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FRANCISCO TROPAFrancisco TropaGALERIA QUADRADO AZUL (ANTIGO ESPAÇO EM LISBOA) Largo dos Stephens, 4 1200-457 Lisboa 17 MAI - 30 JUN 2007 Desde o dia 17 de Maio, e até 30 de Junho, a Galeria Quadrado Azul de Lisboa recebe uma exposição de trabalhos de Francisco Tropa (Lisboa, 1968). À semelhança de anteriores apresentações do artista, também aqui o que o visitante encontra é um espaço cuja intervenção operada por Francisco Tropa estabelece um dispositivo cénico complexo, em que os seus diversos elementos servem, ora isoladamente, ora combinando-se e recombinando-se entre si, parâmetros que desafiam o campo tradicional da experiência de percepção. Neste sentido, e porque o conjunto de referências possÃveis disponibilizadas à priori nos remete necessariamente para uma tipologia de registo assumidamente experimental de grande rigor e consistência conceptual, é a própria progressão do visitante neste enigmático território que dá forma e acciona a chave possÃvel para descodificar um projecto que é, na sua natureza, uma exposição de escultura. Em dois momentos distintos dessa progressão acedemos a elementos chave para uma aproximação ao trabalho do artista: O primeiro (“Um Passoâ€, argila) indicia um movimento sistematizado e cadenciado de um acto contÃnuo para a ligação de toda a instalação. Trata-se, verdadeiramente, de dois passos, de duas posições que permanecem e que conferem um sentido (duplo) a um exercÃcio em que a morte evocada se propaga à mesma condição de suspensão que provém de uma escultura terminada, mas também ao silêncio inquietante que um conjunto de ossadas humanas estabelece, pela evocação de um corpo cujo anonimato o reduz igualmente a um mero e gélido enquadramento expositivo. Esse corpo reduzido a elemento escultórico (bronze) é ainda decomposto a uma dupla condição de anonimato (reforçado pela sua repetição fÃsica), sendo mesmo submetido a uma derradeira experiência de privação, quer volumétrica, que territorial (invertido e suspenso por uma corda a partir do tecto, em contraste com o seu duplo, amarrado e despojado no chão, a seu lado). Toda a exposição cumpre a mesma cadência de “Um Passo†(que são dois) e assim, a morte, cuja presença é evocada, surge em complemento a uma vida ausente, da mesma forma que um conjunto de gravuras colocadas verticalmente numa parede constituem vestÃgios cristalizados da movimentação coreográfica que o artista executou num plano horizontal, com o próprio corpo. Uma vez mais, o que percepcionamos é um acontecimento a que apenas acedemos por uma inscrição que testemunha um tempo passado. Essa ideia de morte é ainda inferida pela presença de um segundo elemento cuja posição, estrategicamente secundarizada, une as duas salas expositivas. Uma prancha (“Poemaâ€, bronze), provável referência a rituais fúnebres, reforça essa subtil fronteira e passagem para uma outra forma de sentido, indecifrável nas letras que, igualmente, simulam uma queda suspensa. Para que o enigma se não resolva, e para que o dispositivo poético se estabeleça como mediação totalizante do sentido, um conjunto de elementos cunha um jogo de contrários (sentido duplo), evidenciado na apresentação de duas “Caixas de Areia†(positivo e negativo) e em “Matriz†(desenho em argila que contém, ele próprio os seus opostos, e cujo duplo existe mesmo, em acervo, ou não fosse esse também um subtil pormenor que atesta a perfeição e engenho da instalação). Ocupando a zona central da galeria, “Murete†(alvenaria, estuque e luz branca) e “A Divisão da Propriedade†(ferro e luz verde) aludem a demarcações de território cuja simbologia remete também para uma incompatÃvel coexistência de opostos: território sepulcral ou evocação de terras aráveis e fonte de vida? “Enxada†(bronze) - que são duas e se apresentam cruzadas, interditam a segunda hipótese, reafirmando a evocação e reflexão de Tropa sobre a morte, sobre o corpo, mas também sobre a escultura.
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