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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Pedro Portugal, "Eu sou uma pintura e faço pintura. Vejam:"


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Pedro Portugal, "Mouseion Campus", 2006


Pedro Portugal, "Prognosis", 2006


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Pedro Portugal. Vista da exposição na Galeria Fernando Santos, Porto

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ARQUIVO:


PEDRO PORTUGAL

Eu Explico




GALERIA FERNANDO SANTOS (PORTO)
Rua Miguel Bombarda, 526/536
4050-379 Porto

21 ABR - 29 MAI 2007


Para a inauguração da exposição “Eu Explico”, Pedro Portugal preparou uma “explicação polimédia das pinturas” a realizar pelo próprio. Assim aconteceu. O artista explicou-se enquanto veículo de um sistema explicadista e excitou os visitantes a interagir pintando. Não perceberam alguns que a performance não admitia nuances ou desvios auto-recreativos porque as regras estavam, como estão sempre na sua obra, fundamentalmente definidas e programaticamente teorizadas. O acontecimento previa uma acção participativa a realizar numa pintura específica, dentro de campos espaciais, formais e cromáticos previamente calculados e limitados. O desconhecimento, da parte do visitante, da necessidade da subserviência gestual ao aparelho conceptual montado fracassou, ingénua, feliz e oportunamente, a experiência. A pintura fez-se polémica e «feia». O artista gracejou.


“Eu sou uma pintura e faço pintura. Vejam:”. Com esta obra principia a primeira exposição explicadista, que a Galeria Fernando Santos recebeu, praticamente em simultâneo, no Porto (21.04 - 29.05) e em Lisboa (26.04 - 26.05). “O Explicadismo”, segundo os seus empenhadíssimos teóricos, “explica o que é a arte para que não seja preciso explicar a arte e para que servem as suas definições”. Embora só assim recentemente intitulada, a teoria (em termos da sua aplicação metodológica parcial) não é completamente nova. Recua, por exemplo, a Picabia, a Beuys, a Reinhardt, a Duchamp, a Batarda ou a Areal e funda-se obsessivamente sobre um universo de incontornáveis referências filosóficas. O léxico que a caracteriza, de uma complexidade quase sincrética, tem vindo a ser constituído por um conjunto relativamente alargado de agentes próximos de Pedro Portugal e de Pedro Proença, membros integrantes do histórico colectivo «Homeostética», e que vieram agora a tornar-se os explicantes principais ou, pelo menos, os primeiros elementos definitivamente conscientes do seu lugar na «causa explicar».


Discorrer sobre o processo criativo de uma obra que discorre sobre o próprio processo criativo é tarefa árdua. A codificação da imagem discursiva é operada por Pedro Portugal de modo a não permitir uma recepção ingénua da sua pintura. Baralha-nos com uma infinidade de combinatórias e de sentidos possíveis entre os seus vocábulos, diferentes elementos gráficos figurativos, elementares, geométricos e estilizados a que sistematicamente recorre. Criados, manipulados e definitivamente compostos em suporte informático, são posteriormente projectados e virtuosamente pintados, em técnica mista, sobre tela.


A exposição apresenta uma série destas pinturas-discursos relacionais em cujo programa tomam parte elementos semânticos constituintes como o «artom» (micro-partícula; unidade de medida da arte no sistema artomista), a «artéria» (modelo molecular) ou o «artóide» (o próprio artista). Estes, reunidos em esquemas diagramáticos (p.ex.: organigramas, tabelas, sistemas de vectores…) de «expliques», nos quais participam também referências sígnicas de genealogia historicista, cáusticas citações autorais mais ou menos evidentes e recorrentes na iconografia anterior de Pedro Portugal, formulam comentários irónicos sobre o sistema de produção, circulação e celebração artísticas. Agudíssimas reflexões autofágicas, defendem a irredutabilidade da pintura a um qualquer esquema interpretativo exterior a si própria. “Uma pintura é uma pintura é uma pintura”.


Aplicando em latim a terminologia finita à determinação vectorial das acções infinitas, Pedro Portugal estabelece lógicas internas e externas para a explicação das suas pinturas. Enigmas mordazes, persistentemente críticos e elaborados em explosiva inteligência criativa, estas pinturas, das quais formalmente se destacam os dois trípticos apresentados, versões-paródia das pinturas “Jardim das Delícias” e as “Tentações de Santo Antão” de Hieronymus Bosch, humanizam-se nas relações que, não raras vezes, estreitam. O conjunto dividido entre Lisboa e Porto define um incrivelmente inovador programa estético do qual o catálogo, conquista maior da exposição, é o imprescindível documento descodificador porque, infelizmente, Pedro Portugal só explica até fim de Maio.



Lígia Afonso