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GELITINLa LouvreMUSÉE D’ART MODERNE DE LA VILLE DE PARIS 11, avenue du Président Wilson 75116 Paris 01 MAR - 30 ABR 2008 Manifesto para que nos deixem em paz Penso que vocês são demais. Demasiado lindos. Demais a produzir. E a produzir lindamente. Demasiado conhecedores. Demasiado depositários. Acrescentais demasiado. Gostais demasiado da densidade. Demais da logÃstica. Vocês são demasiadamente técnicos. Deste modo produzis blocos. Monólitos. Moral. Mas deixai-nos viver. Estamos nas tintas para os relatórios. Queremos a vida. Queremos respirar. E se a literatura nos impede de respirar, vamos procurar noutro lado. Queremos inventar. Queremos inquietar. Queremos foder a zona. A vida chama-nos à zona. Ao naufrágio de nós próprios. Somos seres que desatinam por todo o lado. Desatinar por todo o lado e isto é ainda o inÃcio. Desatinar é a única contra-medida. Contra-medida face ao que nos é dito, na literatura e por aà fora. O vosso pensamento é a medida que convém demasiado ao nosso tempo. E é preciso descoser do tempo. O homem é um ser que desatina por todo o lado. É por isso que é preciso escrever manifestos. Manifestos para que nos deixem em paz. Charles Pennequin, in La Journal publicação da exposição “La Louvre†Os re-batizados Gelitin (antes chamavam-se Gelatine, mas adoptaram o erro de tradução do pacote de gelatina que lhes inspirou o nome) são um colectivo de 4 artistas austrÃacos: Florian Reither, Tobias Urban, Wolfgang Gantner e Ali Janka. Começaram a sua actividade em 1997. São conhecidos pelas diversas performances e intervenções desconcertantes que realizaram e pelo carácter anti-conceptual e provocador das mesmas. Não reclamam nenhum conteúdo intelectual para a sua obra, encontram-se no que poderÃamos chamar, reverso (desenjoativo para os habituées da arte) do air do temps contemporâneo. Uma arte orgânica, onde a fisicalidade desconstrói os paradigmas da sociedade. A exposição que apresentam no institucional Musée d´ Art Moderne de la Ville pretende ser, como os próprios diriam une déconnade, ou seja um gozo total. Normalmente a presença do quadrunvirato é parte integrante e essencial das suas manifestações, mas desta vez só participaram da grande inauguração colectiva do “La Louvreâ€, a que infelizmente não assisti. A minha curiosidade mantém-se todavia aguçada… No inÃcio do percurso encontramo-nos perante um mural escatológico, fotografias de excrementos humanos que compõe um texto em escrita contÃnua, mas de difÃcil leitura: como o arúspice romano fazia a interpretação das entranhas dos animais, os Gelitin propõe-nos uma leitura fecal do mundo. O filósofo italiano Giorgio Agamben apresentou estes dias em Paris (no Instituto Nacional de História de Arte) uma conferência intitulada “A assinatura das coisasâ€, uma digressão sobre a assinatura humana, cultural, filosófica e artÃstica ao longo do tempo. Poderia este pensador considerar a assinatura fecal dos Gelitin um retorno ao não marcado na arte, a um orgânico colectivo? Porém onde se encontra a prometida “La Louvreâ€? Vejo estruturas escultóricas construÃdas em balsa e esferovite, e no material fetiche de pelo menos três gerações germânicas: a fórmica, que se encontra perfurada, esventrada … mas e a “La Louvreâ€? Por todo o lado grandes (e pequenas) imagens dos 4 Gelitin nus entre paisagens de montanha, de falo erecto, numa visão masturbatória do mundo. De l’art ou du sperme… Mas avançando cada vez mais pela exposição sinto-me desiludida, mesmo um pouco defraudada pelas peças apresentadas, vazias de força vital, mesmo um pouco repetitivas, por muito que acredite que tivesse sido interessante participar numa performance colectiva com uma multidão de público. Mas aqui jazem os restos de uma intervenção que não deixa memória. E coloca-se a questão do registo em certas formas de arte performativa: Será “La Louvre†mais o arquivo de uma passagem, do que uma exposição? A sala que decalca de uma forma mais literal o tÃtulo da exposição encontra-se repleta de dezenas de versões da Gioconda de Leonardo da Vinci, na sua maioria bastante atribuÃveis à arte bruta. A exposição desilude pelo seu vazio e visita-se muito rapidamente. A curiosidade faz-nos avançar, mas a viagem é pobre e, no entanto, toda a carreira dos Gelitin oferece melhores provocações/produções do que esta. Pois apesar de se auto-proclamarem não intelectuais os seus sets performativos demonstraram ser sempre muito antecipatórios ou auspiciosos de sentidos. Em 1997 construÃram uma pequena varanda no exterior de uma janela do 91.º andar, da Torre 2, do World Trade Center. Durante alguns minutos cada um dos membros do colectivo posava na varanda para que lhe tirassem o retrato, de um helicóptero alugado para a ocasião, que voava em torno da varanda. Tudo isto acontecia durante as horas de expediente e era obviamente ilegal, pois a entrada no edifÃcio era restrita a homens de negócios: “Sou um homem de negócios e lá dentro só entram homens de negócios†afirmou C. J. Barfoed, Director das relações externas do Porto de Nova York a propósito do World Trade Center. Esta foi uma intervenção simultaneamente polÃtica e poética. Em 2005 na Bienal de Moscovo, suspenderam uma escultura colectiva, o “Zapf de Chichiâ€, no exterior do Museu Lénine: uma estalagmite que aumentava de volume à medida que os visitantes utilizavam as casas de banho. Depois transformaram diversas galerias austrÃacas, nova iorquinas e parisienses em parques de diversão, com fotocopiadoras manuais como o “Tantamounter†(2006), em que ocuparam 90% do espaço da galeria de Léo Koenig, em Chelsea, com um mobile gigante artesanal no qual moram 24 sobre 24 horas, durante o perÃodo da exposição, propondo como principal actividade a produção de fotocópias de objectos fornecidos pelo público; são as fotocópias feitas à mão dos mesmos (isqueiros, sapatos, bonecas, fotografias…) ou “Tantamounters†que oferecem gratuitamente ao público. Esta performance permitia produzir objectos artÃsticos para todos e com a colaboração do público, que se tornava coleccionador. Em 2007 na galeria Emmanuel Perrotin em Paris o mote foi descontextualizar a frase mais popular proferida pela última monarca francesa Marie Antoinette, “Qu´ ils mangent de la brioche / Porque é que eles não comem brioches ?â€, quando lhe anunciam que os pobres, que morriam à fome, exigiam pão. E revisitando um pouco a sua carreira, que desliza alegremente a meus olhos, poderia ver “La Louvre†como um escolho pós-nuclear do Museu mais capitalista de França. A super-estrutura museal, burocrática por excelência, sÃmbolo de séculos de cultura em compêndio ocidental, transformada em resÃduo; “La Louvre†é uma parábola ao que resta do Louvre: o que os ratos não quiseram comer. Os Gelitin querem que os deixemos em paz e que o Senhor não os abençoe… Mas infelizmente estão a ficar sedentários na sua prática artÃstica e é por isso que “La Louvre†desilude. Podem espreitar a preparação do “La Louvre†no Youtube: www.youtube.com/watch?v=JQ2on69SgCo
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