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JOÃO MARIA GUSMÃO E PEDRO PAIVAPara uma Ciência Transitória do Indiscernível: A AbissologiaGALERIA TORREÃO NASCENTE DA CORDOARIA NACIONAL Avenida da Índia, Edifício da Cordoaria Nacional 07 FEV - 13 ABR 2008 Haverá obviamente inúmeras formas de olhar para “Abissologia”, naquilo que comporta de génese para uma nova forma de pensamento, de laboratório criado para testar os limites da própria ideia de ciência, de engenho em ficcionar a própria realidade em função de um conceito apriorista. Poderíamos então fazer esse exercício de uma forma simplista em que “Abissologia” seria: a) uma exposição encriptada e hermética impossível de discernir sem ser através do discurso e do suporte teórico veiculado pelos seus criadores (João Maria Gusmão e Pedro Paiva); b) uma forma despudorada de encenação científica que ilude o público com recurso a uma articulada prosápia ideológica que a suporta; c) um conjunto de peças que têm como mote a noção de simulacro e que dão origem a novas significações que se pretendem não reificadas. Atentemos pois a esta última alínea, pois não é a própria ideia de ficção uma condição sine qua non para o pensamento Abissologista? Para uma Metafísica do Simulacro À entrada da exposição encontra-se o filme “fundador” dos pressupostos abissológicos: “Eclipse Ocular” que explora o trinómio olho-ovo-lua. O eclipse é operado sobre um ovo de avestruz, onde tanto o invisível como o indiscernível se traduzem em sombra. A sombra, referenciada pelos artistas como “o inominável do visível” é a dimensão iniciática e transversalmente explorada no conjunto de obras presentes nos dois andares da Cordoaria Nacional. A leitura científico-filosófica que se torna omnipresente ao longo da exposição surge como resultado posterior a uma ideia de antítese entre natureza e cultura observada a todo o momento. A ciência será a forma que a cultura encontra para dominar a natureza, ou as tentativas que engendra nesse sentido. Temos assim por um lado os trabalhos de cariz “natural”, em que assistimos a demonstrações das possibilidades e impossibilidades da natureza, mediadas na maior parte das vezes por uma epistemologia científica, e por outro lado os trabalhos de cariz “cultural” onde predomina a vertente simbólico-ritualista. Ambas (natureza e cultura), são aqui ficcionadas e simuladas, num jogo permanente que constrói narrativas irónicas, lugares de ficção e ficções da realidade quer ela seja natural ou cultural. “Hélice” é a ideia excepção. O discurso filmado nela presente é o que mais se aproxima de um certo registo documental, próximo de uma preocupação etnográfica com a “preservação” de uma realidade perecível. O filme acompanha o processo de fabricação de uma hélice em bronze a partir de um método de molde tradicional, minucioso e demorado. Talvez constitua, por isso mesmo, o mais “hiper-real” dos trabalhos expostos, consubstanciado e potenciado pela opção de instalar o objecto realizado – a própria hélice – no espaço da exposição, como se tratasse de uma prova/testemunho da “veracidade” do objecto fílmico. O corpo de trabalho apresentado tem no postulado de Baudrillard, para quem o simulacro não seria um equivalente de irrealidade mas poderia antes ser apresentado como um conjunto de experiências, formas, códigos e objectos mais reais do que a própria realidade, a sua síntese. É um real sem origem comprovada e sem existência corroborada que contribui, no contexto de “Abissologia”, para a não reificação dos lugares e dos objectos presentes nas diversas obras. Assim, o que se poderia antever como registos quasi etnográficos em “A Grande Bebedeira” ou em “Acerca do Espírito da Gravidade (ou o ferreiro e o corte da serpente)”, não são mais do que encenações/ficções de um ritual sem espaço e sem tempo precisos, condição fundamental para a impossibilidade de os essencializar. Aqui o simulacro/simulação do ritual serve apenas os pressupostos abissologistas, e não uma curiosidade antropológica pela alteridade ou pela “autenticidade”, como erroneamente se tenderia a enunciar. A ambiguidade é por isso uma constante em “Abissologia”, onde nem tudo o que parece é (e vice-versa), e é precisamente esta dimensão que Gusmão e Paiva gerem com inteligência e mestria. Algumas peças remetem-nos para uma ideia de “simbologia primitivista”: a sombra, o fogo, o reflexo, o osso, a pedra, a serpente, mas essa dimensão ora está presente ora deixa de estar, através de exercícios que baralham os referenciais iconográficos do tempo e do espaço. A recorrência da ideia da serpente em “Acerca do Espírito da Gravidade (ou o ferreiro e o corte da serpente)” (traduzida por uma corda suspensa por fios de nylon), e em “Oroboro”, remete-nos para uma leitura simbólica onde, a partir de Aby Warburg (Historiador da Arte, 1866-1929) poderíamos efabular sobre a universalidade do “ritual da serpente” em que este animal, simbolicamente identificado com o raio, é dominado. Esta demonstração de poder põe em evidência um mecanismo universal voltado para o controle dos medos primitivos do homem diante das forças incontroláveis da natureza, um processo que estaria na base da formação das imagens significativas de todas as culturas. Antes disso em “Horizonte de Acontecimentos” há também uma outra corda suspensa que desafia as leis da gravidade através de uma câmera obscura. Mas em “Abissologia” uma corda pode tanto ser uma serpente como também um relógio de sol ou simplesmente uma corda. E tem tanto de Warburg como de Nietzsche e da serpente que acompanha Zaratustra.
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