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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Richard Prince, “Untitled (cowboy)â€, 1989. Fotografia Ektacolor, edição de 2. 50 x 70 inches. © Richard Prince


Richard Prince, “Untitled (fashion)â€, 1982–84. Fotografia Ektacolor, única. 40 x 27 inches (101.6 x 68.6 cm). © Richard Prince


Richard Prince, “Untitled (girlfriend)â€, 1993. Fotografia Ektacolor, edição de 2. 64 x 44 inches. © Richard Prince


Richard Prince, “Upstateâ€, 1995–99. Fotografia Ektacolor, única. 69 x 49 1/16 inches framed. © Richard Prince


Richard Prince, “Untitled (labels)â€, 1977. Detalhe. 4 fotografias Ektacolor, edição de 10. 20 x 24 inches. © Richard Prince


Richard Prince, Untitled, 1988. Acrílico e serigrafia s/ tela. 56 x 48 inches © Richard Prince


Richard Prince, “Know a Guyâ€, 2000. Acrílico s/ tela. 216 x 156 inches. © Richard Prince


Richard Prince, “Nurse of Greenmeadowâ€, 2002. Impressão de tinta a jacto e acrílico s/ tela. 78 x 58 inches. © Richard Prince


Richard Prince, “Untitled (couple)â€, 1977. Detalhe. Fotografia Ektacolor. © Richard Prince

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ARQUIVO:


RICHARD PRINCE

Spiritual America




SOLOMON R. GUGGENHEIM MUSEUM
1071 Fifth Avenue
New York, NY 10128-0173

28 SET - 09 JAN 2008

“What Goes Around Comes Around†ou “O Que Vai Vemâ€

O puritanismo americano aliado à vontade de revolta – através do culto das celebridades, da adolescência, da auto-degradação – são os lugares-comuns na obra de Richard Prince, que ele retira das massas populares, da sua inconsciência e males latentes. A apropriação que Prince faz da cultura americana é uma catarse, com muitas expressões de humor negro – o lado negro das imagens publicitárias, da vida das classes médias, das celebridades, dos clichés, de Hollywood, dos mitos românticos americanos, do herói, da exteriorização da sexualidade. Entre o ready-made, a pop e uma consciência pós-moderna, Prince abraça a superficialidade da vida americana, não tanto pelo lado mundano mas mais na sua entropia. Por isso quando olhamos uma obra de Prince, vemos o fascínio no retratar das imagens, dos enquadramentos que, em primeira instância, são uma tomada de consciência, uma piada, uma ironia – com a ambiguidade que resulta da própria génese do trabalho, do seu centro vital – a ironia de Prince é uma camada de beleza ingénua, que ele devolve às massas. Por isso retratou pessoas consideradas marginais numa sociedade conservadora – os heróis revoltados – onde a própria marginalidade pode ser high art e objecto de culto. Na mesma linha, pegou em cartoons de revistas (“New Yorker†e “Playboyâ€), que lidam com temas sexuais, sociais, emocionais e psicológicos de forma despreocupada ou evasiva e obrigou, com a sua “traduçãoâ€, a uma segunda leitura mais consciente.


A história da cultura americana exposta nas paredes do Guggenheim; a ode à cultura americana em crescendo, em espiral. Marlboro man: o cowboy, o mito do oeste, do herói e do autor. Brooke Shields: o fetichismo sexual, a celebridade, a actriz adolescente, a mãe, o olhar puritano e a visão machista. Vastidão de paisagens, escala das peças, duplos sentidos, os duplos, enfermeiras, segundas leituras… e “rock and rollâ€.
Enquanto pensava nestas relações, abri o livro “The Parallax View†de Slavoj Zizek, no capítulo “When the God Comes Around†da parte “The Unbearable Heaviness of Being Divine Shitâ€, e li o seguinte: “From this perspective [post-modern], Evil is not the redoubling of the primordial One, turning away from it, but the very imposition of an all-encompassing One onto the primordial dispersal. What if the true task of thought, however, is to think the self-division of the One, to think the One itself as split within itself, as involving an inherent gap?†(“Deste ponto de vista [pós-moderno], o Mal não é o intensificar do Uno primordial, que dele se afasta, mas a própria imposição de um Uno que tudo engloba na dispersão primordial. E se a verdadeira tarefa do pensamento for, no entanto, pensar a auto-divisão do Uno, pensar no Uno como dividido em si próprio, como se envolvesse uma falha inerente?â€) Talvez explique, pela coincidência temática, a lógica do pensamento de Prince e a dispersão das suas obras. O título da exposição, “Spiritual Americaâ€, mostra uma caminhada espiritual por entre imagens e detritos sociais e culturais num país de diferenças, lugares-comuns, sentidos transversais e ironia que tem, na fundação da sua identidade, o mito da liberdade individual.


Numa pintura das mais recentes, de grande formato e essencialmente vermelha, está escrito: TWO PSYCHIATRISTS. ONE SAYS TO THE OTHER: I WAS HAVING LUNCH WITH MY MOTHER THE OTHER DAY AND I MADE A FREUDIAN SLIP. I MEANT TO SAY ‘PLEASE PASS THE BUTTER’ AND IT CAME OUT “YOU FUCKING BITCH YOU RUINED MY LIFEâ€. A anedota descreve a falha que troca os pontos de vista e é típica do percurso de Prince onde a multiplicação, reprodução e dispersão de imagens despertam na cultura pop contemporânea questões de autoria e originalidade, sinceridade e cinismo, consciência e inconsciência, espiritualidade e superficialidade e várias atitudes – revolucionária, situacionista, transcendental, documental...


As obras mais importantes da carreira de Prince estão expostas cronologicamente, nesta retrospectiva exaustiva. Como o artista trabalha em séries, a evolução do seu pensamento vai-se revelando enquanto subimos a rampa do museu, com a ajuda da visita audio. Subitamente, deparamos com a peça que deu origem ao título da exposição: “Spiritual Americaâ€, de 1983, a fotografia duma fotografia, que parte do original de Gary Gross, onde Brooke Shields pré-adolescente, com o consentimento total da mãe, posa nua, por entre vapores e luz de velas.


As outras séries são as conhecidas “Untitled (Living Rooms)â€, “Gangsâ€, “Cowboysâ€, “Girlfriendsâ€, “Jokesâ€, “White Paintingsâ€, “Hoodsâ€, “Untitled (Upstate)â€, “Publicitiesâ€, “Nurses†e uma reinterpretação recente das pinturas de mulheres do expressionista abstracto Willem De Kooning. Todo o trabalho de Richard Prince é feito de apropriações e reinterpretações, repetição de imagens, frases ou piadas perturbantes. Imagens publicitárias de salas de estar encontradas em revistas são fotografadas de novo, assim como imagens de cowboys solitários, livres e heróicos, a fumar Malboro por prados e desfiladeiros – os canyons americanos. Fotografias retiradas de revistas como a “Easyridersâ€, onde as namoradas dos motoqueiros posam seminuas nas Harley preparadas para a estrada e onde se lê numa T-shirt o lema “LIVE FREE OR DIEâ€. Nestes reenquadramentos e traduções há um uniformizar da aparência e uma metodologia em série.


Os grupos (chamados Gangs) de imagens juntam por vezes várias numa mesma impressão, como casais que protagonizam filmes diferentes, ondas de surf a rebentar, ilhas desertas, capots de muscle-cars (Mustang, etc…), como símbolo máximo da adrenalina americana. Há ainda logotipos fora de contexto, celebridades em pose com as suas próprias assinaturas por cima, pinturas de enfermeiras dúbias retiradas da ficção pulp e um conjunto de fotografias documentais, contemplativas, de quintais pobres no meio do campo americano (Upstate, norte do estado de Nova Iorque), onde objectos fetiche, pneus e outros elementos degradados e solitários compõem a paisagem …




Ana Cardoso