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WALID RAADThe Atlas Group (1989 – 2004): Um Projecto de Walid RaadCULTURGEST Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos, Rua Arco do Cego 1000-300 Lisboa 29 SET - 30 DEZ 2007 Walid Raad (Líbano, 1967) não tinha sido ainda exposto em Portugal. Agora, numa exposição comissariada por Miguel Wandschneider, a Culturgest proporciona a descoberta de um artista do Médio Oriente (o que já em si suscita curiosidade), mas também o acesso a uma tipologia discursiva pouco usual, cuja complexidade e densidade comunicacional a projecta a uma dimensão singular. Trata-se de uma exposição cujo processo de construção se desenvolve segundo uma lógica performativa, em que Walid Raad envolve o público num jogo de troca de papéis e de posições, quer do lado do artista (que se apresenta como uma estrutura colectiva – o Atlas Group), quer do lado dos visitantes da exposição, convocados subliminarmente para uma experiência de produção de sentido a partir da fusão entre o real e o imaginário. O artista, cujo protagonismo se funde ao do projecto colectivo que criou, constitui assim uma entidade múltipla que inclui também os fictícios doadores de imagens e registos ao Atlas Group; indivíduos ou organizações cuja identidade é sempre imaginária, quer sejam apresentados como anónimos, quer lhes sejam atribuídos nomes e respectivas descrições circunstanciais ou testemunhos pessoais. Deste modo, é sobre o material em exposição que recai o primeiro impacto de configuração de uma entidade passível de inventariação; a memória colectiva da experiência de guerra, concretamente, as guerras da história recente do Líbano. Toda a experiência expositiva pressupõe então um conjunto de códigos de entendimento a que acedemos de imediato, apesar de sabermos de antemão que tudo não passa de um confronto com obras de arte. O artista utiliza fotografias e outras imagens reais e reposiciona-as em contextos que, sendo fictícios, constituem ainda assim prova circunstancial e verosímil de uma verdade inquestionável. São visões parcelares, amadoras e casuais, de uma guerra in progress que, por ser retratada num contexto de quotidiano civil, se assemelha aos vestígios laterais e, invariavelmente, secundarizados por todos os documentos legitimados que conhecemos como reportagem de guerra. Dir-se-ia, numa primeira análise, que o universo de registos mostrados teria uma proveniência desinformada sobre a Guerra em si mesma, sobre as razões e as retaliações de cada acto e o seu desenvolvimento cronológico. Não se percebem esses contextos que, enquanto ocidentais, banalizamos quando confrontados com os noticiários e comentadores televisivos. A guerra não se organiza por lógicas prime time nem tão pouco por guiões e argumentos sequenciais. Enquanto experiência de caos, é de uma luta pela sobrevivência diária que se trata. O terror habitua-se ao insuportável e à interminável instabilidade e, progressivamente, apreende os tiques de uma aparente e estonteante normalidade quotidiana. O confronto com os arquivos laterais de uma guerra acciona uma aceitação colectiva que é amplificada pela idiossincrasia da nossa particular condição de consumidores de imagens globalizadas. O mundo real, sabemo-lo, é o Arquivo em si mesmo e o que dele conhecemos é, invariavelmente, sujeito a montagem prévia e apresentado de forma espectacular e noticiosa. O testemunho sem contextualização nem agenda é muito mais perturbante porque anuncia o fatal e o trágico mas não nos permite a preparação prévia. Reconhecemos a veracidade das imagens porque, apesar do seu contexto encenado, ilustram uma realidade velada que, de igual modo, sabemos ter acesso apenas em formato televisivo ou tablóide. Os registos e testemunhos fictícios nomeiam o que, por ser banal e credível, não será alvo de mediatização e, nesse sentido, apresentam-se como vestígio necessário à nossa aprendizagem, em flagrante delito de inexperiência. O reconhecimento da veracidade virtual constitui porto seguro para um mundo que, transformado por Raad, reconfigura o nosso olhar. A realidade ficcionada é, finalmente, o nosso mundo real. O desafio aqui é bem mais simples e, por isso mesmo, incomodativo e indizível: Partir do nosso imaginário individual para uma realidade (como ela poderá ser), ficcionando-a, em cumplicidade de medos e traumas com os arquivos do Atlas Group NOTA Ainda sobre o trabalho de Walid Raad, e a propósito de uma exposição realizada recentemente em Nova Iorque, consulte-se também o texto de Ana Cardoso “Walid Raad, The Atlas Group Archive” (Arquivo Artecapital/ Crítica/ Fevereiro 2007). LINK www.theatlasgroup.org
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