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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Maria Gusmão e Pedro Paiva, “Museu Abissológico”, 2008. Pormenor da instalação.


João Maria Gusmão e Pedro Paiva, “Museu Abissológico”, 2008. Pormenor da instalação.


Mina Campina de Cima. Pormenor de acesso exterior.


Convento de Santo António. Pormenor.


Rui Moreira. Pormenor da instalação.


Fábrica da Cerveja. Pormenor.


Fábrica da Cerveja. Pormenor.


Fábrica da Cerveja. Pormenor.


João Queirós, “Pele e Queda”, 2008. Pormenor. Cera com pigmento sobre parede.


João Queirós, “Pele e Queda”, 2008. Pormenor. Cera com pigmento sobre parede.


Leonor Antunes, “Architectura”, 2008. Vista da instalação. Linha de coser, 600 agulhas e mesa.

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COLECTIVA

Articulações




VÁRIOS LOCAIS, ALGARVE



21 JUN - 07 SET 2008


Articulações

Fábrica da Cerveja, Faro
21 JUN – 7 SET 2008

Convento de Santo António, Loulé
21 JUN – 7 SET 2008

Mina Campina de Cima, Loulé
23 JUN – 7 SET 2008


Pelo segundo ano consecutivo, o programa de valorização turística Allgarve pretende concentrar (ainda mais) as atenções turísticas sobre a parcela de território que maior densidade populacional estrangeira deverá ter, entre Junho e Agosto. O programa, que é vasto e que ambiciona juntar música, gastronomia, praia, animação e golfe e outros desportos e actividades de lazer, apresenta também uma componente de arte contemporânea, onde se inclui o projecto “Articulações”, comissariado por Nuno Faria.

Polémicas à parte sobre as vantagens e desvantagens do programa Allgarve e, nomeadamente, sobre os ganhos culturais a longo prazo para a região, será importante registar o carácter meritório com que alguns dos projectos de arte contemporânea participantes conseguem, precisamente, articular algumas plataformas e pontes conceptuais entre o que são, por um lado, os pressupostos genéricos de uma iniciativa que parece querer monopolizar todas as atenções e energias mediáticas e, por outro lado, o que deve ser resultado de um programa teórico cujo rigor o defenda de facilitismos e utilizações mais feéricas, por parte de um público sazonal cuja eventual volatilidade poderá originar uma deficiente recepção e, por conseguinte, uma perversão dos objectivos inicialmente definidos para o programa Allgarve.

“Articulações”, um dos projectos expositivos visitável até Setembro, compõe-se de três propostas para outros tantos espaços igualmente distintos entre si e fortemente marcados por um conjunto de referências que os individualiza, tal é também a facilidade de os caracterizar em diferentes tipologias, quanto à sua função social e aos seus referentes, quanto aos seus aspectos arquitectónicos e/ ou estruturais, ou ainda quanto a essa entidade flutuante que se inscreve a partir da experiência imanente do “espírito do lugar”.

O projecto tem, logo na selecção dos locais de apresentação, um dos pontos que melhor defende a iniciativa Allgarve, começando aí uma verdadeira articulação entre o que enaltece o carácter mediático e efémero de um produto turístico (o programa Allgarve) e o que, partindo dessa condição, pretende (e consegue) proporciona-nos uma pausa e uma reflexão sobre valores culturais e patrimoniais locais, a partir dos quais se inscrevem memórias e se desenvolve essa condição de experiência do lugar. Essa pausa mais não é do que uma possibilidade de passagem (uma outra articulação) para um lugar (num sentido fenomenológico) onde passado e presente se tomam de empréstimo para as intervenções artísticas que reinventam fluxos de energias e contextos.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva desenvolvem continuadas extensões do projecto “Abissolologia”, num contexto que nos remete para o interior de uma mina de sal com cerca de 40 km de túneis a cerca de 300 metros de profundidade. O espaço expositivo assimila o lugar o os seus múltiplos entes simbólicos (a actividade económica e os seus riscos, a cumplicidade de um grupo restrito de funcionários da CUF que ali desce diariamente, as múltiplas histórias que se contam sobre a má sorte dos mineiros e a forma como, naturalmente, a comunidade envolvente incorpora essa existência na sua identidade). A proposta artística coloca-nos no interior de uma experiência que rompe por inteiro com a formalidade conceptual do “espaço expositivo”, interagindo em tempo real com a identidade do lugar sob afecção, ampliando ainda mais essa articulação ao accionar um “museu abissológico” no seu interior.

Também em Loulé, no Convento de Santo António, dois artistas realizam um conjunto de intervenções que privilegia as características arquitectónicas do espaço e as suas implicações funcionais, fazendo sobressair, por acção de subtis acrescentos ou disposições, uma condição de relação que implica intervenção artística e lugar. Rui Moreira e Rui Sanches articulam a singularidade das suas obras, dialogando com requisitos que reconhecemos em ambientes de culto e retiro; Rui Sanches empreende uma estratégia de exposição de materiais utilizados pelo artista em processo de maquetagem e assim, colocando-nos perante uma evocação da pré-concepção da obra, coloca-nos também num contexto de retiro ou reflexão, onde facilmente imaginamos o decorrer de uma vida conventual dedicada, repleta de silêncios e revelações espirituais. Os desenhos de Rui Moreira dispõem-se meticulosamente, articulando o trabalho do artista com o valor que o local de instalação, investido de uma forte simbologia sagrada, agora lhes confere.

Em Faro, a antiga Fábrica da Cerveja constitui aquele que poderá ser considerado o pólo principal deste projecto, atendendo ao número de artistas representados (25). A dimensão do edifício e a sinuosidade dos seus percursos interiores potenciam o efeito de descoberta permanente que cada proposta oferece. Os projectos (a maior parte deles intervenções específicas para determinada localização na Fábrica) têm como característica comum o ir ao encontro do requisito do lugar, e assim, em intervenções aparentemente mínimas, se conseguem autênticos elogios a essa condição imaterial de cada lugar – veja-se a importância da luz em diferentes períodos do dia (e da noite) nas intervenções de João Queiroz, associando-as à descoberta da própria Fábrica e seus recantos e terraços, ou a leitura acústica de Francisco Janes, que reinterpreta o espaço num contexto de actualização temporal onde nem sequer falta a passagem de cada avião que se aproxima ou se distancia do aeroporto local. Já a espectacularidade da intervenção de António Bolota resulta de um efeito de escala que joga com a localização precisa da peça, enquanto que o que parece marcar o trabalho de Dan Perjovschi é, pelo contrário, uma fluidez sugestiva de transgressão espacial.

A lista completa dos artistas em exposição na Fábrica de Cerveja é a seguinte:
André Carvalho, Ângelo de Sousa, António Bolota, António Poppe, Carlos Garaicoa, Dan Perjovschi, Diango Hernández, Fernanda Gomes, Francisco Janes, Francisco Tropa, Hugo Canoilas, Ian Kiaer, Ion Grigorescu, João Queiroz, Leonor Antunes, Nelson Félix, Phill Niblock, Raimond Chaves e Gilda Mantilla, Ricardo Jacinto, Sancho Silva, Sérgio Taborda, Thierry Simões

“Articulações” é também uma estratégia (de resultado notável) que nos concilia, momentaneamente, com um Algarve em profunda transformação e em acelerado processo de desenraizamento, tanto mais visível quanto se verifiquem, sistematicamente, a coexistência de discursos paralelos sobre os mais variados assuntos, sempre que os mesmos suscitem a primordialidade do factor turístico, deixando de fora a preservação dos interesses locais mais recônditos (que constituem essa articulação entre lugar e memória colectiva).
Se a iniciativa Allgarve transporta ainda (desde a sua primeira edição) o conjunto de críticas referentes ao âmbito efémero de uma oferta cultural pensada como animação veraneante que adensa ainda mais o vazio cultural dos meses de Inverno, que seja também por intermédio de uma das suas vertentes menos mediática (algumas intervenções de arte contemporânea) que algo de novo se proporcione às comunidades locais. A transformação dos referentes específicos simbólicos de locais patrimoniais que (nunca é demais dizê-lo) urge divulgar e preservar. Ainda que essa divulgação implique a realização de operações que articulem um novo olhar sobre lugares cuja memória colectiva, há muito cristalizada, se permitem agora inserir um elemento de crise, reconstituinte e inovador.

Trata-se, afinal, de contrariar o efeito monopolizador de um tempo cada vez mais vertiginoso com a introdução de um elemento de desaceleração que contempla, respeita e harmoniza lugares até então incompatíveis. Trata-se, ainda assim, de uma experiência de oferta de uma nova possibilidade (espacial) de compatibilizar tempos e realidades diferentes. Sendo uma oferta não é gratuita e essa será uma das melhores conquistas do projecto “Articulações” e, por conseguinte, uma razão suficiente para participar no programa Allgarve.

Miguel Caissotti