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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Pedro Amaral, “Andy Warhol”, 2007


Pedro Amaral, "00.00", 2007


Pedro Amaral, “Whaam”, 2007


Pedro Amaral, “Takka Takka”, 2007


Pedro Amaral, "Beatles", 2007


Pedro Amaral, “Templo de Song Lai”


Pedro Amaral, “Man on the Moon”, 2007


Pedro Amaral, "Grandes Vontades Deuses Pequenos". Vista geral da exposição na Galeria Quadrado Azul (Porto)


Pedro Amaral, "Grandes Vontades Deuses Pequenos". Vista geral da exposição na Galeria Quadrado Azul (Porto)

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ARQUIVO:


PEDRO AMARAL

Grandes Vontades Pequenos Deuses




GALERIA QUADRADO AZUL (PORTO)
Rua Miguel Bombarda, 435
4050-382 Porto

21 ABR - 26 MAI 2007


A exposição “Grandes Vontades Deuses Pequenos” abre em explosão eminente. Uma mangueira de gasolina, formalmente equiparada a um revólver, é o seu potencial detonador.

Servindo a crítica à ordem económica e à sociedade de consumo, a obra “00.00” assinala a inevitabilidade do esgotamento dos recursos, bem como a consequente e irreversível abertura do caminho para o conflito mundial. No terreno da Galeria Quadrado Azul, Pedro Amaral expõe esta e outras sete pinturas de combate. Mais ou menos cerrado, o confronto desenvolve-se numa arena de inequívoca dimensão política. A globalização, a democracia, a ecologia, a desigualdade social ou outras referências, directas ou indirectas, ao estado do país e do mundo tematizam esta intervenção visualmente esmagadora, assente numa deliberada actualização, e simultânea subversão, da estética Kitsch e do vocabulário Pop. No sentido de uma crítica social estética, provocatória e politicamente empenhada, as obras de Pedro Amaral fundam-se no questionamento e na problematização contemporâneos do futuro histórico da humanidade.

O trabalho de investigação precede naturalmente a realização destas obras. As suas fontes e referências fundamentais são imagens de proveniências diversas mas geralmente indexadas aos universos do cinema, da publicidade, da fotografia, da banda desenhada, da pintura ou da ilustração, área em que o trabalho de Pedro Amaral primeiro se desenvolve e onde entroncam naturalmente, a determinada altura, as suas primeiras pinturas. O romance, o erotismo, a nostalgia, o cliché, o estereótipo, a sedução, o glamour, a ambiguidade, a utopia, a política e a propaganda são algumas das temáticas protagonistas, recorrentes e transversais, do “corpus” de trabalho que apresenta em várias exposições colectivas (nomeadamente integrado no colectivo Sparring Partners, com João Fonte Santa e Alice Geirinhas) e algumas individuais, com alguma regularidade mas sem o devido reconhecimento, desde meados da década de 90.

Após seleccionadas, as imagens prévias, apropriadas ou “roubadas” do circuito mediático pós-autoral, concorrem, a partir do seu original, para a estabilização conceptual da pintura e para a produção de novos, variáveis e infinitos significados. O processo, que tem vindo a complexificar-se, tem um sentido construtivo somente arquitectado em tela. Às primeiras imagens projectadas sobrepõem-se e justapõem-se outras, fundamentalmente diversas, que lhes dissimulam ou acentuam o sentido, ordenadoras “in situ” da estrutura da composição. O alcançar do equilíbrio formal, para além da sobrecarga informativa, é, em última análise, e apesar das referências óbvias ou das mensagens subliminares que lhes determinam a sua qualidade conceptual, o seu sentido primordial. A qualidade da pintura é irrepreensível e o seu domínio instrumental remete inequivocamente para a herança mecânica da Pop.

Para lá da cintilação capitalista do petróleo e dos diamantes, materializada em purpurinas (glitter) sobre um fundo cinzento na já descrita obra “00.00”, a exposição também apresenta imagens aparentemente pueris. O tríptico vertical “Wrestling Palace; Sushi Bar; Love Hotel” assinala a estetização do quotidiano cosmopolita, a partir de uma referência imaginária, fragmentária e nocturna à cidade de Tóquio. Pranchas com Geishas, Sushi, Karaoke e lutadores de Sumo, formalmente alusivas à Manga ou à gravura japonesa, situam os vícios da moda ou a vivência do provisório entre o entretenimento e a tradição, a massificação e a globalização.

A montagem da exposição estabelece o seu eixo na necessidade blakeana, expressa pelo autor, do confronto directo de opostos. A sua organização, que se funda numa relação das obras no e com o espaço (a que não é alheia a ideia de instalação), remete para a própria organização binominal universal. Nesse sentido, “Whaam” e “Takka Takka”, pinturas com títulos emprestados a obras célebres de Roy Lichtenstein, obedecem à mesma escala e estabelecem, entre si e dentro de cada uma, relações dialéticas alicerçadas também no carácter duplo das imagens que convocam. Se a primeira traduz, deliberada e iconicamente, um imaginário vietnamita e a segunda uma relação directa com o Portugal Colonial, é porque Pedro Amaral pretende, referenciando esse passado, estabelecer com ele uma ligação directa com o presente e protagonizar uma chamada de atenção para a necessidade da resolução da História. A crítica a que procede verifica-se, desta forma, simultaneamente transgeracional, transcivilizacional e transcultural. Tecnicamente, a complexificação da rede compósita ortogonal, aqui deixada em branco, onde vinhetas de imagens mais ou menos mediáticas se organizam entre silhuetas vazadas executadas em stencil, constitui um factor de inovação no seu trabalho.

As pinturas “Andy Warhol” e “Beatles” remetem ambas para o esvaziamento ideológico das figuras iconográficas nelas explicita ou implicitamente representadas. “Grandes Vontades Pequenos Deuses”, enquanto título aglutinador, tem nestas obras a sua expressão mais efectiva.

Estas referências, juntamente com Mao Zedong e Ganesh, entre outros mitos heróicos dessacralizados porque trazidos à condição global de adereços fetiche mercantilizáveis (depois de nos anos 60 terem emergido em subculturas como a música, o misticismo, a religião ou as drogas), são aqui apropriadas, deslocadas e ironicamente recontextualizadas.

Dialogando com a dimensão panfletária de “O templo de Song-Lai”, obra de influências muralistas à qual assiste um vocabulário técnico de elaboradíssima qualidade cromática, “Man on the Moon” reflecte, com pertinente e maturado carácter reflexivo, sobre o sentido da presença humana no mundo. Através de uma aparentemente humorística “história da pegada”, Pedro Amaral traduz uma elevada preocupação relativamente às questões de sustentabilidade ecológica, da desigualdade social ou da definição de fronteiras. “Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?” é a fórmula interrogativa que nesta obra, e assim aplicada em inteligência subtil, estabelece o momento maior da exposição. Para confirmar a coerência do sentido da obra, ainda (insatisfatoriamente) marginal, de Pedro Amaral, ver na Rua Miguel Bombarda, no Porto, até 26 de Maio.


Lígia Afonso