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PEDRO CABRAL SANTOTiltCAM - CENTRO DE ARTE MODERNA Rua Dr. Nicolau de Bettencourt 1050-078 Lisboa 12 MAR - 22 JUN 2008 Como as instabilidades produzem novas experiências“TILT†é o nome da nova exposição individual de Pedro Cabral Santo, em apresentação no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Completando, assim, uma trilogia iniciada em 2002 e dedicada à homenagem de diversos autores, Cabral Santo reúne nesta mostra quatro novos trabalhos que convocam, por sua vez, obras de artistas de perÃodos históricos distintos, nomeadamente Giuseppe Penone, Constantin Brancusi, Gustave Courbet e William Turner. Contudo, não se trata de um simples exercÃcio de citação ou revisão nem tão pouco de nostalgia. Como veremos, estes nomes são referenciados para que se opere um tilt, uma diferença. Mas o que é um tilt? Segundo a perspectiva da Óptica, o termo refere-se a um desvio na direcção da propagação da luz que poderá provocar uma má formação de imagens, estando por isso, e em última instância, associado a um princÃpio de falha e instabilidade. Mas não será este também o princÃpio organizador de grande parte da obra de Pedro Cabral Santo, apesar de ser pensado sob múltiplas vias? Desde logo identificamos no seu trabalho, e nesta exposição em particular, o uso recorrente de materiais encontrados e provenientes de fontes diversas como hipermercados, ferros-velhos ou a rua, sendo possÃvel inscrevê-lo num contexto artÃstico de pós-produção que, através de assemblages, remisturas, reciclagens ou de outros formatos, contribui para novos entendimentos do medium, recusando leituras essencialistas. Os objectos hÃbridos de Pedro Cabral Santo dão assim lugar a uma produtiva estratégia associativa que potencia um olhar atento e crÃtico em relação aos mais diversos fenómenos polÃticos, sociais e culturais da contemporaneidade, ao mesmo tempo que promove situações inesperadas de grande humor e abertas à fantasia. É assim que Cabral Santo continua a reinventar o quotidiano, sendo disso exemplo a escultura que abre a exposição, intitulada “Su pressionâ€, 2007-08. Com um barrote de madeira, um tubo de alumÃnio, uma base cilÃndrica do mesmo material e um valvulÃmetro de pressão de ar comprimido, constrói uma espingarda artesanal que cita a obra “Pressione†(1974) de Penone, sob dois sentidos. Se, por um lado, os materiais lembram a Arte Povera e suas utilizações, por outro, a réplica que aqui aparece denuncia possivelmente a generalizada indústria do armamento. “Azul em Ornans†(2006-07), outra das três esculturas da exposição, faz-nos recuar no tempo até ao século XIX, mais concretamente a dois momentos: 1850 e 1871. Ornans é a cidade onde Courbet nasceu e é também o cenário de uma pintura sua “L’ Enterrement à Ornans†(1849-50) que, apesar de retratar socialmente aquela cidade de forma realista, guarda algo de estranho, quanto à própria cova, suscitando inúmeras interrogações. É exactamente essa categoria de estranheza que Pedro Cabral Santo parece trazer para este seu trabalho constituÃdo por três chapas metálicas negras piramidais de base triangular. Curiosamente, esta forma que assume uma linguagem minimalista tem como referente uma maqueta da coluna Vendôme, que Jules Raudnitz fotografou em 1871, dado que a própria coluna se destruiu durante a Comuna de Paris. Continuamos perante enunciados mas que geram possibilidades ao serem reconfigurados e “atravessadosâ€, neste caso, por uma espada de luz azul que nos traz à memória episódios de ficção cientÃfica. Em “380 cm d’ amour à Constantin†(2007) é Brancusi, como o próprio tÃtulo anuncia, a ser homenageado. Uma fita métrica segura um corpo feito de gesso a partir de um molde que podia ser o de um super-herói ou de um qualquer monstro de BD. Sucede-se que a fita está a 380 cm do tecto e o corpo, a escassos centÃmetros do chão, encontra-se numa situação de instabilidade total, havendo espaço, no entanto, para se imaginar a amplitude do seu salto e estabelecer-se uma relação com a escultura “Endless Column†(1938) de Brancusi, realizada em memória dos soldados romenos mortos na Grande Guerra. Ora é também de instabilidade e desacerto, mas agora perceptivos, que o único vÃdeo da exposição trata. Ao longo dos seis minutos de duração de “The Turner PIC†(2005-07), Pedro Cabral Santo sobrepõe as 3 barras RGB à pintura Naufrágio de um Cargueiro de Turner, com a preocupação de garantir a correcção óptica das cores da própria pintura que surge apenas como imagem. Subitamente as barras ganham uma nova função e passam a receber um diálogo entre duas personagens em formato legenda e sem som, não havendo qualquer continuidade entre a pintura-imagem e o texto. Liberta de uma narrativa fechada, a conversa desenvolve-se em torno de relatos sobre experiências associadas ao uso de mescalina e efeitos que esta produz ao nÃvel da percepção, à medida que vai introduzindo uma temporalidade à própria imagem quase sem movimento. Entretanto, também já a nossa percepção se encontra alterada e já só descontinuidades surgem no objecto que observamos. O diálogo enquanto ficção convida, assim, o observador a sobrepor uma terceira imagem, agora criada por si, a esta trama imagética, pelo que já não é possÃvel identificarmos uma origem ou uma imagem primeira neste trabalho. “Turner PIC†pertence, por isso, a um regime da percepção que, ao caracterizar-se não só pela retenção mas, sobretudo, por experiências de fragmentação, dispersão e diferimento num processo onde a imaginação é também agente participativo, rejeita o entendimento da fenomenologia tradicional. A exposição conta ainda com “DR-During Rewindâ€, um trabalho de João Simões produzido entre 2007-08 e que torna audÃvel o som do rebobinar de um vÃdeo. Contudo, apenas de 41 em 41 minutos temos acesso ao respectivo som que varia entre o abstracto e o que parece ser a voz de alguém, participando igualmente daquele regime perceptivo.
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