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MARCEL.LÍ ANTÚNEZOutras PelesZDB - GALERIA ZÉ DOS BOIS Rua da Barroca, 59 1200-049 Lisboa 08 MAI - 12 JUL 2008 Outras PelesCom um percurso singular no campo dos eventos performativos que accionam junto do público alguns processos de afecção e reacção mais provocatórios, Lisboa volta a receber Marcel.lí Antúnez, numa apresentação evocativa de um período de produção artística que recua até cerca de 1994. “Outras Peles”, assim se designa a exposição comissariada por Natxo Checa, estará patente na Galeria Zé dos Bois até ao dia 12 de Julho e ocupa a totalidade dos pisos superiores do nº 59 da Rua da Barroca. O nome do artista catalão tornou-se conhecido nos anos oitenta, a propósito do projecto La Fura dels Baus e do aparato das suas encenações, recheadas de dispositivos provocatórios com que o grupo se foi tornando conhecido (inicialmente junto de um público com apetências para espectáculos de maior cariz experimental e depois, progressivamente, para um público mais indiferenciado e que, num contexto de circulação artística internacional, permitiu e legitimou o reconhecimento e prestígio do então inovador projecto teatral). Após abandonar o grupo (1989) que o próprio fundara (1979), Marcel.lí Antúnez intensificaria um percurso incansável que, centrado sempre num conjunto de pressupostos que, com maior ou menor violência, exploravam os enredos sinuosos e velados que constituem a condição humana, o levaria a consolidar uma carreira artística caracterizada por um afunilamento progressivo do trabalho de maior impulsividade e experimentação para uma fase de maior consistência reflexiva, por um lado, e da participação em projectos colectivos para a assunção de uma carreira individual, por outro lado. Em Portugal, MLA havia já estado com La Fura dels Baus em 1987 (o grupo voltaria várias vezes mas já sem MLA), apresentando-se depois o artista, já a solo, para apresentações e seminários no âmbito do Festival Atlântico (1995, 1997 e 1999). A trajectória criativa de MLA evidencia ainda a tecnologização do corpo que o artista sempre prosseguiu como pedra de toque para todo o seu trabalho: Um corpo que passa de uma encenação teatral (em que o orgânico se arremessa e espelha a violência dos traumas do público) para uma hibridização protésica onde o humano e o tecnológico se amalgamam, e onde, por via de uma aproximação conceptual ao campo das artes visuais, também a recepção pública adquiriu condições de individuação afectiva. É sobre o percurso mais recente de MLA que a exposição “Outras Peles” fala, ainda que convocando para o campo das artes visuais (porque de performatividade e hibridização se trata) uma permanente mise en scène e uma implícita interactividade entre objectos artísticos e espectador. O que a galeria ZDB nos apresenta são dispositivos ou estratégias de estabelecimento de interface Homem/ Tecnologia que o artista foi concebendo e que, variando entre o que convida a uma participação meramente lúdica e inócua e o que repele qualquer forma de contacto e aproximação (tal é a sugestão virulenta e sacrificial dos objectos), podem ser entendidos como uma articulação de eixos de produção de sentido para uma obra que é, ela própria, multifacetada, multidisciplinar e susceptível de gerar alguma polémica conceptual. Dirão alguns que esta (con)fusão entre orgânico e artificial não assimila o próprio; as marcas corporais de MLA são, como o próprio refere num dos vários vídeos documentais disponíveis no local, as inerentes à passagem da idade: Calvície e pneus abdominais, ou seja, marcas naturais do envelhecimento. Já Stelarc e Orlan, por exemplo, levariam ao extremo a prossecução de um projecto de hibridização total entre o natural e o protésico e/ ou adquirido, convertendo-se eles próprios em receptáculo sacrificial das suas próprias teorias de corpo. A certeza de que o corpo é tudo o que nos resta e que sobre ele deve ser incutida a experimentação tecnológica e protésica funciona como registo reflexivo que o artista catalão tem prosseguido. “Requiem” (1999) coloca-nos perante o dilema de acedermos a um futuro pouco dignificante da condição humana, mas o que verdadeiramente se joga nesta instalação é a evidência de que esse passo atrás nas nossas aspirações apenas poderá ser dado por nós próprios (in)voluntariamente. Mas não nos esqueçamos de que a evolução dos pressupostos de trabalho de MLA mantêm uma coerência com a raiz teatral com que, não só o artista mas toda a Catalunha atravessou os anos oitenta e a sua “movida”. A fusão de MLA é também a da tradição e a da projecção: a tradição de um corpo que habitamos e que nos responsabiliza individualmente e a projecção de um futuro que ansiamos mas receamos, de forma tão simultânea, ambivalente e intempestiva, que só nos resta, no final, desejar estar preparados para não transgredir irremediavelmente a nossa própria natureza. É deste esforço permanente de integração que surgem os trabalhos “Alfabeto” (1999) ou “Tantal” (2004) - ambos assumidamente lúdicos, mas também (num ponto extremo de impressionabilidade) “Agar” (1999) e “Metzina” (2004), este último, o trabalho cuja concepção envolve de forma mais impressionante o seu próprio work in progress, in situ. A exposição, que inclui ainda desenhos murais e pontos de monitorização vídeo sobre o trabalho do artista, prevê a edição de um catálogo e a realização de conferências e visitas guiadas, quer pelo o artista, quer pelo comissário.
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