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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Shirin Neshat, “Malik (Zarin Series)â€, 2005. C-print. 152.4 x 120.7 cm (imagem), 166.1 x 134.3 cm (moldura). Ed. 3/5. Cortesia: Galeria Filomena Soares, Lisboa


Shirin Neshat, “Sem Título (Zarin Series)â€, 2005. C-print. 149.9 x 188 cm (imagem), 163.5 x 201.6 cm (moldura). Ed. 1AP. Cortesia: Galeria Filomena Soares, Lisboa


Shirin Neshat, “Zarin (Zarin Series)â€, 2005. C-print. 139.7 x 120.7 cm (imagem), 153 x 134 cm (moldura). Ed. 1/5. Cortesia: Galeria Filomena Soares, Lisboa


Shirin Neshat, “Mohsen Agha (Zarin Series)â€, 2005. C-print. 152.4 x 120.7 cm (imagem), 166.1 x 134.3 cm (moldura). Ed. 1/5. Cortesia: Galeria Filomena Soares, Lisboa


Shirin Neshat, “Sem Título (Zarin Series)â€, 2005. C-print. 149.9 x 188 cm, 163.8 x 201.9 cm (moldura). Ed. 3/5. Cortesia: Galeria Filomena Soares, Lisboa

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ARQUIVO:


SHIRIN NESHAT

Zarin




GALERIA FILOMENA SOARES
Rua da Manutenção, 80
1900-321 Lisboa

25 OUT - 24 NOV 2007



É através de “Zarinâ€, projecção vídeo acompanhada de série fotográfica, que a mediática e polémica artista iraniana Shirin Neshat regressa à Galeria Filomena Soares, nesta ocasião com uma mostra individual focada no seu último trabalho em suporte digital (2005). Quase instantaneamente reconhecemos no projecto o mérito de cativar, não tanto pelo exotismo e fascínio que despertam civilizações longínquas, como pelo carácter profundamente humano da narrativa partilhada (a tragédia dos outros prende-nos sempre). As composições cénicas, imbuídas de elementos arrebatadores recheados de encantamento, associam-se a uma estética sustentada nos conceitos do belo e do sublime (de que existem poucos e resistentes seguidores) e são igualmente responsáveis pela deleitosa rendição.

A proposta consiste em deixarmo-nos transportar para uma história enigmática que transborda dramatismo e melancolia, uma trama com contorno de suspense e apontamentos surreais que não comprometem, no entanto, a credibilidade de um hipotético realismo. Embarcamos numa espécie de viagem no tempo que nos coloca num qualquer prostíbulo da Teerão dos anos 50 que acolhe uma jovem mulher com contornos fantasmagóricos. Aparência anoréctica que sugere ausências corpórea invocados pela desesperante tentativa de enganar a dor, a culpabilidade, a sujidade que corrói e, sobretudo, a incapacidade de equacionar alternativas. Chama-se Zarin, é prostituta, encontra-se em total descompensação e, à beira da loucura, deixa-nos adivinhar que assistimos a uma longa e penosa via sacra iniciada há muito - 9 anos é a idade a partir da qual no Irão as crianças do sexo feminino são consideradas adultas. Destaca-se a cena em que recorre a um haman na vã tentativa de se purificar, acabando por se esfregar tão compulsivamente que arranca a sua imposta segunda pele ficando a carne de aparência putrefacta em carne viva. Cena pungente, ainda que previsível e algo literal, é conseguida através de poderosas composições cenográficas e efeitos lumínicos que trazem à memória telas de outros tempos (para além do “Le Bain Turc†de Ingres).

“Zarin†é revelador da viragem que a obra de Shirin Neshat está a atravessar, tornando-se mais focada na especificidade de experiências pessoais - ainda que sempre alusivas à pertença ao género feminino – e mais narrativa, mas nem por isso mais imediata e literal. Apontamentos auto-biográficos tendem a ser camuflados com maior subtileza, a tendência para reflectir a sua experiência de confronto entre dois mundos esbate-se. A artista, que partiu para os EUA em 1974 e só regressou ao Irão na década de 90 (depois de se ter tornado numa república islâmica), vivenciou a estranheza provocada pela escassez de elementos reconhecíveis, fenómeno frequente em ausências prolongadas que conduz ao questionamento da própria identidade. Pressentindo-se a viragem subsiste na obra de Neshat um explícito enfoque na pesquisa e divulgação das especificidades inerentes à condição da mulher contemporânea nas sociedades islâmicas. São conferidos aos seus trabalhos, inadvertidamente ou não, elementos em jeito de manifesto político feminista.

Ainda que a mulher no Islão patriarcal continue a ocupar predominantemente uma posição inferior e submissa, regulada por códigos rígidos em que a laicidade se confunde com a religião (comprometendo-se por vezes os próprios direitos humanos), Neshat opta por mostrar a sua outra face através da desconstrução de estereótipos tendencialmente vitimizadores. Faz sobressair a força, imensurável e destemida, que caracteriza as mulheres muçulmanas, o seu poder oculto aos olhos ocidentais, baseado em esquemas mais ou menos lícitos de controlo a que recorrem para dominarem sendo dominadas. “Zarin†é então, uma vez mais e definitivamente, um filme sobre mulheres, sobre o sofrimento infligido ao género em consequência de uma inevitabilidade genética, sendo também um filme que, de certo modo, culpabiliza os homens, o que parece ressaltar do facto de surgirem com rostos indefinidos. Algumas fotografias a preto e branco da série de “Woman of Allah†(1995), ainda em exposição no Istambul Modern, mostram mulheres cobertas de negro que aparecem conjuntamente com armas e inscrições em caligrafia farsi. Imagens poéticas, metáforas de terroristas do sexo feminino dispostas a morrer em nome da crença inabalável na legitimidade da batalha pelo alcance da igualdade de direitos e oportunidades. Outro exemplo da face oculta pelo chador posta a descoberto.

“Zarin†pertence à categoria de projectos dificilmente catalogáveis. Entre a obra de uma artista visual e uma curta-metragem situa-se numa fronteira quase indefinida que lhe confere um conjunto de particularidades. Muitos são os elementos que permitem a associação a um guião cinematográfico: uma espécie de recriação histórica que se centra na eleição de uma protagonista e no assumir de uma narrativa que decorre com a fluidez de um thriller. Aposta-se em fade-outs, assegurando a continuidade entre as cenas que culminam num final que mesmo deixado em aberto não deixa de surpreender. Noutra perspectiva, detectamos características que inevitavelmente associam “Zarin†à categoria de objecto artístico merecedor de culto. Para além do primado de um esteticismo envolvente e avassalador, a opção de não legendagem postula que as imagens falam por si e que a linguagem visual é soberana.


Cristina Campos