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ALEXANDRE ESTRELARadiação Solar e Forças CósmicasGALERIA GRAÇA BRANDÃO (LISBOA) Rua dos Caetanos, 26 1200-079 Lisboa 29 SET - 03 NOV 2007 O título da mais recente exposição de Alexandre Estrela remete, de uma forma quase imediata, para o universo de um discurso científico e, nomeadamente, cosmológico. “Radiação Solar e Forças Cósmicas” pode ser visto até ao dia 3 de Novembro na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, e a estranheza inicial do título desvanece-se um pouco se considerarmos que o artista pretendeu, com esta apresentação, manter uma conexão metafórica com o trabalho de investigação desenvolvido, nos finais do séc. XIX e princípios do séc XX, pelo cientista português Manuel António Gomes, lembrado mais facilmente pelo epíteto de Padre Himalaia, a fazer jus à sua invulgar estatura e ao facto de, paradoxalmente à actividade de investigação científica, ser ainda padre católico. Partindo de um conjunto de preocupações muito bem definidas e de uma muito bem delineada estratégia de optimização dos meios técnicos adoptados, o presente trabalho de Estrela desenvolve igualmente uma relação, de certa forma paradoxal, entre o objecto de trabalho e o seu resultado final, numa perspectiva do que se proporciona enquanto exercício aos limites da percepção. Se o reconhecimento do trabalho de investigação cosmológica de um padre do princípio do séc. XX constitui, per se, um fenómeno do qual sobressai o carácter de incompatibilidade de esferas do conhecimento, também na presente exposição, a abrupta diferença de escalas entre a matéria prima (que inclui, por via do título, um natural desencadear de expectativas sobre o que se convenciona serem forças cósmicas) e o modus operandi do artista, resulta numa amplificação de efeitos mínimos - cirurgicamente isolados e/ ou sublinhados e, por essa mesma razão, no estabelecimento de dispositivos que condicionam e desafiam a percepção. Em “Stargate” (Museu do Chiado, 2006) a imagem de uma tampa de uma máquina fotográfica adquiriu (por via da manipulação técnica) o valor de uma imponente e enigmática estrutura espacial. Também na presente exposição, é a especificidade da manipulação (vídeo e fotografia) que configura novas condições de percepção. Em “O Princípio” (vídeo, 2005), toda a área principal do piso superior se submete a uma experiência de projecção que enaltece a luz enquanto fenómeno primordial da indústria cinematográfica. As dimensões da imagem e a qualidade e tensão acústica transportam-nos para um contexto de iminente acontecimento. Porém, e após essa anunciação, segue-se um repentino obscurecimento e vazio acústico de 10 minutos, impelindo o “princípio” de algo (em devir) como fim em si mesmo. “Light Bridges” (vídeo, 2007) parte de duas fotografias, das pontes 25 de Abril (Lisboa) e Golden Gate (São Francisco). Justapostas (submetidas a uma sugestão de movimento por um efeito cross fade), e porque o enquadramento de cada uma inclui o Sol, precisamente sobre o mesmo local da ponte, Estrela ensaia uma variação sobre a luz solar (também sobre o som da nota musical) que tem já antecedentes de anteriores trabalhos (“S/ Sol”, vídeo 1999). Impassível, a silhueta imponente das pontes (bem como o Sol, que sobre elas permanece) amplifica de forma assombrosa o contraste entre a variação processada de um para um outro lugar, invertendo-se precisamente a condição do que, em fotografias quotidianas em contra luz, normalmente se altera; a paisagem não se funde, natural e harmoniosamente, no horizonte e os ícones dos lugares tendem a ser únicos e irrepetíveis. O Sol (também aqui na sua vertente acústica) é um elemento chave de (des)codificação. Num outro trabalho (“Fotossíntese”, projecção em slide, 2007), uma fotografia de uma planta, queimada posteriormente pela luz solar, é projectada continuamente em slide numa parede, operando-se, por acção da exposição à luz (e aquecimento) do projector, a degradação do próprio diapositivo. Uma vez mais, a luz e as suas pequenas variações constituem um dos possíveis fios condutores para um conjunto de trabalhos, em que o desafio às formas de percepção assenta na manipulação, subtil, de imagens e, no processamento, ainda mais subtil, dos mecanismos constitutivos da significação. Como explicar então que uma tenra, viçosa e verdejante imagem, configure a sua própria destruição, pelo simples facto de se a apresentar em exposição (involuntária) à luz que, paradoxalmente, lhe é essencial. “Sistema Solar” (vídeo, 2007), “Ponto de Fuga” (Lambda print, vidro e aço polido, 2007) e “Dyaniing: Electriffied Shadow Picture” (projecção 16 mm, 2007) complementam uma exposição onde a abordagem cósmica se processa “à luz” das nossas pequenas variações e limites à percepção.
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