|
|
COLECTIVARock n’Roll 39-59FONDATION CARTIER POUR L’ART CONTEMPORAIN 261, Boulevard Raspail 75014 Paris 22 JUN - 28 OUT 2007 O rock morreu? Questão de somenos importância. O que importa é que um dia o rock nasceu, irrompendo brutalmente através da rádio e da televisão para mudar a face do mundo, a sua forma de estar, de escutar e de dançar. A exposição “Rock n’Roll 39-59” era para Alain Dominique Perrin, presidente da Fondation Cartier em Paris, um sonho antigo. Tornado realidade mais de vinte anos depois da sua chegada à instituição, o sonho transformou o espaço da Fondation Cartier num estranho gabinete de curiosidades onde, por entre guitarras, juke-boxes e um enorme Cadillac refulgente, se ouvem as vozes de Elvis, Little Richard, Chuck Berry. Na verdade, a exposição “Rock n’Roll” não é uma exposição qualquer. Antes de mais, porque se propõe ser uma viagem sonora através das origens do rock n’rol l; depois, porque não se limita a abordar a questão do ponto de vista musical, procurando explicar um fenómeno cuja extensão social e cultural é bastante vasta. A exposição não pensa assim o som como matéria, mas o rock como prodígio da cultura popular. Mas antes que os visitantes possam perceber as diversas implicações do rock, a mostra convida-os a celebrá-lo. O piso térreo da Fondation Cartier foi assim pensado como uma cápsula do tempo, onde as fotografias de Elvis realizadas por Alfred Wertheimer em 1956 ou a série de William Eggleston efectuada no estúdio de Norman Petty em 2004 surgem ligeiramente deslocadas. Deslocadas apenas porque o tom da secção é verdadeiramente celebratório: podemos visitar um estúdio dos anos cinquenta, folhear revistas destinadas aos adolescentes da época, ouvir discos e admirar o gigantesco Cadillac estacionado ao lado do que se assemelha a um verdadeiro altar de juke-boxes. A sala tem um grande mérito: a de recrear subtilmente, através da sua adoração fetichista dos objectos do rock n’roll, a idolatria que o caracterizou e assolou desde o começo. Talvez por isso o percurso aconselhado sugira que se comece pelo visionamento dum documentário intitulado Rock n’Roll: The Early Days (1984). O filme deixa não só bem claras as razões que explicam a cronologia da exposição, como nos prepara para o percurso comemorativo e contextual que se segue. Não muito longe do écran, três objectos raros assumem a figura de tótemes: as guitarras de Elvis Presley, de Buddy Holy e de Carl Perkins. No piso inferior, o tom é diferente, menos celebrativo e mais histórico. Tudo começa com uma engenhosa árvore genealógica sonora. Equipada com vários auscultadores, permite-nos percorrer a paisagem musical diversificada “audível” no horizonte do rock n’roll: o “boogie-woogie”, as grandes orquestras de jazz, o “gospel”, o “blues” e, claro, o “rhythm and blues”, precursor imediato do fenómeno rock. Segue-se um panorama visual das origens do rock, onde se destaca, por entre diferentes imagens, uma série de fotografias que evoca a dura realidade da população negra do sul dos Estados Unidos. Algumas destas imagens são verdadeiramente extraordinárias: infelizmente, e devido à ausência de comentário, só o conhecedor notará que são obra da secção fotográfica da Farm Security Administration. A secção seguinte articula-se em torno dum grande fresco cronológico, indo de 1954, ano da gravação de Rock Around The Clock por Bill Haley, a 1959, espécie de “annus horribilis” marcado pela morte de Buddy Holy e pela prisão de Chuck Berry. Elvis Presley fora afastado dos palcos pelo serviço militar e Jerry Lee Lewis caíra em desgraça devido ao seu casamento com uma adolescente de treze anos. Diversas cabines reunindo documentos sonoros e visuais associados aos mais diversos objectos (cartazes, capas de discos, cartas, etc.) permitem-nos navegar nos oceanos atribulados do fenómeno rock n’roll e de algumas das suas principais figuras. Vários postos de escuta situados na livraria da galeria convidam-nos a escutar mais de duzentos títulos musicais, forma de concluir a viagem sonora que a exposição se propõe realizar. A julgar pelo número de visitantes que dançam, de forma mais ou menos tímida, com os auscultadores na cabeça, o sonho de Alain Dominique Perrin foi uma aposta ganha.
|

















