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LORIS GRÉAUDCellar DoorPALAIS DE TOKYO - SITE DE CREATION CONTEMPORAINE 13, Avenue du Prèsident Wilson 75 116 Paris 14 FEV - 27 ABR 2008 Bolinhas de sabãoExposição que se apresenta como um projecto de atelier-máquina-desejante autonomizado e com vontade própria, mais próximo de uma “fábrica que sonha” do que de uma “fábrica de sonhos”, como “uma cadeia de montagem mais estratosférica do que o feijão mágico de Jack” e “mais deformante do que o espelho de Alice”, como um “gigantesco organismo gerado por uma partitura que se estende pelo tempo e pelo espaço”, como ponto de partida para alguma coisa e não como um resultado, como um work in progress e não como uma proposição acabada, como um complexo espacio-temporal descontínuo e não-cartesiano, como “um objecto delirante, dotado de pensamento e de palavra, que se reinventa em permanência”, como um terrain-de-jeu “onde as regras estão por inventar”, como uma ópera, como um lugar “onde gigantescos fogos de artifício são atirados para debaixo da terra”, “onde as perspectivas se dobram sobre elas próprias como bolas de papel”, “onde as estrelas formam desenhos intergalácticos que se medem em anos-luz”, “onde as falhas espacio-temporais se abrem sob os pés”, “onde as esculturas se formam sob os olhos”, uma exposição que é como uma “entrada no imaginário delirante de um atelier onde cada pensamento é uma metáfora [que outra coisa poderia ser?] que desenha em cruz a sua ambição e o seu devir”, como “um objecto proteiforme”, como “uma marioneta gigante” pilotada em tempo real por um “estúdio antecâmara” – só lamentamos que esta exposição não seja também um magnífico pudim de ovos com cobertura de caramelo –, “Cellar Door”, primeira grande mostra individual do jovem artista francês Loris Gréaud, é, além de tudo isto, um lamentável espectáculo de mistificações várias, a primeira das quais, a própria mistificação do espectáculo que assim se quer montar (e que sem querer, assim se desmonta – aproveitemos, nós também, o primarismo antinómico em que se estrutura tão paradoxal proposta). Tão sobrecarregada de meios como de referências e alusões mais ou menos cifradas – a autores como Buckminster Fuller (geometria analítica), Kurt Schitters (Merzbau), Wagner (Gesamtkunstwerk), Yves Klein (IKB); correntes artísticas como o minimalismo, a arte conceptual, o abstraccionismo, a Gestalt; a áreas de investigação como a electroscopia, a arquitectura virtual, a “tecnognosis”, o paranormal, a mecânica quântica, o espiritismo, a astrofísica, a mediunidade, a psicologia (déja-vu, telepatia, “sonho magnético”, hipnose); a técnicas tão obscuras como a “dinamistografia”, a psicometria, a electroterapia ou a electroacústica – a exposição só não é barroca (no sentido pós-moderno do termo) por ser um grotesco vazio, caro e aparatoso. O espectáculo, que quer mostrar-se hiper-codificado, hermético e votado a coisas muito difíceis de entender (a estratégia, tão antiga como a alegoria), é suficientemente anódino para não ofender ninguém, enche o olho – melhor, o olho, o olfacto (numa sala tenta reconstituir-se o possível cheiro de Marte), o paladar (por 2 euros podem adquirir-se na exposição pequenos sacos de “Cellador”, uns rebuçados coloridos que têm a particularidade de serem destituídos de sabor), o ouvido (ao virar de cada esquina o espectador depara-se com inquietantes interferências sonoras), o tacto (num corredor proporciona-se a experiência de uma corrente de ar, mais à frente, uma sala com a temperatura mais elevada, etc...) –, é engraçado (e variado), grande, polémico (um espaço onde se pode jogar paintball remete para cenários de guerra – uma guerra imaterial e televisiva), não sendo particularmente colorido, tem imensas luzes que acendem e apagam, uns ruídos misteriosos aqui e acolá. Leia-se nas entrelinhas a prosperidade da jovem arte contemporânea francesa. À contra-luz, a negação de Lautréamont: não uma criação feita por todos, mas apenas uma exposição com todos os meios. À transparência, a opressão pelo dinheiro. Visto ao contrário, talvez não tenhamos percebido nada, afinal. A única certeza: a exposição é, no sentido mais corriqueiro da expressão, um espectáculo!
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