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COLECTIVATrue NorthDEUTSCHE GUGGENHEIM MUSEUM Unter den Linden 13/15 10117 Berlin 02 FEV - 13 ABR 2008 Exposição colectiva comissariada por Jennifer Blessing, curadora para fotografia e vÃdeo-arte do Salomon R. Guggenheim Museum of New York, patente no Deutsche Guggenheim em Berlim até 13 de Abril de 2008. O Norte é o pólo magnético, por isso atrai os corpos, as agulhas e a imaginação. O extremo Norte, pensado a partir dos povos do Hemisfério-Norte e sobretudo antes da era da cartografia, é uma zona obscura envolta em mistério, terror e encantamento. A proximidade ao Pólo indica um lugar inumano, terrÃfico e bizarro de estranhas luzes e temperaturas subhumanas. Mas também foi, no passado, fonte de suposições e fantasias relacionadas com uma espécie de ParaÃso de onde os homens teriam “caÃdoâ€. Ou “descaÃdoâ€. Encontram-se em mitologias indo-europeias e asiáticas lendas referindo o Norte do Mundo como o lugar de origem, in illo tempore, dos antepassados, semi-divinos. Entre elas, a de Ultima Thule ou Hiperborea que seria, de acordo com autores gregos e romanos, um continente situado no extremo-norte, existido em tempos remotos, e povoado por seres transparentes, que aliando-se a outros seres humanos, deram origem a seres cada vez mais opacos. Algumas crenças germânicas antigas retomaram estas lendas; desviadas no século XX pela mitologia ocultista do nazismo, nelas assentou a assunção mÃtica da superioridade dos povos germano-escandinavos, – a raça ariana – pela descendência dessa estirpe de homens superiores vindo do Norte. A Thuleia era, na antiguidade greco-romana, o limite norte do mundo conhecido, que se pensou ser uma ilha real, identificada por naturalistas e navegadores, supondo-se mais tarde ser a Islândia, as ilhas Shetland, as Orneys ou uma região remota do norte da Escandinávia, entre outras possibilidades. O Norte absoluto é uma zona astronomicamente priviligiada. Se no Pólo o Zénite coincide com o ponto fixo do céu, estar perto do Pólo é como estar perto do centro do mundo, do ponto 0 onde passa o eixo da Terra que a liga virtualmente ao céu pela Estrela Polar, em torno da qual giram todos os atros. Ora, a exposição “True Northâ€, com uma ponta de ironia no seu tÃtulo, mapeia não o Norte absoluto, mas um Norte relativo, um Norte sociologicamente, psicologicamente, geográfica e culturalmente relativo. Embora lidando com a herança no imaginário ocidental do que é O Norte, o verdadeiro Norte. Nos trabalhos dos 7 artistas que a constituem estão presentes diversas “ideias de Norteâ€. Cada um tem o seu Norte. Para nós portugueses, os alemães são povos “nórdicosâ€, pelo que em Berlim, no lugar da exposição, estar-se-ia já “no Norteâ€. Para os românticos do século XIX, o Norte gelado marca uma presença importante, em representações de uma Natureza selvagem e indomada, intocável e imutável, sendo por isto associado ao sentimento do Sublime. Encontramo-lo em Caspar David Friedrich, Otto Runge, Schiller, Blake. Mais de um século depois, tal olhar foi culturalmente descontruÃdo. O pólo foi percorrido e cartografado. O gelo — que já não é monopólio dos extremos da Terra ou das alturas podendo ser fabricado em qualquer lugar — não mais é entendido como uma força da Natureza imutável e indomável, como dita a consciência de que os pólos estão a derreter devido à actividade humana. A humildade do Homem perante a sacralidade da Natureza ou o terror sublime perante as suas forças que lhe são superiores desapareceram do imaginário colectivo. É sobretudo com este desaparecimento, essa dessacralização e o desencantamento que daà decorre que lida o discurso curatorial, posicionando as obras nos dias de hoje perante os mitos e lendas da ideia de Norte, nas relações com o legado do Romantismo e da História da Arte. As imagens de carácter elegÃaco que a constituem comportam, para além de um sentido histórico crÃtico e auto-reflexivo do seu tempo, um tom de melancolia que podemos associar ao sentimento de perda de pureza do Norte, e à possibilidade de extinção eminente da sua brancura gelada. A imagem fotográfica inscreve-se aqui na tradição do Memento Mori, a que se presta especialmente, por fixar algo que no momento seguinte já não é. “The Glacier Seriesâ€, de Olafur Eliasson, é um painel de 47 fotografias de glaciares, tomadas de um avião. Os glaciares são objecto de fascÃnio, forças naturais que escavam vales ao longo de milénios, esmagam e impressionam pela escala grandiosa e seus volumes de gelo revolto e no entanto ordenado. Ora, nada disto está presente aqui, porque o olhar próprio da escala humana foi substituÃdo pelo da vista aéra, longÃnqua, em que o glaciar é diminuÃdo, logo dominado. O olhar, superior, é o do cartógrafo, serial e documental. Desafectado e des-sublimizante, se pode dizer-se. A fotografia de Armin Linke, de uma pista de ski artificial em Tóquio brinca com os cânones românticos de representação da paisagem do Norte gelado. A composição apresenta uma paisagem em tons de azul e branco e um chão nevado do qual não vemos o fim — que se perde no infinito — sob um céu azul povoado de estrelas-candeeiros. No vÃdeo de Orit Raff, “Palindromeâ€, um plano da artista vestida com um casaco de peles desenrolando e empilhando feltro a quatro patas numa casa de gelo é intercalado com filmagens de um coiote numa paisagem nevada, um plano de à gua e gelo e uma imagem do exterior da casa na paisagem fria. A performance, que é como um ritual de sobrevivência ligado à tentativa de produzir ou manter calor, é justaposta ao animal, que reina no seu habitat natural: um confronto entre Homem e animal selvagem, não no sentido de afrontamento mas quiçá de respeito e homenagem. A posição do Homem aqui é de clausura e fragilidade enquanto o animal é livre e forte, invertendo-se simbolicamente as relações de poder e domÃnio que caracterizam no mundo contemporâneo a relação Homem-Natureza. A tentativa vã de aquecer recorda que este não é já o território dos Homens, estamos a Norte desse território e tudo o que aqui se passa de humano está necessariamente envolto em magia e esforço. Para sobreviver aqui, o homem tem de tornar-se um chamã. Lembremo-nos da performance de Joseph Beuys com um coiote “I like America and America likes me†(1974). As relações são múltiplas. Para além do feltro e do coiote, a homenagem a Beuys insere-se ainda na ideia expressa pelo tÃtulo “Palindrome†(algo que pode ler-se ou fazer-se nos dois sentidos), e que também subjaz a “I like America and America likes meâ€. Em “Nu•tka•â€, instalação vÃdeo de Stan Douglas, trata-se sobretudo de conflito. Jogando com a estrutura material da imagem TV, dois travelings entrelaçados de uma mesma paisagem convivem com o som de duas falas distintas simultâneas. A atenção não consegue focar-se. O conflito cerebral simboliza um outro conflito, histórico. Pontualmente, tanto na imagem como no texto/som, os dois “canais†encontram-se quase em unÃssono. Estes são momentos fortes que estabelecem uma estabilização, pontos de ancoragem em que no entanto o feitiço não é totalmente quebrado — nunca se desvanece o tom fantasmagórico, pois nem os planos nem as vozes são exactamente coincidentes. A filmagem é do lago Nu•tka• na ilha ao largo de Vancouver e os textos são cruzamentos de excertos de Poe, Swift, Sade e Cervantes com os de diários de um general inglês e de um comandante espanhol que combateram pelo domÃnio das suas coroas sobre a região. Douglas lida aqui com o Norte como lugar de conflito e loucura; a paisagem guarda, como um fantasma, a memória violenta da colonização e das lutas de poder que ali aconteceram, da loucura colectiva e individual (os dois oficiais acabam por enlouquecer, um fazendo do outro prisioneiro). Ouvindo gritar durante o confronto “Nu•tka•!â€, o general espanhol pensou ser esse o nome do lugar, tendo-o registado como tal, nome que se mantém hoje. Ele não entendeu que “Nu•tka•†significava em lÃngua nativa “vai-te embora!â€. O povo nativo, “personagem principal ausenteâ€, dá o nome ao lugar e à obra. Trabalhando em séries, Thomas Flechtner tem vindo a fotografar locais em zonas remotas e frias no hemisfério norte. Na série “Walksâ€, Flechtner realiza uma performance-desenho previamente à fotografia, sulcando a neve com os seus skis. A fotografia é depois disparada com uma longa exposição, obtendo uma luz irreal e um aspecto muito pictórico. Ao espectador sem esta informação, o desenho na paisagem surge quase como “naturalâ€. A ausência do actor humano na paisagem abre o campo para a interrogação, questionando a relação entre obra humana e obra da Natureza. O tÃtulo aponta no entanto para uma acção humana na paisagem — esta pista torna evidente que o desenho no solo é artificial. Podemos ler o acto como simbólico da colonização, pelo Homem, do território do frio. Roni Horn tem viajado recorrentemente para e em torno da Islândia nos últimos 30 anos. O seu trabalho, ancorado na realidade e imagens da ilha, é uma reflexão sobre a vida, seus ciclos, sua circulariade, as relações Homem-Natureza e sobre como o Homem humaniza a Natureza. Em “Piâ€, contrói um ensaio fotográfico composto por fotografias dispostas em linha formando um horizonte, virtualmente circular, ao longo de quatro paredes, a uma altura superior à da cabeça, de forma que o espectador, para as contemplar num ângulo confortável do olhar, é instintitvamente levado a recuar até ao centro da sala, de onde tem uma visão panorâmica e não focada em cada imagem. Os temas repetem-se, as imagens, de tom neutro quase documental mas tocante pela simplicidade, são fotografias do mar a perder de vista; janelas de uma casa sobre o mar; ninhos dos pássaros; pássaros nidificando nas encostas sobre o mar; pássaros mortos; animais empalhados; um casal idoso que vê diariamante, como tantos outros da Islândia rural, a telenovela “Guiding Lightâ€; stills do drama da telenovela; terra cultivada; colheitas; uma sala na casa dos velhotes com um monte de penugem recolhidas dos ninhos dos pássaros. Coisas “simples†da vida quotidiana, com seus ciclos e cÃrculos, aqui unificados numa simultaniedade. Os animais empalhados são estranhos, têm um ar quase humano, como diz a artista numa entrevista, dir-se-ia que o taxonomista os fixou à sua imagem — não estão muito distantes do casal de velhos a caminharem para o fim da vida. Estes bichos podem ser metáforas da fotografia e da relação vida/morte: a fotografia “fixa†— logo, “mataâ€â€” o modelo, retirando-o do tempo da vida. Por fim, na fotografia de Elger Essen, o horizonte desenhado por elementos de mão humana marca a orientação numa imagem quase totalmente branca, em que o chão — água ou terra ?— é quase um espelho do céu, pois pouco os diferencia. O horizonte alivia e hierarquiza, numa paisagem que de outro modo pareceria não ter coordenadas, perdendo-se o seu campo no infinito. O tÃtulo da imagem, “Ameland-Pier X, The Netherlands†indica o lugar onde foi feita. A Holanda poderá ser o verdadeiro Norte? Se o Norte é relativo. Uma imagem assim da Holanda é uma imagem do Norte. Paralelamente à exposição, o museu organiza eventos como conversas com os artistas; a projecção de um filme baseado no ensaio radiofónico de Glenn Gould “The Idea of Northâ€; ou, em colaboração com o cinema ARSENAL, um ciclo de filmes com o tÃtulo “Bilder aus Eis und Schnee /Ice and Snow on the Silver Screenâ€. Este inclui preciosidades como as primeiras filmagens de flocos de neve e de paisagens de gelo, o filme de 1919 “South - Shakleton’s Glorious Epic of the Arctic†(Frank Hurley) documentando uma aventurosa expedição ao Pólo Sul, ou o lindÃssimo “Nanook of the North†de Robert Flaherty que em 1922 documenta, romantizando-o, o modo de vida dos Inuit do norte do Canadá.
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