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ALEXANDRE ESTRELAPutting Fear in its PlaceFIDELIDADE ARTE Largo do Chiado, 8 1249-125 Lisboa 24 MAI - 15 JUL 2008 “Putting Fear in its Place†é o tÃtulo da nova exposição individual de Alexandre Estrela, em apresentação no Espaço Chiado 8, em Lisboa, integrada no programa comissariado por Ricardo Nicolau. Pertencente à geração de artistas que se afirmou no decurso da década de 1990, Estrela tem, desde então, desenvolvido um vasto e consistente trabalho marcado por uma profunda reflexão sobre os procedimentos de produção da imagem e a sua recepção. Longe de reiterar um entendimento essencialista dos media a que recorre ou as suas configurações tradicionais, Estrela procura gerar situações inesperadas e crÃticas, decorrentes da exploração das possibilidades e limites de cada medium, promovendo com isso um questionamento sobre a experiência da percepção. Assim, identificamos em muitas das suas obras diversas operações, como efeitos de estereoscopia ou de feedback, que não só dão lugar a dissonâncias visuais e sonoras, como também apontam para uma destituição da ideia de estabilidade que se queira atribuir à relação entre sujeito e objecto. Ora é justamente a tensão que preside sempre a esta relação que Alexandre Estrela procura de novo pensar, encontrando no medo ou aquilo que extravasa o controlo, um ponto de partida. De acordo com o artista, a obra que abre a exposição podia até ser um videoclip dos Sunburned Hand of a Man. Não só rouba o tÃtulo a uma das músicas da banda, como também o respectivo som. Mas estamos muito para além de um mero exercÃcio de apropriação. E, apesar da sua desarmante simplicidade, é provavelmente a peça mais complexa do núcleo aqui apresentado. “The overt statuetteâ€, trata-se de uma projecção vÃdeo, constituÃda por duas imagens com perspectivas ligeiramente diferentes de um tronco cortado envolto de relva e que se sucedem uma à outra em loop, criando um efeito estereoscópico 3D. Paralelamente, vemos sair da parede uma vara de madeira que suspende o ecrã no chão da sala e atravessa-o, terminando no ponto focal de uma perspectiva materializada e imóvel, manifestando-se, por isso, contrária à s perspectivas virtuais que produzem um movimento contÃnuo, devolvendo a ilusão de um espaço tridimensional. Entre o actual e o virtual se define este trabalho e de resto toda a problemática da exposição. Esta peça conduz-nos a uma segunda projecção intitulada “Um homem entre quatro paredesâ€. Para além do tÃtulo ir de encontro à nossa condição de observador, traduz o que simbolicamente representa a tatuagem de cinco pontos que muitos presidiários partilham. É a imagem de uma destas tatuagens que vemos ser projectada em grande plano, de forma a que os seus 4 pontos coincidam com os cantos da parede. Será então do ponto central da imagem, que corresponde ao quinto ponto da tatuagem, e, em última instância, ao lugar do sujeito, que vemos emergir repetida e sucessivamente a mesma imagem num pulsar progressivo acompanhado por uma frequência de sons graves muito intensos que interferem com o nosso corpo. Ao criar esta sobreposição de imagens, Estrela expande virtualmente o espaço de um modo vertiginoso, estabelecendo uma relação entre o ponto de fuga e o desejo de fuga do sujeito. O último trabalho da exposição é uma escultura de quatro paredes que dá lugar a um espaço não ortogonal, despistando qualquer expectativa do observador. Ao entrarmos neste espaço, reparamos que os cantos foram arredondados, não sendo possÃvel distinguir a concordância entre o interior e o exterior do volume. Paralelamente, esta arquitectura lembra-nos de imediato o tÃtulo intrigante da peça, “O cancro esconde-se nos cantosâ€, que não só nos remete para uma crença médica do século XIX que dizia que a doença se alojava nas arestas, como também para o então modelo de arquitectura do New York Cancer Hospital que, eliminando os cantos, preveniria o seu combate. Mas será que alguma coisa se esconde atrás dos cantos da escultura? Apesar de nada se ver, o artista confirma que num deles colou uma imagem da esquina do hospital St. Louis, que dá para a Rua da Rosa. Se repetirmos esta acção num canto qualquer com a mesma imagem (oferecida na brochura da exposição), um efeito de ambiguidade óptica acontece e subitamente a orientação desta esquina entra num movimento alternado, ora côncavo ora convexo. A existência desta fotografia colocada e escondida aponta então para uma latência da virtualidade como uma ameaça recalcada da condição de observador, mesmo quando este está no centro da sala e confirma o momento extremo de actualidade do processo de observação. De regresso somos levados pelo percurso em sentido inverso, e a progressão para uma dimensão virtual, que quase exclui a actualidade, tal como acontecia em “The overt statuetteâ€, cria uma polaridade oposta nesta experiência sobre a percepção.
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