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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Gregor Schneider, “süβer Duft”. Detalhe. Fotografia: Marc Domage


Gregor Schneider, “süβer Duft”. Detalhe. Fotografia: Marc Domage


Gregor Schneider, “süβer Duft”. Detalhe. Fotografia: Marc Domage


Gregor Schneider, “Haus u r”, 1985-. Detalhe.


Gregor Schneider, “Totes Haus u r”, 2001. 49° Bienal de Veneza.

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Süsser Duft




LA MAISON ROUGE - FONDATION ANTOINE DE GALBERT
10, boulevard de la Bastille
75012 Paris

22 MAI - 18 MAI 2008

A caverna sem manual de sobrevivência - breve percurso sentimental pela obra de Gregor Schneider

Era uma vez uma casa onde vivi durante 5 meses e que desapareceu sem deixar rasto. Da sua existência em Veneza, restou um filme, um documentário de uma obra de arte em forma de casa. No entanto, a casa real eclipsou-se restando um pavilhão vazio e o filme realizado pelo artista é desta forma uma ficção ou um documentário invertido. Numa luminosa manhã de Junho, nos Jardins da Bienal de Veneza, caminho por entre as árvores ouvindo o chilrear dos pássaros e o som da laguna. Passo por entre os pavilhões históricos destes espaços, ainda sem visitantes nem guardas; são 9 horas da manhã e graças a um convite de Suzanne Pffeffer, assistente de Udo Kittelmann na 49° edição da Bienal, vou visitar sozinha a “Dead House u r” de Gregor Schneider.

Suzanne está lá, sorridente, como é habitual, diz-me :
- podes entrar, estas à vontade… !
O pavilhão alemão, imponente, com a fachada num austero amarelo imperial apresenta uma pequena porta, com um maçaneta vulgar; entro e desta viagem vai começar o meu convívio com a obra de um dos artistas que mais admiro…

O seu percurso artístico, glosado e mitificado em dezenas de publicações da especialidade, após a conquista do Leão de Ouro da Bienal de Veneza, começou aos 16 anos (Gregor nasceu em 1969 em Rheydt), com o projecto da casa dos seus pais, a “Casa u r”. Esta não era a residência familiar dos Schneider mas um depósito comercial, uma casa onde se acumulavam memórias e registos familiares, em Rheydt, subúrbio industrial de Hamburgo, na Alemanha. Até 2007 ele cria novas peças, isola quartos, fecha aberturas de janelas, reproduz janelas artificiais, abertas para paisagens-muros de cimento, criando um labirinto que se intitula “Haus u r” e que quando extraída cirurgicamente para fora de Rheydt, intitula-se “Totes Haus u r” (Casa Morta u r).

… entro e a porta fecha-se atrás de mim, subo as escadas que se apresentam à minha frente e chego a um pequeno hall, com três portas, o que obriga a uma escolha aleatória; continuo e passo por uma cozinha que parece abandonada desde a noite anterior, com café frio e um pouco de cheiro a restos; subo até ao quarto, onde uma cama e uma banheira parecem ser os elementos essenciais de uma vida sem janelas, ao sair a minha sensação era de ter saído de um filme de Alfred Hitchcock.

Durante toda a duração da Bienal e sua desmontagem vivi pelo menos 5 horas por dia na “Casa Morta u r”: com o calor e humidade do verão veneziano, com os visitantes que vandalizavam o espaço e as constantes dificuldades de restauro (uma problemática na arte contemporânea e ainda mais nesta obra), com a diária fila de visitantes que, frustrados, ao final do dia, quando não conseguiam entrar (o acesso era limitado a 7 pessoas na casa) nos insultavam, chamando-nos de nazis. Mas dentro da casa os meses decorriam de outra forma, da irrealidade e quase repulsão inicial provocada pela claustrofobia de certos espaços passei à familiaridade construída pela vivência diária, mesmo em tocas inóspitas como a chamada noz da casa (pequeno cubículo onde uma pessoa cabia acocorada com uma luz sobre a cabeça) que se tornava familiar e ia permitindo avançar por esta caverna construída à mão e em detalhe pelo artista.

Nos espaços interstícios entre as paredes, podíamos sentir a presença da casa e observar os caminhos perdidos dos visitantes que tentávamos ajudar de forma invisível; na cave confrontávamo-nos com a nossa imagem no único espelho (da masturbação) e ouvíamos o cordão umbilical da casa que gotejava o seu líquido amniótico - as revistas, as fotografias do seu autor e da sua família, encontravam-se espalhadas por gavetas, por esconderijos, por todo o lado, para nos fazerem lembrar que estávamos dentro da sua cabeça, corpo, casa.

A obra de Gregor Schneider, indissociável e distintiva do seu autor permite-nos entrar dentro da criação artística pelo suporte questionante que é o habitáculo CASA ou espaço íntimo, pela arquitectura de algo que é uma extensão do humano, nos protege do céu aberto e ao mesmo tempo nos transporta para o espaço fechado do nosso inconsciente.

Em 2005 reencontro com enorme prazer a sua obra, num trabalho concebido para o Museu de Serralves no Porto. São “Quartos Duplicados” e na noite da inauguração enquanto a equipe está reunida ao jantar, repito a experiência da visita em solitário. Senti uma auto-ironia do artista pela sua obsessão na duplicação de espaços, na obra construída para Serralves. Os 22 cubos idênticos com a repetição de duplas entradas, a duplicação de fotografias da “Haus u r” e de esculturas pareciam a celebração de um ciclo. As mesas invertidas dos tectos de Siza Vieira passam a ser cubos que se multiplicam no solo e como sempre deixamos de reconhecer o Museu, a viagem faz-se numa outra arquitectura. Imagino o prazer que pode sentir Gregor em duplicar quartos e em tornar gémeas as suas construções, ainda no ano precedente (2004) concluíra o seu projecto da dupla família Schneider em Londres, “Die Familie Schneider”.

O projecto patrocinado pela Artangel em Londres constava de duas casas idênticas na zona Leste de Londres, minuciosamente reconstruídas por Gregor para uma geminação completa e que foram habitadas por duas famílias de personagens vivos, com a particularidade de serem gémeos; duas mães, dois pais e dois filhos; a vida da classe média inglesa clonada pela família Schneider. O visitante com a chave de entrada de cada uma das casas entrava e tinha liberdade total de movimentos nas duas casas, via a mãe a lavar a louça, o pai na banheira a masturbar-se e o filho sentado com um saco de lixo na cabeça.

Mais recentemente na sua exposição “Weisse Folter” (Tortura Branca) em 2007, no K21 de Dusseldorf, o artista trabalhou o espaço exterior neste projecto executado na Alemanha, e traçou um retrato do universo das prisões tendo como referência a prisão de Alta Segurança de Guantanamo (Camp V). Recria um lugar opressivo onde se sucedem as células, os longos corredores, uma sala de interrogatório e uma sala totalmente negra de onde o visitante só conseguiria sair tacteando as paredes.

Constato que é indissociável o empenhamento político e social das obras dos artistas mais cativantes. Gregor, já na sua proposta “Cube Venice”, concebida para a Praça de São Marcos em Veneza, criou uma enorme escultura negra que remete para a Caaba de Meca ou para a burka dos integristas muçulmanos que foi recusada pela cidade por tocar questões de obscuridade humana.

Curiosamente quando cheguei a Paris e entrevistei Antoine de Galbert fundador da Maison Rouge falámos de Gregor Schneider e ele comentou que gostaria imenso de o trazer a Paris, mas não sabia se tal se concretizaria. Dois anos depois “Süsser Duft” ( Doce Perfume) apresenta-se na instituição do Boulevard de la Bastille. Um sentimento jubilatório percorre-me quando vou à inauguração da nova obra, ainda patente ao público na capital francesa. O acesso é limitado a um visitante, de cada vez, assino o termo de responsabilidade e entro quase a correr impelida por uma memória galopante. De novo, a porta fecha-se num estrondo metálico atrás de mim (a Maison Rouge é um velho edifício industrial) e percorro quase saltitante os interstícios entre paredes, chego a um espaço branco, cenográfico, enorme e parece-me que tudo o que deixei no exterior, as recordações que mantinha da “Totes Haus u r” desapareceu. Era um início de espaço e viagem, onde só os meus passos ressoavam, o branco circundante é quente e o resto do percurso não posso desvendar para os visitantes da Maison Rouge.

A obra de Gregor Schneider faz apelo ao imperceptível sensorial. No seu trabalho integram-se diversos layers de matéria, uma esfera verde pode estar inserida num muro e ninguém a vê, mas é sentida pelos visitantes; é difícil sair incólume de uma das suas construções que não são um labirinto que temos que percorrer para encontrar a Arca de Noé como num velho filme de Indiana Jones (como pensava o público adolescente na Bienal de Veneza), a viagem faz-se pelo percurso que ele constrói para nos encontrarmos a nós próprios.




Sílvia Guerra