|
|
JOÃO PAULO FELICIANOThe Blues QuartetCAV - CENTRO DE ARTES VISUAIS Pátio da Inquisição 10 3001-221 Coimbra 28 JUN - 31 AGO 2008 O Centro de Artes Visuais apresenta um conjunto de trabalhos de João Paulo Feliciano (n. 1963), cujo denominador comum se situa na agregação e no diálogo das artes plásticas com a música – Feliciano integrou no passado projectos musicais, como Tina and the Top Ten e No Noise Reduction. “The Blues Quartet” (2004-2007) é a peça central deste conjunto, mostrada em 2007 no Contemporary Arts Center (Cincinnati, Ohio), com curadoria de Matt Distel, e agora no Centro de Artes Visuais, sob responsabilidade de Delfim Sardo. É sobre este dispositivo plástico-musical que procuraremos reflectir. “The Blues Quartet” podia ser um quarteto musical de instrumentos de corda ou de sopro, ou mesmo vocal, e, em certa medida, pretende sê-lo. Trata-se de um objecto escultórico, tridimensional, colocado sobre uma mesa e composto por dois painéis de vidro acrílico azul – blue – que se interceptam entre si, perpendicularmente e à mesma distância, formando um quadrado construído a partir desta intercepção que, por sua vez, define mais quatro quadrados. É nestes pequenos palcos-quadrados que surgem quatro lâmpadas de formatos diferentes, assentes sobre suportes de objectos/instrumentos musicais igualmente diferenciados – tripé de uma estante de partitura, suporte do microfone, etc. –, retirados do seu contexto/função original e tratados agora como objet trouvé. Este quarteto de músicos-lâmpadas reagem fisicamente à música produzida por um ipod– símbolo contemporâneo da selecção, apropriação e partilha musical. E esta situação é, por si só, curiosa e irónica. Não deveria ser ao contrário? Ou seja, partindo do princípio que seria tecnicamente possível, não deveria a música/som reagir à lâmpada/luz, uma vez que esta personifica o músico executante? Ou o músico subjaz e depende hoje da tecnologia de reprodução? Mas, por outro lado, a música do ipod foi previamente seleccionada por alguém. João Paulo Feliciano assume o papel de maestro invisível de uma orquestra de câmara que, na verdade, é um dispositivo físico em playback luminoso reprodutor do ipod-músico. E assim encontramos sentido para o título irónico “ O Quarteto Maravilha, os outros tocam e ele brilha”. “The Blues Quartet” é trabalhado conceptualmente como se de uma verdadeira banda se tratasse. Inclusivamente, em 2007, João Paulo Feliciano, Trevor Tremaine, Lee Ranaldo e Rafael Toral tocaram ao vivo numa performance intitulada “Live with The Blues Quartet”. João Paulo Feliciano executou, e também estão presentes no Centro de artes Visuais, uma série de posters promocionais imbuídos de iconografia relativa ao género musical em questão e com títulos sugestivos – “The legendary Blues Quartet”, “The great Blues Quartet”, “I love The Blues Quartet” –, assim como um interessante “Kaleidoscopic Blues Machine” que mostra filmes de blues em loop. A própria “banda” tem direito a mala de metal com logótipo para transporte, numa digressão anunciada. Finalmente, importa reflectir sobre uma última questão. Como se relaciona o quarteto-objecto musical entre si? O acto de produzir música em conjunto – banda/quarteto – tem que ver essencialmente com um acto de comunicação e de partilha, também visual e física. E esta situação surge particularmente de modo notório em géneros musicais como o blues e o jazz– para já não falar no free-jazz – e na inerente necessidade de ligação, às vezes quase visceral e provocatória, ao(s) outro(s) que integra(m) o agrupamento musical. Em “The Blues Quartet” as lâmpadas-músicos, apesar de se olharem entre si, estão fisicamente separadas por um painel translúcido que os coloca em ilhas assépticas, levando-nos a ponderar o efeito objectual não da pertinente e esteticamente apelativa metáfora do quadrado azul, mas do formato específico deste quadrado-quarteto fechado entre si. Tratar-se-á de quatro músicos em situação ou de um quarteto musical de blues?
|


















