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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Johan Grimonperez, “Looking for Alfredâ€, 2005. Vídeo.


Johan Grimonperez, “Looking for Alfredâ€, 2005. Vídeo.


Salla Tykkä, “Zooâ€, 2006. Vídeo.


Laurent Fiévet, “Lovely Memoriesâ€, 2007. Da série “Essence de l’ image, Portraits olfactivesâ€. Vídeo-instalação.


Laurent Fiévet, “Portrait a l’ ecumeâ€, 2007. Vídeo-instalação.


Jean Breschand, “Don’t they ever stop migrating?â€, 2007. Instalação visual e sonora.

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COLECTIVA

Under Hitchcock




SOLAR - GALERIA DE ARTE CINEMÃTICA
Solar de S. Roque Rua do Lidador
Vila do Conde

07 JUL - 23 SET 2007


“Under Hitchcock†reúne um conjunto de artistas europeus em torno de um propósito expositivo: revelar a influência do imaginário e da obra de Alfred Hitchcock na criação contemporânea ou, como refere a comissária Sílvia Guerra no seu texto de apresentação, reflectir sobre a atracção entre a arte contemporânea e o cinema. Mas esta atracção coexiste com um distanciamento alimentado pela característica comunicacional da linguagem do cinema, que o torna um meio de comunicação de massas, por oposição à necessidade elitista de conhecimento e preparação prévia que a arte contemporânea exige.

Hitchcock terá sido um dos principais realizadores a quebrar esta barreira, servindo-se precisamente das características desta dicotomia: foi capaz de criar o seu próprio universo autoral, estética e tecnicamente inovador, compreendendo e tirando absoluto partido das condições de acesso massificado que caracterizam o meio de criação em que se moveu. Terá sido Truffaut, nos anos 50 e 60, o primeiro a resgatar Hitchcock da tendência puramente comercial a que era reduzido quando estava já instalado nos Estados Unidos da América, contribuindo em larga medida para que o realizador se tornasse um ícone da elevação do cinema ao estatuto de obra de arte, ao reflectir sobre a importância da sua linguagem particular para uma concepção artística do cinema.

Ao pretender criar um lugar de experimentação audiovisual, a Solar, enquanto espaço expositivo, trabalha sobre a noção de arte cinemática por oposição, ou em continuidade, à de cinema, introduzindo-nos à multiplicidade de relações criadas pelos artistas visuais com a “sétima arteâ€. E o que constatamos em “Under Hitchcock†é que a diversidade dos processos criativos destes autores dão lugar a vários tipos de propostas. Vemos, por um lado, a utilização da técnica que Matthias Müller e Christoph Girardet têm desenvolvido de found-footage, cujo processo assenta numa escolha pessoal dos planos e nas opções de montagem e, por outro, em artistas como Johan Grimonprez ou Salla Tykkä (e mesmo Müller, em “Alpseeâ€) a filmagem dos seus próprios planos na produção de obras que se situam entre a evocação da imagética de Hitchcock e o remake.

Hitchcock soube como nenhum outro realizador criar e consolidar a sua própria imagem a par dos seus filmes. E se estes últimos encarnam o espírito criativo do seu autor, a relação inversa poderá ser descoberta quando pensamos na quantidade de cameos (breves aparições nos seus filmes) que Hitchcock filmou – o realizador representa-se em mais de metade das suas obras.
“Looking for Alfred†(2005), de Johan Grimonprez fala-nos disso mesmo: da capacidade de Alfred Hitchcock se multiplicar, se perseguir a si mesmo na sua criação de si próprio. Recorrendo a sósias de Hitchcock que parecem disputar pelo objectivo de serem a cópia mais fiel do realizador, coloca-os num esquema de perseguição mútua, num culminar de tensão em tudo semelhante ao criado pelo autor de “Vertigo†nos seus filmes.

Estes processos narrativos de criação de tensão (“impressão de marca†de Hitchcock) são um dos elementos mais distintivos da obra do realizador quando nos referimos à sua identidade cinemática. E com ele se articula grande parte dos trabalhos em exposição. Um belo exemplo é o vídeo “Zoo†(2006) da finlandesa Salla Tykkä. Nele uma mulher absolutamente hitchcockiana persegue com a sua máquina fotográfica animais enjaulados que a fitam de modo ameaçador, enquanto assistimos intercaladamente a um jogo de rugby subaquático, num processo de derivação da linha de acção, destinado a provocar desorientação no espectador. Mas aqui é Tykkä quem conduz a narrativa e essa singularidade é evidente: se a relação real/ficção foi definitivamente transformada por Hitchcock, a artista subverte-a novamente criando uma ficção dentro de um universo ficcional. Poder-se-á falar aqui de uma meta-linguagem. Mas talvez seja sempre dela que fala esta exposição.

“Portrait a L’ Helice†(2007) de Laurent Fiévet (obra criada em 2006, mas instalada pela primeira vez em “Under Hitchcockâ€), assenta directamente na relação do cinema com a pintura. De um plano de Eve Kendall (personagem interpretada por Eva Marie Saint em “North by Northwestâ€) emerge de tempos a tempos uma paisagem de Turner – o quadro “The Shipwreck†de inícios do século XIX. As hélices referenciadas no título da instalação remetem num mesmo tempo para as ventoinhas que subtilmente deslocam no espaço a projecção (activadas pela presença do espectador) e para a tempestade representada por Turner na sua pintura. O movimento lento e gradual da personagem de Hitchcock vai sendo associado em diferentes momentos a diferentes partes da pintura. Enquanto o grande plano como potenciador da emoção serve Hitchcock na sua procura de tensão, a lentidão do virar de cabeça de Eve Kendall e da deslocação do seu olhar serve Fiévet no cruzamento de referências cinematográficas e das artes plásticas, igualmente a favor de uma tensão reconstruída.
Uma outra instalação de Laurent Fiévet criada para a Solar (“Lovely Memoriesâ€, 2007, série “Essence de l’ image, Portraits olfactivesâ€) remete-nos novamente para este cruzamento. Aqui é o filme “Frenzy†que serve de base a uma obra em que a atenção é induzida de modo simultaneamente físico e visual: um espaço da galeria está coberto de batatas onde se encontra semi-enterrado um televisor mostrando uma imagem em loop da personagem Brenda Blaney (Barbara Leigh-Hunt), levantando-se de uma cadeira, num movimento oscilante. À sua frente um baloiço aguarda a utilização pelo espectador, acção que desencaderá o desenrolar de uma outra: o plano de Brenda dá lugar a novos excertos do mesmo filme que se intercalam numa sequência de doze montagens. Um sapato em cima do monte de batatas e o baloiço aludem à pintura de Fragonard, “Les hasards heureux de l’escarpolette†(1767), presente num dos planos do filme. A intenção de que o espectador se projecte no filme e na pintura enquanto é fisicamente projectado sobre a instalação é bem conseguida.

Mas esta abordagem sensorial característica da instalação invade-nos mal entramos no espaço de exposição através do trabalho de Jean Breschand “Don’t they ever stop migrating?†(2007). Uma instalação sonora – parte da obra – remete-nos instantaneamente para os ambientes de Hitchcock, retirando-lhes, no entanto, a frequente contribuição de Berard Herrmann nas bandas sonoras de boa parte dos filmes de Hitchcock. Permanece apenas o som ambiente de vários filmes do realizador (entre os quais “North by Northwestâ€, “Psychoâ€, “Marnie†ou “The Birdsâ€). Ali está contida (embora solta pela área de atravessamento da exposição) toda a importância do som no cinema e, particularmente, no cinema de Hitchcock. Numa cortina são projectadas as imagens dos filmes de onde são retirados os sons, aos quais, por sua vez, foi já retirada a música. Processo que o próprio Hitchcock tornou particular da sua obra ao afastar-se do uso fácil da música como elemento propício à criação de suspense (com efeito, o realizador constrói momentos de grande tensão através “apenas†do silêncio). Os sons ambiente da acção adquirem um novo estatuto quando associados aos silêncios e aos grandes planos. Breschand tem disso uma consciência apurada.

A cortina utilizada por Breschand para a sua projecção dá-nos acesso a um novo espaço, exterior, onde encontramos um “Imaginary Film Set†de Carlos Lobo: uma fotografia em caixa de luz elevada (procurando aproximar-se de um ecrã de cinema), que ensaia um possível cenário de Hitchcock. Baseado num plano de “Psychoâ€, este cenário hipotético conduz-nos a uma sequência de vários outros cenários do filme “Vertigo†(aparentemente vazios de presença humana) apresentados na peça “Portrait a l’écume†(2007), de Laurent Fiévet. É, uma vez mais, este artista quem nos introduz ao conceito de instalação (que não apenas de vídeo, em sentido estrito): a par da projecção no interior, existe uma estrutura que liberta espaçadamente bolas de sabão para o exterior, representando a espuma a materialização da personagem Madeleine de “Vertigo†(Kim Novak), ausente das imagens que lhe são referência no vídeo.

Voltando ao início da exposição, regressamos também a Matthias Müller e Christoph Girardet e às suas “Phoenix Tapesâ€, já apresentadas anteriormente na Solar numa exposição dedicada a M. Müller e C. Girardet, embora não as duas sequências que podem agora ser vistas (“#2 Burden of Proof†e “#3 Derailedâ€). Datadas de 1999, aquando da sua criação para a exposição “Notorius: Alfred Hitchcock and Contemporary Artâ€, no Museu de Arte Moderna de Oxford, a série de seis sequências da dupla alemã é toda ela construída pelo princípio de found-footage, numa recolha de excertos emblemáticos dos leitmotivs de Hitchcock, a partir de vários dos seus filmes, editados de modo a evidenciar as obsessões do realizador por planos, objectos ou acções simbólicas. Se “Burden of Proof†(cor) se concentra nos grandes planos e no poder dos pormenores (tão caros a Hitchcock), “Derailed†(p/b) resulta numa montagem de planos em movimento em que o confronto de um personagem com o onírico se vai construindo ao ritmo de uma sombria viagem de comboio.

Por fim (ou, no que diz respeito à estrutura de montagem da exposição, no início), encontramos o vídeo “Alpsee†de Matthias Müller, também ele já apresentado em edição anterior do Curtas de Vila do Conde. Neste vídeo de quinze minutos Müller aborda o universo de Hitchcock através de sequências de planos alegóricos (pontuados por excertos de found-footage) que remetem para a infância do próprio autor e a sua passagem para uma maturidade construída, também ela, pelas referências estéticas e conceptuais de Hitchcock.

Não sendo único na história do cinema e da relação deste com a televisão, Alfred Hitchcock é um caso raro de longevidade: as suas obras abarcam grande parte da evolução tecnológica do cinema, do mudo aos filmes a cores. E o realizador permanece vivo, actual e permanentemente “actualizávelâ€. O modo como estes artistas trabalham sobre os seus filmes é disso uma evidência, produzindo obras que tomam o cinema como ponto de partida (e de chegada) do seu trabalho.




Gisela Leal