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ROBERT RAUSCHENBERGEm viagem 70 – 76MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 26 OUT - 30 MAR 2008 Hyle trajectóre - Aquele que atravessa a matériaO Museu de Serralves apresenta Robert Rauschenberg (n. 1925). Artista que pode ser denominado um “clássico contemporâneo”, na linguagem mediática, do universo da arte, do século XX. Rauschenberg, foi associado ao desenvolvimento da Pop Art, foi acusado de detractor do expressionismo abstracto (de De Kooning nomeadamente), ou, positivamente elogiado por ter feito a ponte entre estes dois movimentos artísticos; foi amigo e colaborador de John Cage, Morton Feldman e de Merce Cunningham. Sincero admirador de Marcel Duchamp, estudou na escola de belas artes americana mais alternativa da época, o Black Mountain College com Josef Albers (professor da Bauhaus), antes de trocar o atelier de Nova York pelo da Captiva (em 1970) na costa leste da Flórida, e de viajar pelo mundo para poder criar livremente e em associação, com Jasper Johns, com Cy Twombly, entre outros. O que não se sabe é que muitos anos antes trabalhou numa fábrica de embalagens de fatos de banho, a Ballerina, em Los Angeles, enquanto estudava no Kansas City Art Institute. (1) E é com embalagens, cartões, caixas de papel provenientes da série “Cardboards” executada entre 1971 e 1972 que começa esta exposição, que ocupa a ala direita do Museu de Serralves. O que se pode dizer sobre o material cartão, caixa de papel? Parece ser o perfeito exemplo da definição de material, que é a matéria dotada de forma, ou seja, átomos de matéria original (hyle para os gregos) atravessados (trajectore em latim) pela mão do homem. E as caixas dobram-se e desdobram-se, são marcadas por selos de vida, de fragilidade e por diferentes destinos, como todas as viagens humanas. Passam da bidimensionalidade para o volume tridimensional por uma dobra. São caixas, e as caixas podem trazer dentro de si a metáfora de um país (como a homónima caixa de esmolas do filme de Manoel de Oliveira, 1994), podem abrir-se e tornar-se tranparentes como cortinas ao vento, ou como velas de um navio. As rodas das bicicletas amputadas do resto dos seus membros são a reivenção da arte em todos estes gestos. Os “cardboards” são caixas desmontadas como um mapa individual, como uma arquitectura que era, antes do gesto de Rauschenberg, invisível, e, adquire um novo sentido, desdobrada. Podemos ver matérias–primas na gordura, mel e feltro presentes na obra de Beuys ou nos “objets trouvés” singularizados na carreira duchampiana, mas nem as justaposições de objectos do mundo capitalista, capturados pela ironia de Andy Warhol (que celebraria este ano 80 anos) permitem a estratificação em “layers” de material que se fundem numa obra que reaparece com uma história antiga num corpo novo como acontece nas obras de Rauschenberg. Pintura, escultura, colagem, “objet trouvé”, são materiais para as suas composições, são átomos, hyle, da sua arte. A exposição das obras reunidas em torno das “viagens” de Robert Rauschenberg, entre 1970 e 1976, surpreende por nos permitir contemplar uma outra face de Rauschenberg, a anos luz da exuberância quase feérica das “Combine Paintings”, que pudemos ver reunidas no Centre Pompidou em 2006 – 2007. A exposição comissariada por Mirta de Argenzio é uma exposição de verão, capturada no interior das paredes brancas da arquitectura de Siza Vieira. Isto se as exposições fossem concebidas segundo as estações do ano, como na moda. A pobreza ou simplicidade dos materiais e a beleza e eficaz depuração das obras remete-nos para espaços abertos, para uma exposição que se poderia fazer nos Jardins de Serralves em tempo de verão, como se se tratasse de um “paraíso artificial” de comissariado. São obras com uma densidade de “exterior” que nada tem a ver com a parafernália das ruas nova iorquinas. A exposição transporta-nos para um universo silencioso ao longo de séculos, longe da correria das grandes metrópoles, e para obras que parecem sair das mãos de quem acredita poder refazer o mundo com um pedaço de corda; transporta-nos para as paisagens da Índia, de Veneza, do Egipto, das geadas do Inferno de Dante. O próprio Rauschenberg lamenta por vezes ter de apoiar as suas peças em paredes: “… A natureza de alguns dos meus materiais trouxe-me um problema adicional porquanto tive de encontrar uma maneira de os apoiar fisicamente numa parede quando evidentemente não fazia sentido estarem perto de uma parede.” Robert Rauschenberg entrevistado por Barbara Rose, texto citado no catálogo da exposição (2) Robert Rauschenberg “combina” os materiais e as técnicas artísticas de uma forma que permite ao espectador fazer a síntese no momento em que as vê; as suas obras comprimem densidades de materiais que fundidas pelo nosso olhar, sem um ponto de observação sugerido, são mónadas difíceis de descrever. “They are the products of a solitary and somewhat isolated consciousness working improvisationally with the matter and emotions directly at hand, a projection of Rauschenberg´s mind and body onto the intimate and alienated world of the studio”. Yves Alain-Bois na crítica à exposição “Robert Rauschenberg Combines”. As séries apresentadas no Museu de Serralves são: “Cardboards”, “Venetians”, “Early Egiptians”, “Hoarfrosts” e “Jammers”. Abstenho-me de descrever as peças ou de desvendar demasiado a exposição como um apelo à sua visita. Os materiais utilizados são: o cartão o ferro o tecido, a borracha, o bambu, a corda, e mesmo especiarias. Existe nelas o singular que se encontra em viagem. Há uma busca de simplicidade simbólica dos materiais que, no entanto, revelam toda a totalidade dos lugares e da história. Para gerações como a minha é interessante observar como se questionava a produção artística no mundo em que eu acabara de nascer. Verificar que para este artista, bem como para uma parte da crítica de arte, ainda hoje activa, os problemas levantados pela classificação iconológica das obras, como a escultura ou a pintura, fazia nascer querelas infindáveis. Tal como a problematização do carácter escatológico ou do reflexo da bissexualidade do artista nas obras. Hoje com todos os novos meios de criação e suas manifestações, certas questões parecem obsoletas, embora se coloquem de outra forma: Como apresentar uma obra de arte na Internet? Rauschenberg é um criador dentro do zeitgeist da época: a explosão dos anos 70. Curiosamente a obra “Monogram” (1955 - 1959) da série “Combines”, foi contemporânea do leitmotiv do criador de moda Louis Vuitton, nas suas malas, começando o seu monograma a circular nos anos 50. O criador vive com os jornais, com a sua sociedade e os seus derivados. “The past and the future don’t interest me, I am in the present. I try to extol the present with my limits, but by using all my resources.” Rauschenberg entrevistado por André Parinaud (3) E ainda hoje dentro da sociedade do capital imaterial (e dos “imateriais na arte” como diria Lyotard) surpreende ver, sobretudo nas suas “Combines” a materialização da performance numa obra de arte com um suporte inerte. Para além de materializar a imagem (como defende Rosalind Krauss) (4), Rauschenberg consegue pelas suas estruturas de diferentes materiais, dos mais simples aos mais subtis em sofisticação, relatar o tempo na materialidade física que ele atravessa e com os diálogos artisticos que esse relato comporta. A exposição com um percurso temático pelas séries do artista seguindo a sua cronologia temporal mantém-se coerente com a orientação original dada à programação de Serralves, estamos circa 1968, ou nos frutos dessa génese temporal. NOTAS Para ler mais sobre Robert Rauschenberg: (1) “Robert Rauschenberg”, Sam Hunter, Rizzoli International Publications, 2000. ISBN: 9780847821839. (2) “Robert Rauscheneberg em viagem 70 – 76”, concepção de João Fernandes, textos de João Fernandes e Mirta d’Argenzio, Fundação de Serralves, 2007. (3) “Robert Rauschenberg: Combines” esteve patente no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, em 2006 e no Centre Pompidou, em Paris, até 21 de Janeiro de 2007. O catálogo conta com editorial de Paul Schimmel, na edição francesa pelo Centre Pompidou. ISBN: 978-2844263094. “Robert Rauschenberg: Cardboards and Related Pieces” (Menil Collection), Yve-Alain Bois, Clare Elliott, Josef Helfenstein, 2007. ISBN: 0300123787. (4) “Rauschenberg and the Materialized Image”, Rosalind E. Krauss, “Artforum”, December 1974.
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