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BUCKMINSTER FULLER

Starting with the Universe




WHITNEY MUSEUM OF AMERICAN ART
99 Gansevoort Street
New York, NY 10014

26 JUN - 21 SET 2008

Repensar o mundo

Na “silly season” nova-iorquina florescem novas escolhas em museus e galerias e aproveita-se a pausa do mercado para alguns momentos de reflexão. O Whitney Museum apresenta assim uma retrospectiva da obra de Buckminster Fuller. Mas Buckminster Fuller não é um artista e o que pode ser visto nesta exposição não são propriamente obras de arte. Então porquê dar destaque a esta exposição? As suas ideias revolucionárias e inovadoras – tanto para o seu tempo, como até para o nosso, contribuíram significamente para uma tomada de consciência sobre o mundo em que vivemos tendo influenciado durante e após a sua vida áreas distintas desde a Arquitectura, Design Industrial, Transportes, Engenharia, Matemática, Artes Visuais e Ecologia. A exposição contempla estas áreas mostrando vários artefactos: desenhos, esquemas, maquetes, textos e até alguns excertos de vídeos.

Benjamin Buckler, ou “Bucky” – como era carinhosamente tratado pelas pessoas mais próximas, era um comunicador nato tendo passado grande parte da sua vida a discursar sobre as suas ideias. Chegou a ensinar durante os Verões de 1948 e 1949 na Black Mountain College (em 1949 foi inclusive, o director do Black Mountain College Summer Institute) – numa altura em que teve como alunos, entre outros Willem de Kooning, Elaine de Kooning, Merce Cunningham e John Cage.

Para este homem o seu papel no mundo era o de “fazer mais com menos” pensando o mundo como um todo, mas pensando-o para além da sua realidade através da aplicação de princípios científicos e criatividade. Apesar de todas as suas teorias sobre algumas mudanças que poderiam tornar o Mundo num lugar melhor, raras foram aquelas que passaram efectivamente à practica. A mais célebre, contudo, terá sido a célebre “esfera geodésica” – uma construção geométrica que na práctica permitia a construção de habitações leves e transportáveis, que podiam ser assembladas com o mínimo de materiais, assim como também com o mínimo de energia.

Após a sua morte foi descoberta uma ligação química com 60 átomos de carbono (C60) semelhante à “sua” esfera geodésica e que em sua homenagem foi denominada de Buckminsterfulereno (Fulereno), ou carinhosamente de “Bucky Balls”. Estas ideias foram devidamente aproveitadas pelo governo americano para construir habitações temporárias e ainda, devido às suas características (nomeadamente a sua leveza e aerodinâmica) foram também usadas para proteger radares e outras construções com um perfil militar. Mais tarde o movimento “hippie” também usou estas construções para criar comunidades, tanto pela facilidade com que se podiam estabelecer estas formas habitacionais, como provavelmente pela atracção que sentiam pelas ideias vanguardistas e ecologistas de Fuller.

O seu contributo para a arte contemporânea pode ser hoje em dia observado no trabalho de alguns artistas, como por exemplo Olafur Eliasson. É inegável que os projectos desenvolvidos pelo seu estúdio em modelos geométricos sejam tão proximos dos modelos que Fuller desenvolveu durante a sua vida; assim como também a forma como Eliasson promove a partilha de ideias – numa troca dialética e aberta de conceitos e conhecimento, como Fuller promovia no seu tempo.
A exposição começa assim pela apresentação de um dos três protótipos automóveis construídos durante 1933 por Buckminster Fuller e ao qual chamou “Dymaxion car”. Estes protótipos faziam parte de um plano de transporte individual que se cruzava com os seus primeiros protótipos habitacionais e que seriam a primeira fase de um projecto mais ambicioso – como serem capazes de andar sobre a água e até no ar.

Fuller demonstrava assim ter consciência das mudanças e necessidades da geração do Pós-Guerra. Propunha-se, por outro lado, não contrariar essa vontade, mas a criar alternativas que pudessem diminuir o impacto que o uso da tecnologia tinha no planeta. Os carros distinguiam-se pela sua forma aerodinâmica, que se assemelhava à de um pequeno avião e ainda por possuírem igualmente 3 rodas. Através dos desenhos do projecto apercebemos-nos que a única roda traseira era responsável pela direcção, enquanto as duas rodas dianteiras eram as rodas motrizes. Não existindo qualquer referencia à forma como o carro-avião se sustentaria no ar. Fuller refere apenas nos seus desenhos, que a longo prazo, um par de asas seriam insufladas como balões e que lhe dariam a capacidade de fazer o carro voar - um projecto que tal como outros que imaginou nunca chegou a acontecer. Na exposição é mostrado um pequeno excerto de vídeo de demonstração deste carro durante a Feira Mundial de Chicago (local onde se deu um acidente com o primeiro dos protótipos e que teve como consequencia a não continuidade do projecto). Contudo, para Fuller o fracasso fazia parte do processo, tendo proferido que tinha dedicado a sua vida para que esta fosse a “falha com mais sucesso do mundo”.

A exposição prolonga-se assim, cronologicamente, pelo quarto andar do museu. Este andar é essencialmente dedicado à visão que Fuller tinha em relação à arquitectura, assim como à representação visual. A entrada é dominada por uma enorme “escultura”, construída por triângulos. Fuller, através da sua intuição determinou que o tetraedro (um poliedro constituído por quatro triângulos equiláteros) seria o elemento geométrico mais básico existente na natureza podendo-se verificar a sua presença constante na maioria das suas construções.

O pensamento multidisciplinar, agregador, mas aberto, sobre o mundo encontra o seu expoente no conceito “Nave Terra” (Spaceship Earth) referindo-se ao planeta Terra como uma nave que se desloca continuamente pelo espaço, em que nós, os seus habitantes somos os responsáveis pela gestão eficiente dos seus recursos.

Continuando a visita observam-se vários desenhos onde Fuller demonstra as suas ideias iniciais sobre o que deveriam ser as habitações do futuro - casas que poderiam ser “plantadas” como árvores através da utilização de balões dirigíveis. É possível analisar a criatividade notável deste homem com desenhos detalhados (quase “storyboards”) de como é que isso poderia ser possível. Ele fez também análises comparativas entre as sua casas modulares e as casas de construção tradicional, do seu tempo. Entre outras inovações, estas casas traziam já embutitas as mobílias – que seriam insufladas (com ar e/ou água), assim como o saneamento básico (como por exemplo, terem a capacidade de tratar os seus próprios detritos domésticos) e possuíam ainda elevadores (de formato triangular) que funcionavam através de princípios hidroestáticos. Assinalo que o projecto tem a data de 1928 – claramente à frente do seu tempo. Nesta altura Fuller usava a denominação 4D fazendo referência ao tempo (a quarta dimensão), numa alegoria à eficiência das suas construções.

Existem outros desenhos que fazem imaginar um cenário quase de ficção científica – edifícios 4D unidos entre si, por meio de pontes e com capacidade para aterrarem balões dirigíveis. Transportando estes dois casos para os nossos dias podemos pensar nos heliportos no topo de alguns prédios e ainda o complexo de oito torres desenhadas pelo atelier do arquitecto Steven Holl, em Pequim, em que todas elas estão unidas por pontes (neste caso, uma visão passada à prática passados 80 anos e que não contempla a totalidade das ideias de Fuller, embora contemplando tantas outras que Fuller não tinha poder para imaginar no seu tempo – tanto devido às mudanças sociais actuais, como técnicas).

Durante a guerra, Fuller desenvolveu um tipo de construção ao qual chamou de “Dymaxion Deployment Units”. Estas construções, que se assemelhavam a silos de cereais usados na América rural usavam materiais como aço e fibra de vidro para o revestimento e tinham apenas como particularidade o uso de masonite para o soalho – um material leve e de fácil produção, e que era inovador para o seu tempo. Foram amplamente usadas também durante a guerra e espalhadas por vários locais do mundo.

Antevendo um eventual final da guerra e o retorno a casa de muitos soldados, aliado ao facto que o esforço de guerra tinha gerado uma indústria com elevada capacidade de produção em série e que empregava milhares de pessoas (e que em breve seria alimentada por outros quantos), Fuller criou mais modelos de habitações aos quais chamou “Dymaxion Dwelling Machines” tendo-se associado a uma empresa do Kansas que produzia material aeronáutico.

Entre outras inovações que fez sobre esse tipo de estrutura encontravam-se por exemplo um sistema de captação de água das chuvas e da condensação que se gerava no interior da casa; um complexo e engenhoso sistema de prateleiras controlado electricamente; casas de banho pré-fabricadas e compactas e um também inovador sistema de ar condicionado, que dominava o tecto da habitação. O ambiente da casa podia ser mudado atraves da projecção de uma luz colorida para o tecto de fibra de vidro e neoprene. Porém, após um desentendimento com os responsáveis dessa empresa acabou por se retirar do projecto existindo apenas um protótipo em Wichita, também no Kansas. Estas habitações unifamiliares contrastavam com as que fizera de início, que podiam albergar mais de uma família.

O seu conceito ia mais longe, contudo, e contemplava também a criação de “comunidades sustentáveis”, em que o centro seriam as “Dymaxion Dwelling Machines” (já por si, quase auto-sustentáveis) – um conceito que provavelmente se iria arrepender nos dias de hoje, com os maus exemplos que existem de Urbanismo (ou melhor, de Suburbanismo).

Esta sala destaca ainda o maior feito de Fuller (ou pelo menos a sua criação mais famosa) – a esfera geodésica. Vários desenhos que apresentou para patentear esta estrutura estão expostos, assim como uma maquete e outros detalhes dos projectos que fez para o Pavilhão dos Estados Unidos, na Exposição Mundial de Montreal, em 1967. Esta construção resultou de outras experiências com este tipo de construção que começou a criar na referida Black Mountain College, em 1948. Na exposição destaca-se uma maquete criada em cartão, numa escala humana, e que como se pode verificar pela sua dimensão e fragilidade do material consegue ainda assim suster-se a si mesma.

Continuando, entramos para uma sala anexa, que se encontra dividida em duas partes. Uma delas é completamente dedicada ao seu período na Black Mountain College – vários modelos construídos na altura ou apenas pensados (e posteriormente construídos por alguém seguindo as suas indicações), assim como algumas memórias em vídeo ou fotografia que documentam a sua passagem por esta escola são a prova de um certo espírito que se vivia nessa altura à volta de Fuller.

A sala seguinte é dominada por um enorme e estranho Mapa Mundo – mostrando a preocupação de Fuller em entender o todo de uma forma menos complexa, numa forma pioneira de Infografia. Fuller não contente com a distorção que os mapas introduziam na interpretação do planeta Terra propôs – planificando um cubo-octaedro, uma nova representação do planeta. Através desta construção e várias tentativas de planificação, Fuller conseguiu encontrar uma configuração em que os vários continentes se encontravam o mais próximo possível. Desta forma seria passível optimizar os recursos naturais do planeta – como por exemplo, a existência de uma rede eléctrica mundial. Assim, seria expectável distribuir eficientemente os consumos e produção de energia pelo mundo inteiro – uma ideia progressista que ainda não será implementada na nossa geração e quem sabe se alguma vez o será... A partir deste “Dymaxion Air-Ocean World Map”, Fuller criou também um jogo que denominou de Jogo da Paz Mundial – em oposição aos “Jogos de Guerra”, que dividiam o mundo durante o período da Guerra Fria. A intenção deste jogo era o da criar uma nova visão sobre o mundo em função da humanidade, aproveitando os seus recursos de forma eficiente através de cooperações espontâneas e minizando o impacto ecológico ou quaisquer outras desvantagens, que essas acções poderiam ter maximizado à margem da população mundial. A exposição acaba com outros projectos de Fuller: cidades submarinas, cidades à superfície da água e ainda cidades aéreas. Visões próximas da ficção científica, mas que eram justificadas pela necessidade de aproveitar a terra existente para cultivo e diminuir assim o impacto humano no planeta.

Buckminster Fuller era este homem – um visionário, um humanista, ecologista, que pensava e partilhava as suas ideias tentando romper com a realidade do seu tempo. A razão desta exposição justifica-se pelo entusiasmo que as suas ideias geram ainda hoje em nós e que abrem portas à nossa própria imaginação e criatividade. Mais que uma exposição é uma inspiração!

Pedro dos Reis