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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Serra, Sem Título, 2008. Lambda print. 100 x 134 cm


João Serra, "Sem Título", 2008. Vista da exposição na Vera Cortês - Agência de Arte


João Serra, Sem Título, 2006. Lambda print. 100 x 134 cm


João Serra, "Sem Título", 2008. Vista da exposição na Vera Cortês - Agência de Arte


João Serra, Sem Título, 2008. Lambda print. 100 x 134 cm


João Serra, Sem Título, 2008. Lambda print. 100 x 134 cm


João Serra, "Sem Título", 2008. Vista da exposição na Vera Cortês - Agência de Arte


João Serra, Sem Título, 2008. Lambda print. 100 x 134 cm

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ARQUIVO:


JOÃO SERRA

Sem Título




VERA CORTÊS - ART AGENCY
Avenida 24 de Julho, 54, 1º Esq.
1200-868 Lisboa

02 MAI - 14 JUN 2008


“Sem Título” é a mais recente exposição de João Serra, patente na Galeria Vera Cortês, até Junho. Trata-se de um conjunto de fotografias que representa vistas frontais ou centradas de estruturas arquitectónicas e habitacionais, na sua maioria em condições de precária solidez e avançada degradação. Na melhor das hipóteses, encontramos edifícios urbanos cuja delimitação com ermos expectantes de uma anunciada nova vaga de construção em betão parece iminente. É o que nos é proposto pelo alçado sem janelas de um edifício confluente com um aterro que resiste ainda, com o seu prado, rodeado por outros edifícios cuja tipologia sugere uma localização suburbana e periférica de uma cidade maior. Numa outra fotografia, é justamente a aridez de um terreno já aplanado que indicia estarem iniciados os trabalhos que homogeneizarão a paisagem, subtraindo-lhe o pouco que de natural ainda lhe resta.

De alguma forma, o trabalho de João Serra (Lisboa, 1976), transporta-nos para uma plataforma de referências e coordenadas de trabalho que vêm já das anonymous sculptures do casal Bernd e Hilla Becher (anos 60), mas também, e mais recentemente, de Andreas Gursky, Thomas Struth, Thomas Ruff ou ainda William Egglestone (a propósito de trabalhos específicos sobre carros danificados), de entre uma vasta e amplamente difundida corrente conceptual que, pela utilização da fotografia, veio a forçar a instauração de uma condição autónoma para a fotografia e suas especificidades técnicas e discursivas - para além das considerações e analogias que esta, até então, tomava de empréstimo à pintura. A linha de trabalho que João Serra prossegue parece defender a individuação dos objectos fotografados, proporcionando-lhes uma existência fora dos contextos óbvios que se lhes parecem sobrepor, ainda que não presentes no enquadramento, meticulosamente estabelecido segundo uma severa concretização técnica da ponderação do peso relativo dos diversos elementos constituintes, de entre os quais o assunto, a matéria e o objecto. Ao aproximar os seus objectos de uma abordagem aparentemente indiferenciada (dir-se-ia fria ou desumana), João Serra estabelece as condições de suspensão (num espaço e num tempo precisos) necessárias à salvaguarda de pequenas porções de micro-realidade em que o objecto se apresenta em si mesmo, subtraindo-as a uma lógica de contextualização política a que dificilmente escapariam se algo resvalasse para o lado da idealização e/ ou sugestão narrativa.

E é precisamente por nos confrontarmos com a individuação de um dado objecto, num espaço e num tempo que lhe são devidos, que accionamos uma forma de experiência que remete para a ideia de lugar. O lugar (também ele subtraído de uma condição de macro-crescimento a que as cidades são acometidas, num ímpeto incessante e ciclónico), como resíduo esquecido do olhar sociológico e urbanístico que acumula sucessivas franjas de marginalidade nas cidades. O lugar como realidade que tem memória, mas também como fenómeno em si mesmo que engendra, pela acção do artista, uma razão de existir, passível de ser remetido a um exercício de percepção visual, pelas suas características objectuais e formais, como matéria de construção e captação pictórica e como imagem em si.

Os contornos entre facto e eventuais contextos não nos são apresentados. As fotografias (100 x 134 cm) não têm título mas, tal como as anonymous sculptures de Bernd e Hilla Becher documentavam, num segundo nível de significação, a anunciada aniquilação de toda uma tipologia industrial em progressiva desagregação, também o trabalho de João Serra nos convida, num segundo momento, a um possível decifrar de algo que lá não está verdadeiramente (determinação da acção humana na prossecução de um ideal de progresso que, de tão frenético, deixa um rasto de destruição atrás de si, não admitindo outra condição que não seja a padronização indiferenciada e desumanizada da paisagem e seus elementos – e não se vislumbra uma figura humana no trabalho de João Serra).

No instante primeiro (que, salvaguarde-se, se basta enquanto tal) o trabalho de João Serra (também patente na Fundação Calouste Gulbenkian, por ocasião da mostra resultante da 2ª edição do Curso de Fotografia do programa Criatividade e Criação Artística), não requer a presença humana. Trata-se da condição artística dos objectos que, em registo de retrato ou paisagem, recuperam para uma condição estética contemporânea o suspiro último de outras tantas considerações sobre o valor errático e enviesado de um projecto que, afinal, nos pede ainda um derradeiro olhar, lúcido e repercussivo, antes da última pedra cair.



Miguel Caissotti