem que dá “título” ao livro que foi publicado, e à própria exposição, “I think differently now that I can paint” não aparece, e por isso talvez tenha sido a mais desejada. Por outro lado é um entusiasmo rever alguns trabalhos como “Sit on my soul” ou “Kiss my feet”. Já o livro inclui uma data de trabalhos reproduzidos e uma grande conversa com Vítor Diniz, director do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Mas o que nos fixa, de facto, à exposição, o que nos faz demorar, são as Songs & Vídeos, realizados em colaboração com João Taborda. “If I wasn’t an artist”, na cave, aproveitou a arquitectura para se instalar de forma a reverberar e amplificar o som. Está apresentado isoladamente, destacado, assim como “Translating Johnny” na sala de entrada, enquanto os outros estão seguidos numa projecção na sala do primeiro andar. A pintura é naturalmente ocupada pela canção, cada sala tem “uma” música. Ou deveríamos dizer que a imagem é naturalmente ocupada por outras linguagens, como a música e a escrita. Essas ocupações, da performance à pintura, das palavras desenhadas às letras das canções, ou vice-versa, servem para realizar imagens estimulantes de um “delírio conceptual”, imagem que exerce pensamento: “como qualquer artista sou um técnico de estímulos. É como um cientista a misturar as substâncias. Para a reacção acontecer os reagentes têm de estar em proporções que resultem.“, citando de novo Olaio. A exposição vem sublinhar o vasto trabalho desenvolvido pelo artista, e a sua significância no panorama das artes plásticas português. Desde 1983 que António Olaio tem constituído uma plataforma transversal — além de artista e músico, é professor universitário e desenvolve trabalho académico — dotada de uma integridade, mesmo que pareça psicadélica, incontornável para a geração mais emergente. Parece, por isso, incompreensível não estar representado numa exposição como “Anos 80: Uma Topologia”. Uma falta que acabou, por coincidência, de ser compensada por esta exposição.
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