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COLECTIVALes Inquiets - Cinq artistes sous la pression de la guerreCENTRE POMPIDOU Place Georges Pompidou 75191 Paris 13 FEV - 19 MAI 2008 “As guerras fazem a publicidade do que ja se concretizou. Opera-se uma mudança completa; as pessoas deixam de pensar como antes; mas ninguém se apercebe disso, salvo os criadores. Os outros estão demasiado ocupados em sobreviver que não podem sentir o que aconteceu. Mas o criador compreende o que os outros pensam, ele sente, observa, compreende o que os outros pensam, não procura saber o que eles pensaram. Vive no tempo presente, e apercebe-se de que as pessoas deixaram de viver como tinham vivido até ali. O estado de alma de todo um povo, de todo o mundo mudou. Esse povo, esse mundo ignoram a mudança, mas a guerra força-os a reconhecer essa mudança porque durante uma guerra a aparência de todas as coisas altera-se a um ritmo acelerado. Mas a verdadeira transformação total já se realizou, quando uma guerra força o mundo inteiro a reconhecê-lo.†Gertrude Stein, Picasso (a partir da versão italiana das edições Adelphi, Milão) A confirmar esta afirmação de Gertrude Stein estão as obras e o questionamento artÃstico de Yael Bartana (1970), a artista mais cativante desta exposição colectiva, no espaço 315 do Centre Pompidou, em Paris. São 5 artistas provenientes do Médio Oriente, mais precisamente de Tel-Aviv, Palestina e Beirute que reflectem sobre a guerra e as mutações por ela operadas. A comissária, Joanna Mytkowska (1970), deu a esta exposição o atractivo nome “Os Inquietosâ€, tÃtulo de um romance do autor israelita, Leo Lipski. Neste livro, Niepokojni, o autor descreve a situação dos artistas “que graças à sua hipersensibilidade pressentiram, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o horror do Holocaustoâ€. O catálogo da exposição integra textos da comissária e do director do Van Abbe Museum em Eindhoven, Charles Esche - também comissário da Bienal de Istambul e de Ramalah - e pretende sublinhar através desta escolha curatorial uma possÃvel leitura da guerra realizada por artistas originários do ex-Império Otomano. Esta intervenção visa, segundo Esche, inserir trabalhos de artistas do Oriente nos museus ocidentais, e a longo prazo promover uma nova leitura da arte ocidental relativizando a obra de mestres como Picasso ou El Lissinsky. A obra de Yael Bartana, “Low Relief†(2004) abre a exposição como um friso em “baixo-relevo†no frontão de um templo ou de uma pirâmide egÃpcia. As cenas, em slow motion de um vÃdeo desdobrado em 4 ecrãs, são de uma manifestação em Tel- Aviv, onde se nota a presença militar. O único som é o de vento no deserto. A imagem paralisa-se por vezes num dos ecrãs e ganha uma tridimensionalidade escultórica, que permite aproximar o guerreiro de hoje ao construtor do túmulo do faraó. Esta é também uma aproximação à construção da nação judaica em Israel. Numa conversa pública realizada no dia da inauguração da exposição (na EHESS), a artista afirma que, desde 2000, procura a sua matéria-prima de reflexão artÃstica em Israel, seu paÃs natal, onde vive e trabalha. Pensa que os seus trabalhos servem para destruir mitos colectivos, como o do sionismo que serviu de propaganda para a atracção de judeus de todo o mundo a Israel. Este frieeze e friso histórico realizado em vÃdeo assume o mesmo carácter de acontecimento da construção de pirâmides no Egipto. “A grande pirâmide é um acontecimento, como o é igualmente um atropelamento provocado por um acidente com uma viatura†era o que Alfred North Whitehead defendia em 1920, no seu livro The Concept of Nature citado por Michel Gauthier no artigo “Un moderniste a Gizeh†no último volume de Fresh Théorie, das edições Léo Scheer (Outubro 2007). Assim a grande pirâmide seria catalogada na categoria do pontual e temporário, uma vez que para Whitehead um acontecimento é “o carácter de um lugar durante um perÃodo de tempo(…) por todo o lado e cada vez que algo se realiza há um acontecimentoâ€. Deste modo, a realidade inteira aparecerá na nossa experiência como um conjunto de acontecimentos que se desenrolam a diferentes velocidades, o que relativiza uma construção “intemporal†como a das pirâmides de Gizé; estas serão um acontecimento comparável a um acidente de automóvel ou a uma obra de arte. Esta relativização dos eventos é uma consequência a retirar da guerra, pelo menos da guerra hodierna, em que construir uma bomba artesanal dentro de casa é como fazer uma sopa, pois inscreve-se no quotidiano. Chamar evento, ou acontecimento é também uma relativização do nome “Guerraâ€, do nome “Revoluçãoâ€. São acontecimentos. O que se passou em Maio de 68, em França, e o que se passou em 74, em Portugal, foram revoluções; mas neste caso se o golpe de estado não tivesse tido sucesso, dirÃamos os eventos de 74. A noção de guerra como um evento ou como uma série de acontecimentos surge após a Segunda Guerra Mundial e é uma forma de relativizar os conflitos que duram cerca de 50 anos. Esta relativização parece ser quase uma caricatura na obra vÃdeo de Akram Zaatari, “work in progress†(2008). Falta-lhe talvez a tensão da realidade que existe nos filmes de Pedro Costa. Nesta construção de bombas, feita por um ex-combatente libanês e o seu assistente, não acreditamos na sua realidade. Na obra vÃdeo de Rabih Mroué, “Three Posters†(2000), o autor faz a escalpelização do fenómeno do mártir que pratica um atentado bombista, analisa a construção polÃtica e social do evento “mártir†numa performance de 90 minutos. É um trabalho que radica um pouco na pesquisa e teatralização das performances “live†de Walid Raad, mas Rabih Mroué filma todas as fases do processo que o próprio apresenta como actor e como artista. As fotografias de Ahlam Shibli, “The Valley†(2007), que estão expostas no corredor e no átrio, entre as três projecções dos outros artistas - salvo Bartana que se encontra na entrada da exposição - , são a pausa em imagens, sem som, estranhamente silenciosas. São a paisagem que relata o real de um pequeno aglomerado habitacional, uma aldeia na Palestina contemporânea, das constantes migrações dos seus habitantes, e dos seus dias, bem como das suas construções, segundo a denominação árabe ou judaica. Curiosamente todos estes artistas falam de construções sejam elas virtuais esculturas em baixo-relevo, de bombas, de mártires e de heróis de guerra sem convicção. Como é o caso do vÃdeo “The Casting†(2007) de Omer Fast, que contrapõe duas histórias que se cruzam em dois ecrãs simultâneos: um jovem soldado americano enviado para o Iraque e o seu encontro com uma jovem alemã na sua visita à Europa, na Baviera. É pena que o cineasta israelita Avi Mugrabi, não esteja presente nesta exposição, pois num filme como “Pour un seul de mes deux yeux†( 2005), a experiência da morte vivida durante o dia a dia de um paÃs em guerra é um verdadeiro ensaio ou casting da morte, como diz uma das suas personagens. Ele demonstra também o turismo ideológico em Massada (local do primeiro martÃrio judaico, no ano 77 da nossa era) e a irrealidade de uma construção de fios de arame farpado que cria divisórias entre as etnias em Israel; a irrealidade de um paÃs e o seu questionamento actual a quase 2000 anos de distância de um conflito inicial. A guerra traz uma construção, uma modificação radical com múltiplos efeitos sociais, culturais e económicos. O artista que a vive no quotidiano, poderá aperceber-se dessas transformações profundas mas como ela ainda perdura não pode deixar uma mensagem definitiva nas suas obras, só um questionamento. Bartana é a única artista presente nesta exposição que faz uma prospecção de futuro, de um futuro em que a guerra talvez ainda perdure como um evento. É a análise da cristalização operada no seu pais, que deve abandonar os seus mitos para poder reinventar-se de novo. A arte polÃtica dos anos 2000, não é a arte militante dos anos 70, talvez seja a manifestação artÃstica mais desperta aos acontecimentos, sob um olhar agudo; é talvez a forma de arte que desmistifica a publicidade feita pelo evento colectivo chamado guerra.
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