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DAVID LYNCHThe air is on fireFONDATION CARTIER POUR L’ART CONTEMPORAIN 261, Boulevard Raspail 75014 Paris 03 MAR - 27 MAI 2007 The air is on fire!O ponto de vista de um verme na terra que, entre as ervas, observa a chegada de homens e mulheres que se comportam com a simplicidade americana, mas que podem, de um momento para o outro, atravessar paredes, pode ser a perspectiva ou focalização aspirante mais adequada para entrar no mundo de David Lynch. O cineasta está, neste momento, a ocupar Paris: “The air is on fire†é o nome da exposição patente na Fondation Cartier pour l’art contemporain. Consagrada “à s múltiplas facetas da sua obra plásticaâ€, a Galerie du Jour, de Agnès B., apresentou fotogramas seleccionados do novo filme de David Lynch, “Inland Empireâ€, que está ainda em exibição nas salas francesas. Os cineastas entraram definitivamente no museu. Desta vez e após “Voyages en Utopie(s)†de Jean-Luc Godard, no Centre National Georges Pompidou, a Fondation Cartier apresenta a obra plástica de David Lynch, no seguimento da exposição “L’île et elle†de Agnès Varda (2006). A exposição não está ligada ao filme, ou a personagens ou factos irreais, salvo por pura coincidência. No entanto, apresenta uma magnÃfica banda sonora, igualmente narcótica; no entanto, um décor de sala de estar é a instalação mais surpreendente; no entanto, um pequeno cinema ocupa a área central da cave da fundação; no entanto, as telas estão instaladas como os telões de um cenário: no entanto, o néon que anuncia e dá nome à exposição é um convite a entrar no seu universo, tal como “Fire walk with me†nos atraiu para a sempre viva, e sempre morta, Laura Palmer, de “Twin Peaks†(1992). O universo de David Lynch é a sua cabeça que cresceu para o cinema com “Eraserhead†em 1977. Os cerca de 500 desenhos em bloco-notas de hotéis, em guardanapos de papel e em post-its, que ocupam a primeira grande sala à direita da fundação, marcam o crescente interesse de Lynch pela geometria que domina os seus sonhos: a casa a arder, as pirâmides de chamas, os nomes de mulher; e as telas saturadas em múltiplos layers de pigmento presentes no centro deste espaço, executadas dentro de uma palete onde o cinza e o negro dominam, são quase sempre abstractas e não nos deslocam o olhar da metódica catalogação de pequenos croquis do cineasta, apresentados nas paredes. A grande sala à esquerda da entrada da Fundação apresenta as telas mais significativas de David Lynch: uma série dedicada ao personagem Bob e à sua aprendizagem (num mundo que não compreende) evidencia as inúmeras influências presentes na técnica mista utilizada pelo artista: desde as cores primárias e abertas da casa dos Simpson’s ao estilo de intervenção urbana de Basquiat, com obras onde a inserção de vestuário e colagem de fotografias se misturam num tornado de energia em que personagens sexuados vivem como principais sujeitos figurativos. É de salientar a série de fotografias que pode ser vista no andar inferior que evidencia a mestria do cineasta no plano da imagem argêntica. As temáticas exploradas são o nu feminino e a paisagem industrial. O discreto corredor que leva à s casas de banho, atapetado para a ocasião de alcatifa vermelha, é também intervencionado pelo artista com os famosos “Fish kits†ou “Chicken kitsâ€, concebidos por Lynch, nos anos 7O, durante as filmagens, como kits de montagem de maquetes de aviões, mas transformados em kits de animais esquartejados com as instruções para os recompor de novo. Todas as obras são expostas sem qualquer tabela que indique a sua cronologia, por expressa vontade do autor. A série “Distorted Nudes†é também apresentada na cave. Fruto da sua primeira experimentação no domÃnio da tecnologia numérica, é composta por fotomontagens de fotografias eróticas, de 1840 a 1940, da colecção de Uwe Scheid. David Lynch é um grande cineasta. A sua obra plástica não é comparável aos seus filmes, mas reflecte todo um trabalho criativo “satelitar†em relação à sua obra cinematográfica. A cenografia da exposição, assinada pelo autor, é a prova da ocupação dos espaços e funciona como um enorme set cinematográfico, alterando o percurso habitual das mostras na fundação (excepção feita à exposição “Ce qui arrive†de Paul Virilio, 2000). Todo o espaço da exposição é uma visita à cabeça de Lynch, um percurso num fairy ground perverso e “voyeurÃstico†dentro do bom esquema do multiparque de diversões americano. Na livraria, verificamos que o artista não foge ao sistema económico hollywoodiano: vendem-se t-shirts e embalagens de café orgânico autografadas pelo cineasta. Mas na exposição, como em todos os seus filmes, há sempre um qualquer perigo iminente que nos atrai inconscientemente como num sonho. Mesmo em filmes apaziaguadores como “Straight Story†(1999), a minha experiência é sempre perturbada pela irrealidade das situações: estava a assistir à estreia desse filme num festival, numa ilha perdida da Croácia, quando o relâmpago do filme se uniu ao raio que desencadeou uma tempestade, a qual varreu todos os espectadores da sessão ao ar livre; no edifÃcio da Fondation Cartier, o néon da entrada e os cabos eléctricos, que displicentemente corriam entre as obras e o exterior separado pela estrutura de vidro do edifÃcio, pareciam uma armadilha electrocutante, devido à chuva torrencial no dia da minha visita à exposição… Há sempre um convite entre as linhas perfuradas de um disco em vinil para entrarmos como súbditos no império de David Lynch.
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