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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Julião Sarmento, “Mulvey”, 2008. Acetato polivinílico, pigmentos, acrílico e serigrafia sobre tela de algodão. 190 x 180,5 x 6 cm


Julião Sarmento, “Klossowski”, 2008. Acetato polivinílico, pigmentos, acrílico e serigrafia sobre tela de algodão. 150,5 x 150,5 x 6 cm


Julião Sarmento, “Hélder”, 2008. Acetato polivinílico, pigmentos, acrílico e serigrafia sobre tela de algodão. 190 x 190,5 x 6 cm


Julião Sarmento, “Burgin”, 2008. Acetato polivinílico, pigmentos, acrílico e serigrafia sobre tela de algodão. 91,5 x 97,7 x 4 cm


Julião Sarmento, “Guibert”, 2007/2008. Escultura em fibra de vidro, resina, tecido, veludo, madeira, ferro e espelho. 130 x 375 x 195 cm

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ARQUIVO:


JULIÃO SARMENTO

Julião Sarmento




CRISTINA GUERRA CONTEMPORARY ART
Rua Santo António à Estrela, 33
1350-291 Lisboa

03 ABR - 03 MAI 2008

contos sobre o realismo sujo*

Naquela que é a sua segunda exposição na galeria Cristina Guerra Contemporary Art, Julião Sarmento apresenta um núcleo de sete serigrafias sobre tela acompanhadas de uma escultura que convocam certos aspectos recorrentes do seu trabalho, nomeadamente alguns procedimentos técnicos de natureza indexativa, o recurso à linguagem do cinema e à literatura, a representação do corpo feminino ou ainda o desejo e seus movimentos. No entanto, estamos, como veremos, perante um processo que se organiza a partir da repetição para produzir singularidades e diferentemente se manifestar.

O interesse de Sarmento pelo uso da serigrafia não constitui uma novidade é certo, remontando à década de 1970 e, mais concretamente, aos anos que antecederam a revolução de Abril, período esse que ficou também marcado pelas suas idas frequentes à Sociedade de Gravadores Portugueses e motivadas pelo dinamismo que esta imprimia no contexto artístico nacional. A utilização deste medium tem de facto atravessado toda a sua produção, estendendo-se à actualidade. Encontramo-lo, quer integrado em instalações e vastos projectos como “Rosebud”, quer em trabalhos predominantemente gráficos, de forte narratividade e de dimensão fragmentária, assim como neste conjunto de trabalhos inéditos agora em exposição. Mas de que forma Sarmento usa a serigrafia em 2008? De um modo outro e contrário ao da sua possibilidade técnica, que é o da reprodução. Ou seja, cada uma destas serigrafias em tela é única. Sarmento tira então partido deste jogo de inversão e prolonga-o a outras dimensões. Vejamos.

Apesar das obras serem também “pinturas brancas”, na medida em que as respectivas telas são preparadas com acrílico branco, Sarmento surpreende-nos ao evitar a inscrição de figuras, sombras, acções ou espaços reconhecíveis. Nada é identificável, contudo não estamos no domínio da simples abstracção. No lugar desses ícones tão familiares, encontramos manchas informes com gradações diversas de azul, vermelho, amarelo e cinzento - aliás cor predominante deste conjunto de trabalhos. Mas curiosamente, estas manchas serigrafadas decorrem de um processo de recolha de restos de tinta, lixo, sujidade e pó do atelier do artista, à semelhança do que fez há cerca de dez anos para produzir a pintura “The House With the Upstairs in It”, e de acordo com Delfim Sardo (1). No entanto, Sarmento opera agora uma diferença, ao documentar estes despojos através de um procedimento de indexação decorrente do uso da fotografia, que, por sua vez, devolve um outro sentido de representação, construindo uma realidade sobre esse real, entenda-se aqui a sujidade como real. Neste sentido, continuamos portanto perante uma dimensão do real e não do abstracto como aparentemente é sugerido.

Tal como a natureza fragmentária e sintética da literatura do Dirty Realism, sendo Raymond Carver um dos escritores desse género que mais influenciou a obra de Julião Sarmento, também este lixo aparece descontextualizado secamente, na medida em que é retirado do atelier, ampliado e deformado para posteriormente ser inscrito na tela. Este duplo efeito é, por sua vez, reforçado pela presença de pequenos excertos de textos, por vezes rasurados e sempre incompletos, que o artista vai buscar a Herberto Helder, Pierre Klossowksi ou Laura Mulvey. Usados como montagem nestas composições, os textos-ficções entram num infinito jogo de significação com as imagens, abrindo estas obras à condição do virtual, a única que escapa e resiste a uma totalização do sentido e que, por não actualizar-se, possibilita o desejo.

A escultura que Sarmento apresenta nesta exposição, parece também fazer parte desse mesmo regime de permanente agenciamento de signos, que nunca revela uma certeza e se mantém na sua estranheza e indecibilidade. Uma mulher de vestido preto está sentada à cabeceira de uma mesa, numa posição habitual e que, de tão familiar, facilmente nos reconhecemos nela. Na outra extremidade da mesa, encontra-se um espelho. Contudo, a mulher está encapuçada não podendo ver a sua imagem reflectida nem dar a conhecer ao observador o seu rosto. Irrompe-se assim uma falha nesse circuito de devolução de uma imagem identitária impossibilitando a sua leitura como algo estável.



NOTAS

* Tradução literal de “Tales on Dirty Realism” (título de uma série de pinturas de Julião Sarmento realizadas em 1987).

(1) Sardo, Delfim – “Print Matters. As edições em contexto na obra de Julião Sarmento” in Catálogo Raisonné Edições Numeradas, 1972-2006, Vol.1 . Badajoz: MEIAC, 2007.


Sofia Nunes