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SUSANNE THEMLITZO Estado do SonoCULTURGEST (PORTO) EdifÃcio Caixa Geral de Depósitos Avenida dos Aliados, 104 4000-065 Porto 15 ABR - 17 JUN 2006 Em “Temps et Récitâ€, Paul Ricoeur aprofunda a questão do acto narrativo e a relação particular entre as noções de narrativa e temporalidade. Guardiã do «tempo», a narrativa é uma experiência temporal que apenas pode ser contada. O processo narrativo e a experiência temporal são duas categorias que fazem parte do discurso plástico ensaiado por Susanne Themlitz na instalação que apresenta na Galeria CGD da Culturgest no Porto. Ao entrar no amplo espaço da exposição, o espectador é subitamente confrontado com uma sensação antagónica de estranheza e familiaridade. O acervo caótico de objectos, seres, utensÃlios de trabalho, andaimes rudimentares que se erguem sem destino ou função aparente, contribui para a construção de múltiplas narrativas que num movimento de zapping visual podem ser observadas. Os vários episódios parecem ter sido temporalmente suspensos, como se a entidade geradora das imagens tivesse feito uso da tecla pause parando a sequência dos acontecimentos. A artista vai cedendo instantes que permitem construir, passo a passo, uma possÃvel narrativa. Nesta desordem, a ordem é a do sonho e a racionalidade, a do automatismo. Nela, os diferentes fragmentos da narrativa interceptam-se no espaço – fÃsico e temporal – do inconsciente. O espectador é, deste modo, convidado a circular pela instalação numa atitude de observação atenta dos pormenores que permitam identificar o porquê da escolha dos objectos que simbolicamente se constituem como atributos das diferentes identidades e que, ao se assumirem como extensões corporais, num elaborado exercÃcio de simbiose fantástica, fazem parte da narrativa cujo eixo se define na zona central da instalação. Um avião incapaz de voar e uma cama de ferro suspensa num pára-quedas contribuem para acentuar o estado do sono que parece dominar toda a narrativa e temporalidade deste estaleiro. Um sonho cuja segmentação permite ao espectador a construção de múltiplas pequenas histórias. As posturas alheadas dos seres em actividades imaginárias sublinham esse estado de consciência entre o fantástico e o real, que apenas em determinadas situações se tornam identificáveis. É o que acontece com o núcleo de apicultores reconhecÃveis pelas redes de protecção ou pela presença amontoada de colmeias que preenchem um dos núcleos da instalação. Do outro lado, os corpos cortam-se de si mesmos e adoptam posições estranhas. Reflexos de timidez ou receio fazem-nos esconder-se sob um balde, um funil; outros, extrovertidamente, parecem envolvidos em discussões inaudÃveis. As reinvenções do corpo são permanentes. No fundo, a artista constrói um universo que opera no imaginário onde a personificação dos objectos se confunde com a objectualização de seres andróginos. É esta tensão que anima o aparente desequilÃbrio e fragilidade que se sente nas estruturas, cuja inverosimilhança apenas pode remeter para um diferente estado de vigÃlia. Tendo presente alguns dos projectos anteriormente desenvolvidos pela artista (ver nota), noções de individualidade, solidão, anonimato, privacidade e marginalidade mantêm-se efectivas na instalação agora apresentada. Todas as actividades humanas são de facto um estabelecimento de relações. Narrativas, imagens e gestos constituem modos do Homem se relacionar com o mundo e consigo próprio. Nota: “Galeria dos Solitários, Carracundos e Ensimesmados†(1997-2001), “Solitários Inofensivos†(2001), “Da vida privada dos Parasitas Marginais e Dissimuladores†(2001), “Modus Vivendi. Genus Mutabile Criaturas Venatórias Anónimas†(2003) “Rivais Arraianos Anónimos†(2003).
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