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COLECTIVACaminhos ExcêntricosMUSEU COLEÇÃO BERARDO Praça do Império 1499-003 Lisboa 09 NOV - 20 JAN 2008 Assinalando o 50º aniversário da União Europeia, e a propósito do seu alargamento a um total de 27 membros, decorre no Museu Colecção Berardo, até 20 de Janeiro, uma exposição que reúne artistas de seis países do centro europeu, comissariada por Sàrolta Schredl para a Plataforma Cultural da Europa Central. Assumido o generalizado desconhecimento dos artistas expostos e, grosso modo, também das realidades artísticas dos países de proveniência (Áustria, República Checa, Eslovénia, Hungria, Polónia, Eslováquia), uma das características que mais se evidencia é precisamente a elasticidade acrescentada a um tema que, em si mesmo, tem originado algumas abordagens nem sempre inovadoras em termos plásticos e nem sempre estimulantes relativamente ao tipo de reflexão suscitada: O tema da “Globalização”, surge assim como fio condutor de uma transversalidade que (também em termos geográficos) nos permite, pelo confronto com um outro que desconhecemos, alargar e estabelecer novas referências identitárias. A amplitude de abordagens e suportes utilizados constitui, sem dúvida, um dos pontos de destaque de uma selecção cujo rigor e contenção, favorecendo a unidade de toda a exposição, não compromete a expectativa crescente do percurso curatorial desenhado. Malgorzata Markiewicz (Polónia) reflecte, através de uma instalação que articula fotografia e elementos têxteis de vestuário, os desequilíbrios inerentes às lógicas mercantis que, não raras vezes, desembocam na exploração de mão-de-obra barata que, como manifesto, personalizam nas etiquetas do vestuário as suas aspirações, angústias e desejos. Da Polónia surge ainda um vídeo de Oskar Dawicki (que, partindo de um contexto específico do equacionar de uma produção cultural, estabelece um paralelismo frenético entre sistemas monetários e a lógica imparável e voraz capitalista) e dois trabalhos de Janek Simon (um dispositivo informático que reflecte as lógicas das economias globais e uma instalação de objectos - “Kalkulator”). Da República Checa, Daniel Pitín (pintura; espaços de representação por excelência e, por isso mesmo, livres para uma interpretação que, todavia, sucumbe a uma mediatização globalizada onde se desvanecem conceitos como “local” e “identidade”) e uma projecção vídeo de Jakub Nepras (“Babylonian Plant”), porventura uma das obras mais atraentes em exposição, porquanto se apresenta como uma forma orgânica, fluida e esteticamente apurada, síntese de um complexo e raro exercício de edição digital. Julie Hayward (Áustria) materializa em peças escultóricas um conjunto de tensões inerentes à progressiva desterritorialização do efeito “Global” (a identidade como refúgio individual ou ponto de partida para o Mundo?). Também da Áustria, Judith Huemer (fotografia) e Clemens Stecher (técnica mista sobre papel) abrem possibilidades de significação para uma reflexão que, sendo específica de determinado contexto (austríaco), desembocam em questões transfronteiriças - o corpo e o espaço (ou o seu enclausuramento) no contexto dos actuais fluxos migratórios de Leste, e a proliferação imagética fragmentada e descontextualizada (Língua como obstáculo impeditivo de um Global de proveitos recíproco). Da Hungria, cujo percurso político das últimas décadas dificultou o normal desenvolvimento artístico, vêm Emese Benczúr (instalação; a capacidade de discernir e manter accionada a nossa atenção, mesmo perante a proclamação de um mundo em que tudo nos é disponibilizado sob a espectacularização da forma), Attila Szucs (a pintura e a inevitabilidade holística do pós 11 de Setembro) e László Csáki & Szabolcs Pálfi (projecção simultânea de 8 vídeos que enaltece a dificuldade de constituir consensos - uma experiência que, no contexto da exposição e seus promotores, convida a uma reflexão crítica e política sobre a possibilidade de que, em alguns consensos políticos massivamente anunciados, tal não se verifique de facto). Os trabalhos de Erik Binder e Milos Boda (Eslováquia) focalizam-se no desvanecimento das liberdades reais (o local como identidade) e na progressiva ampliação de um horizonte manipulado de forma a que, sob todos os pontos de vista, se obtenha sempre o mesmo e maximizado efeito de coesão, em que o real produzido seja mais irresistível do que o real em si. As cinco estruturas tubulares de Dusan Fiser (Eslovénia) equacionam igualmente a produção (e proliferação) de imagens como mediadoras da percepção do real. Marko Ornik (instalação vídeo) parece evocar um céu que a todos abriga por igual (deixando para os efeitos sonoros eventuais implicações sobre se esse mesmo céu a todos “obriga” nas mesmas proporções). Alenka Pirman parte do princípio de utilização tecnológica do powerpoint como principal veículo global de persuasão (também económica), para conceber um dispositivo que o subjugue a uma condição de medium artístico (the power of point). Um possível exercício de “Caminhos Excêntricos” consiste no ir para além das nossas marcas de identidade. Aquando do regresso reflectiremos sobre a importância (ou não) de ter um território onde voltar.
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