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COLECTIVARéalités, un mensuel illustré des Trente GlorieusesLA MAISON EUROPÉENNE DE LA PHOTOGRAPHIE 5/7, rue de Fourcy 75004 Paris 16 JAN - 30 MAR 2008 RÉALITÉS: imagens para uma história da sociedade dos lazeresSerá possível fazer aflorar, ao nível do mundo das imagens, a existência do homem vulgar na sua vida normal? As realidades da existência quotidiana são o objecto da esperança, da alegria e da tristeza da imensa maioria dos homens. Procurar o excepcional é uma facilidade e a marca de uma impotência. Como o disse Claudel, “a poesia perenis não inventa os seus temas, mas retoma eternamente aqueles que a criação lhe fornece [...]. O objectivo da poesia não é, como diz Baudelaire, mergulhar no infinito para encontrar o novo, mas no definido para encontrar o inesgotável.” Com efeito, é próprio do poeta descobrir a riqueza do que, a um olhar superficial, aparece como banal. Tudo é uma questão de atenção. O homem moderno é distraído. “O universo de Eduard Boubat”, Réalités, n.º 202, Novembro 1962. Réalités é o nome de uma revista de grande tiragem editada em França entre 1946 e 1978. Dirigida a um público burguês (em 1946 o preço de capa é de 150 F quando um diário como o Le Monde custa 3 F), esta revista luxuosa e “profusamente ilustrada”, politicamente posicionada ao centro (embora fosse reputada de direita), propunha-se como um “observatório do mundo”, numa época em que a televisão dava ainda os primeiros passos e as viagens não eram uma prática massificada. Um dos grandes fenómenos de imprensa do pós-guerra, única no seu género na Europa (apenas comparável à Life, que é, depois da sua criação em 1936, o mais importante semanário no sector), a revista Réalités, hoje quase desconhecida, inventou um modelo jornalístico. Mantendo uma regularidade mensal e cultivando um jornalismo de observação, capaz de antecipar a informação, a revista propunha uma noção de actualidade (menos febril do que sintomática), pronta a ser descortinada por um olhar que, não ambicionando uma apreensão “a quente” (voltada para acontecimentos-notícia), se dispusesse, pelo contrário, a uma reflexão alargada e em profundidade sobre os mais variados assuntos, contextos culturais e mutações sociais (atendendo aos sinais). A periodicidade da edição permite o envio de repórteres e fotógrafos aos quatro cantos do planeta, em estadas de vários meses, se necessário. Os artigos são, na maioria das vezes, extraordinariamente longos e o espaço atribuído às imagens, progressivamente aumentado, raramente é inferior a uma página inteira. Organizada por números temáticos e cobrindo áreas tão diversas como a política, a decoração, a economia, a religião, a moda, a ciência, a arte ou o desporto, a linha editorial de Réalités evolui duma focalização prioritária na geopolítica a um interesse particular pelas descobertas científicas, passando pela descoberta do planeta e pela descrição da vida quotidiana, quase sempre tratada numa perspectiva que confunde isenção com nivelamento e onde o exotismo é posto ao serviço das vendas. É possível encontrar edições de Réalités dedicadas à vida dos Tuaregues, ao Salão Automóvel de Paris, à Guerra da Argélia, à América vista pelos franceses, à URSS de Stalin, à Espanha de Franco, a Portugal (pintado como um “jardim sobre o mar”, sem procurar compreender, nessa paisagem, em que moldes se praticava a “jardinagem” salazarista), à hipnose, às indústrias Krupp, ao Muro de Berlim, aos concursos de beleza da tribo Peuhl, ou à fotografia como “testemunho das angústias e das aspirações do nosso tempo”. Em colaboração com a Médiathèque de l’architecture et du patrimoine, a Maison Européenne de la Photographie propõe – numa exposição comissariada por Anne de Mondenard (responsável pelo fundo fotográfico da primeira das duas instituições) – uma panorâmica pelos números da revista Réalités publicados entre o final da década de 40 e 1964, ou seja, durante uma boa parte dos “trinta gloriosos”, nome por que é conhecido, em França, o período de crescimento económico que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Com base numa selecção de 128 capas e páginas duplas, pretende-se, deste modo, averiguar da importância da fotografia nesta revista, assumindo como ponto de partida uma reflexão sobre as imagens, consideradas no seu contexto de publicação. Pensar as imagens neste âmbito implica, pois, uma aproximação em que se articulam três níveis de problematização. Em primeiro lugar, é necessário examinar as imagens em si mesmas, isto é, naquilo que revelam da fixação de um ponto de vista sobre o objecto fotografado (já que a denotação é, em si mesma, conotativa). Em segundo lugar, é preciso analisar as relações que se estabelecem entre as imagens – sempre paginadas de modo a desencadear um confronto significativo (de objectos e/ou de pontos de vista) –, mas também entre as imagens e as legendas e textos que as acompanham. Por fim, torna-se necessário averiguar de que modo as opções editoriais traduzem uma determinada mundividência (Weltanschauung) – necessariamente histórica – e uma ideologia. No entanto, para levar a bom termo este programa ambicioso – trata-se, como acabámos de verificar, de produzir uma abordagem meta-discursiva e meta-histórica (sobre uma revista, sobre uma época e sobre as suas representações) – a exposição deveria, em si mesma, comportar uma desmontagem crítica, melhor, meta-analítica, dos seus critérios (as razões da selecção dos exemplares e páginas que se mostram não é explícita, embora se compreenda que o eixo estruturante é a imagem), dos meios escolhidos (o catálogo – na verdade um estudo aprofundado sobre a proposição apresentada – tem uma validade autónoma, sendo que a exposição, por si só insuficiente, pode ser vista como um complemento) e, naturalmente, da exequibilidade dos seus propósitos (fica por definir o ponto de enunciação a partir do qual se retrospectivam as figurações dos “trinta gloriosos”). Contemporânea das teorias pansemióticas de Roland Barthes – todos os objectos (e todas as imagens) significam e reproduzem, contextualmente, pela maneira como são relacionados ou usados, uma organização social –, a revista Réalités poderia servir de contraponto (ou de ilustração) às Mitologias (1957), esse celebérrimo breviário de semioclastia em que Barthes ensaia uma crítica e uma desmontagem da cultura de massas: tratando as “representações colectivas” como sistemas de signos, Barthes pretende “sair da denúncia piedosa para dar conta em detalhe da mistificação que transforma a cultura pequeno-burguesa em cultura universal”. Com efeito, folhear a Réalités é passar em revista a emergência da sociedade de consumo em França, seja ao explorar as idealizações europeias dos EUA ou as fantasias e a coquetterie das jovens de 16 anos (tão contrárias ao que Simone de Beauvoir defendia, nesta mesma altura), seja ao atirar para a capa, sempre concebida como um cartaz, a resplandecência metalizada do Facel Vega, homólogo francês do Cadillac fotografado sob a Torre Eiffel ou ao centrar em Saint-Tropez a revisão do cliché das férias de sonho, seja, sobretudo, ao superlativar as incoerências, quase sempre menos coloridas, dos regimes comunistas. Assim se caracteriza este olhar que promove o ecletismo para formular a realidade no plural, mas que tudo foca através de uma mesma lente etnocêntrica, que se quer crítico e atento às contradições da sociedade a partir donde fala, mas que capitula, sem remorsos, à primeira das exigências do pós-guerra: a obrigação de ser optimista. Não será depois de estranhar que, num esforço no sentido do aumento da difusão com vista a um acréscimo das receitas publicitárias – se, durante a década de 40 a publicidade se restringia às primeiras e últimas páginas, a edição de Natal de 1955 contém 58 páginas de publicidade em 150 – a revista passe a contar a partir de 1950 com uma edição em inglês, distribuída sobretudo nos EUA, mas também na Grã-Bretanha (a que se somaria uma edição japonesa a partir de 1971). Não sabemos se esse interesse pelos EUA responde a um dos objectivos primordiais de Réalités, “divulgar o pensamento francês no mundo”, ou se se deve, pelo contrário, à fascinação (e às orientações políticas) dos seus directores relativamente a esse mercado. O que é certo é que, desde o seu surgimento, Réalités sempre demonstrou um interesse (e um conhecimento) transatlântico muito particular, não deixando de ser espantoso o facto de a revista ter dedicado um número (o n.º 14, de Março de 1947) ao general George Marshall, nove meses antes do seu plano de ajuda à reconstrução da Europa. No sentido inverso, o interesse da classe média americana pela publicação francesa parece dever-se, como o ajuízam as sondagens aí realizadas na década de 50 por Réalités, à veiculação da imagem de uma França optimista (o pessimismo é, certamente, mais difícil de vender) e, nas palavras do editor, à procura americana de “uma receita da felicidade”. De um modo menos inflamado, não será no entanto descabido reconhecer nesta conivência – muitas vezes conseguida às custas de uma clara oposição ao sentido dominante na paisagem intelectual francesa (particularmente fracturante no que respeita à percepção do comunismo como uma ameaça externa ou à total incompreensão e mesmo antagonismo face às propostas sociais e políticas do Maio de 68) – o preço pago pela França por ter sido “salva” pelos americanos: abraçar uma nova cultura, a cultura americana. Mas se os traumas da guerra e da ocupação correspondem, nesta antologia de Réalités a páginas em branco, basta atravessar a rua para se ter a visão contrária. Recorrendo ao mesmo fundo fotográfico nacional – gerido pela Médiathèque de l’architecture et du patrimoine – o Jeu de Paume – Hôtel de Sully, apresenta, em parceria com o Museum Folkwang de Essen, a exposição Photographier après la guerre: France-Allemagne, 1945-1955. Procurando ressonâncias entre duas concepções da fotografia que vigoraram, neste período, de cada um dos dois lados da fronteira e que correspondem a duas grandes correntes históricas do pós-guerra, a fotografia humanista (modelo dominante em Réalités) e a Subjektive Fotografie, a exposição reúne um conjunto de imagens que obrigam a aproximar estas duas orientações, tradicionalmente definidas como antagónicas. Entre a crença na dignidade inalienável do ser humano (que caracteriza a fotografia humanista) e as visões pessoais (que fazem da Subjektive Fotografie uma reacção à estética de regime imposta pelo nazismo), a reconstrução simbólica e moral que tanto uma como a outra correntes propõem, converge assim numa mesma certeza: não pode ignorar-se o rasto da guerra; e numa mesma figuração metafórica: o manto de neve que cobre uma planície alemã não é menos espesso do que aquele que amortalha uma Paris silenciosa. Entre o optimismo de Réalités e o negrume branco de Photographier après la guerre é preciso interpelar as imagens e interrogar as renovadas mitologias gaullistas que hoje voltam a animar a França. Fazer a história do século XX (para que concorrem exposições como esta) passará, pois, pela reconstrução dessa imagem que se desdobra entre uma história da sociedade dos lazeres e uma história da imprensa. Pelo menos de um ponto de vista capitalista, europeu ou americano. Depois, é preciso decidir se essa história mistificará ou, pelo contrário, desconfiará da “existência do homem vulgar na sua vida normal”.
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