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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Jan Fabre, “Art kept me out of jail”, Le Louvre, 22 avril 2008 (galerie Daru et Cour Napoléon). © Jean Breschand


Jan Fabre, “Art kept me out of jail”, Le Louvre, 22 avril 2008 (galerie Daru et Cour Napoléon). © Jean Breschand


Jan Fabre, “Art kept me out of jail”, Le Louvre, 22 avril 2008 (galerie Daru et Cour Napoléon). © Jean Breschand


Jan Fabre, “Art kept me out of jail”, Le Louvre, 22 avril 2008 (galerie Daru et Cour Napoléon). © Jean Breschand


Jan Fabre, “Art kept me out of jail”, Le Louvre, 22 avril 2008 (galerie Daru et Cour Napoléon). © Jean Breschand


Jan Fabre, “Art kept me out of jail”, Le Louvre, 22 avril 2008 (galerie Daru et Cour Napoléon). © Jean Breschand


Jan Fabre, “Art kept me out of jail”, Le Louvre, 22 avril 2008 (galerie Daru et Cour Napoléon). © Jean Breschand

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JAN FABRE

L’Ange de la métamorphose




MUSÉE DU LOUVRE
Musée du Louvre
75001 Paris

11 ABR - 07 JUL 2008

Fan de Jan

“Se procurarmos nos autores alguns ensinamentos sobre os humores do Escaravelho sagrado, em particular, ou sobre os animais que fazem rolar pequenas esferas de excrementos, descobrimos que a ciência mantém ainda alguns dos preconceitos que a seu respeito subsistem desde o tempo dos Faraós.”

Jean-Henry Fabre, “Souvenirs Entomologiques”, volume I, Edições Robert Laffont, Paris, 1989, pag. 141.



O Museu do Louvre apresenta, neste momento, uma semi-retrospectiva da carreira de Jan Fabre, com cerca de 30 trabalhos deste artista datados de 1970 a 2008. O Anjo da Destruição, apresenta em Paris toda a polivalência e “metamorfoses” que caracterizam a sua obra numa “dramaturgia mental” declinada em: pintura, performance, escultura, desenho, instalação e vídeo. Após o sucesso obtido com “Contrepoint”, um confronto entre a arte contemporânea e as colecções permanentes do Louvre, a direcção do Museu mais rico do mundo, convida Jan Fabre para uma “ocupação” do 2° andar dedicado à pintura das Escolas do Norte da Europa. Paralelamente , decorre uma série de conferências, filmes e debates sobre este autor.

Iniciei o meu percurso neste evento baptizado pela rainha Paola da Bélgica, assistindo à noite de performances non-stop do artista que decorreu entre as 19 e as 24 horas da noite de 22 de Abril. Defronte à grande pirâmide externa do Louvre, em quatro ecrãs gigantes eram projectadas as performances para o público que não conseguiu comprar o bilhete a tempo. A voz de Jan Fabre surpreende os turistas que vêm visitar a Vitória de Samotrácia. Digo as “performances” porque apesar do fio narrativo que as une, Jan Fabre muda de personagem de 30 em 30 minutos, e o espectador pode comprar um bilhete ou mesmo vários para poder assitir a toda a noite de perseguição ao provocador: “Art Kept me out of jail!” lançado pelo artista.

Entro na sessão das 19.30h e um homem com a aparência de um professor de química de liceu aproxima-se de um grupo de visitantes e pergunta: “What’s happening? What’s happening?”. De repente desaparece por detrás de um túmulo em mármore, da colecção Borghèse perseguido por um enxame de máquinas fotógraficas. Saltam peças de roupa do seu esconderijo e o artista incita o público a recolhê-las, dizendo: “ Another souvenir!” como se referisse todas as lembranças que os turistas em massa adquirem compulsivamente no Louvre. Pede ajuda para que lhe segurem num espelho e com uma nova peruca, blusão de desporto, óculos escuros reaparece na veste de um dealer de 40 anos, ruivo. Lança subitamente um punhado de notas de 10 euros aos espectadores atónitos. O público, essencialmente Vip da sessão, fica sem saber como reagir mas pouco a pouco apanha uma nota que discretamente enfia no bolso. Lição número 1, de como transformar os homens em animais de quatro patas com o simples lançar de alguns euros ao ar… Fabre corre tentando escapar a possíveis perseguidores, mede o espaço antropometricamente abrindo braços e contando em pés; expõe defronte às esculturas romanas postais dos seus ídolos artísticos. Afirma que os museus e o Louvre são as maiores prisões da terra e quando se senta para escrever num pequeno caderno preto, chama gritando: “- Janus! – Janus! – Janus!”. Infelizmente as sessões seguintes estavam esgotadas e tive que sair sem descobrir o resto do enredo dos seus personagens; foi a primeira performance a que assiti que me permitiu ir beber um cocktail (“Problem in Paradise”), em honra do seu autor e pago pelo mesmo.

O espectáculo e o exorcismo artístico operado pelo mesmo reconciliou-me com um artista de que me distanciara após assistir ás suas últimas produções em vídeo, projectadas na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa ou nas recentes instalações expostas na galeria Daniel Templon (“Les messagers de la mort decapités”) que me tinham deixado com a sensação de existir um excesso de entropia no seu trabalho. Esta exposição/itinerário de Fabre abre todo o percurso artístico do Ocidente norte-europeu e completa-se no diálogo que propicia com a paisagem museológica circundante. Dentro das magníficas pinturas da escola flamenga e outras escolas do norte sobressaem van Eyck, van der Weyden, Bosch, Metsys e Rubens. São estes os antepassados culturais que ele reclama e permite-nos aceder a um confronto entre as obras expostas numa leitura simultânea entre arte contemporânea, arte medieval e do renascimento; uma leitura histórica horizontal que é a única possível no século XXI.

A história (ou o que existira em seu nome) deixará de se escrever delimitada por estratos, por camadas cronológicas, verticalmente, e passará a fazer-se por cruzamentos geográficos e culturais, horizontais. As temáticas com que nos deparamos neste itinerário desenhado pelo “Anjo da Metamorfose” para a ala Richelieu são: a morte e a ressureição, as vanités, o sacrifício, o dinheiro, a loucura, o carnaval, a batalha e o atelier. A arte de Jan Fabre faz o artista subir ao altar pagão dos escaravelhos e das múmias. E a performance “ao vivo” prova que Fabre continua a exorcizar os seus excessos de filho pródigo das ricas vanitas holandesas (naturezas mortas). Continua também a ser um filho pródigo da arte pois é acolhido pelo Museu dos Museus franceses apesar de o apelidar de prisão nas suas performances. O artista esvazia-se de si próprio cada vez que cria dentro dos limites culturais que herdou ou adoptou como o fez com o seu homónimo Jean-Henry Fabre, o entomólogo autodidacta que revolucionou o estudo dos insectos no final do século XIX por associar ao seu comportamento uma vida prosaicamente humana. O primeiro volume da sua obra “Souvenirs Entomologues” é dedicado ao animal fétiche de Fabre: o escaravelho sagrado.

O percurso da exposição inicia-se com três auto-retratos de Fabre em escultura. Do recente “Je me vide de moi-même”( Homo Faber, 2006) ao artista sentado a uma mesa de trabalho como o seu antepassado Jean-Henry Fabre, escultura em pionaises dourados ou ainda representado morto sobre uma mesa/altar, em pionaises que parecem os espinhos de Cristo. O artista morre e ressucita como toda a cultura cristã do Ocidente europeu. Desenha a sangue as suas “My body, my blood, my landscape”, que estão expostas lado a lado com o retábulo de Saint-Denis de Henry Bellechose. Os seus surpreendentes desenhos de grandes dimensões realizados a esferográfica bic azul, que pertencem à série “L’heure bleue” (referente à hora da passagem do dia para a noite ou à hora que fica entre os dois mundos), integram-se perfeitamente no corredor com os páineis de Juste le Grand. E é emocional o encontro com “Sanguis Sum” (Homo Faber, 2006), o cordeiro de Deus que liberta do pecado mas que traz um chapéu de aniversariante pagão na cabeça.

Jan Fabre joga com a surpresa do visitante que encontra os seus “Money Collages” expostos entre naturezas mortas, e saliento ainda uma das peças mais notáveis que é a impressionante escultura “Aura-t-il toujours les pieds joints”, uma figura de cavaleiro-múmia contemporâneo. A exposição engloba ainda alguns trabalhos em instalação-vídeo como o que resultou da sua colaboração com Marina Abramovic “Virgin/Warrior, Warrior/Virgin” e o mais recente “Le Problème”, protagonizado pelos dois filósofos alemães, Peter Sloterdijk e Dietmar Kamper. É uma exposição virtuosa no bom sentido do termo, pois tem a virtude de nos permitir rever em unidade espacial todas estas obras artísticas, sem fronteiras históricas, com um olhar esvaziado de teorias iconográficas, mesmo se todas as temáticas apresentadas se entrelaçam na arte ocidental desde há mais de 500 anos. E o cavaleiro da metamorfose espera que o seu escaravelho as faça rolar até ao fim do mundo.


Sílvia Guerra