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ISABEL CARVALHOYes I´am / No I`m notGALERIA QUADRADO AZUL (PORTO) Rua Miguel Bombarda, 435 4050-382 Porto 22 ABR - 27 MAI 2006 Descolar do activismo“What we must learn, then, is how to conceive difference without opposition.” Craig Owens, The Discourse of Others: Feminists and Postmodernism Não um descolar de voo, mas da etiqueta que o miúdo parvo nos colou nas costas durante a aula e que agora transportamos para o recreio. Descolar não porque haja desconforto ou repulsa pela identificação com esse papel, mas porque não nos podemos resumir a um único discurso. Numa breve pesquisa de textos sobre os trabalhos anteriores de Isabel Carvalho encontramos, entre outras, as palavras “activismo” e “arqueologia”. No que diz respeito ao trabalho sobre o qual escrevemos neste momento, preferimos pegar na segunda como elemento central e indutor do processo de criação das peças que compõem a apresentação/instalação. De uma recusa parcial da pintura, já que as imagens presentes são registos precários (leia-se efémeros) sobre papel de cenário, evocativos de paisagens ou citações mais ou menos directas de outras obras, dentro da linguagem específica de Carvalho, retirada parcialmente do universo estético que o poder “oferece”, e no qual enquadra, o indivíduo/consumidor feminino e adolescente; a exposição patente no espaço Q2 da Galeria Quadrado Azul, questiona os processos de escolha (e condicionamento) de identidade. Em “Yes, I am / No, I’m not” somos confrontados com a recriação de um quarto infanto-juvenil habitado por uma presença feminina e entretanto abandonado. A sala, gerida a partir de um centro ocupado por um objecto alusivo a uma bola de cristal, fronteiro às citações de “Le Plaisir” de Magritte e de “Crítica e Clínica” de Gilles Deleuze, cria o plano onde podemos encontrar a diversidade de discursos que competem pelas intenções da artista. Passando por cima da primeira perplexidade, que é ver um trabalho pouco adaptado (ou conformado) às exigências formais do espaço comercial da galeria, sob o título da exposição, a colecção de artefactos que a constituem remetem-nos para momentos de decisão, passagem e mudança, mas também para a contestação dos percursos de formação inerentes ao processo de transição da infância para a idade adulta, mais especificamente no contexto da definição da sexualidade do indivíduo. Escolhemos a palavra arqueologia, por tudo o que já foi descrito, mas queremos inclinar-nos para a antropologia. O primeiro destes conceitos é-nos dado pela ausência de representação do sujeito que terá habitado o espaço, criando o sentimento quase fantástico que podemos sentir em ruínas abandonadas. Mas esta ausência insere-se nos discursos da crítica feminista quando identificamos, como faz Michèle Montrelay, a mulher como “a ruína da representação”, ou segundo Craig Owens: “Para falar, representando-se a ela própria, uma mulher assume uma posição masculina (…)”. Por ter sido apartada da construção da “representação ocidental”, a mulher (e o artista feminino) tem à sua disposição tanto um espaço vazio como um alheamento que lhe permitem confrontar e questionar o social sem pretenderem ser, pelo menos hoje, “activistas”. Pensamos que este epíteto as conforma (e ao seu trabalho) com movimentos e discursos que conhecemos de minorias étnicas e sexuais reivindicando o seu justo direito de serem incorporados na nossa tradição. Ora, as mulheres, como sabemos, já fazem parte dela. E são a maioria.
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