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JACOBO CASTELLANOÀs ApalpadelasGALERIA PEDRO OLIVEIRA Calçada de Monchique, 3 4050-393 Porto 27 SET - 08 NOV 2008 Guias sem guiaSomos seres do tempo porque, sobretudo, somos conscientes do tempo. Um pouco na senda Heideggeriana do ser para a morte. E isto seria uma constatação trivial se não fosse um aspecto de alguma relevância: a crónica e constante antecipação do tempo (cronos) insistir em tornar-se ditame de cenários de progressão em detrimento de um sentido de orientação. Assistindo-se a uma fabricação de um útil que facilmente se acopla, em epítetos, ao essencial. Relembremos que o relógio mecânico (num materialismo mecanicista à La Mettrie (1), herdeiro da ascensão das teorias cartesianas) formaria uma imagem de pensamento extremamente prolífera, culminando numa visão mecânica do mundo. O relógio mecânico tornar-se-ia no mais forte símbolo de uma época que, só empregando muitas reticências, se apelida de Idade Moderna. Essa imagem e forma de pensar tem vindo a persistir (numa vertente já menos mecânica, mas mais ôntica) fortemente conectada aos lugares e à nossa presença neles, daí a utilização, cada vez mais frequente, de expressões como encalhado ou parado que vêm substituir outras, mais ou menos, românticas como afogamento ou naufrágio. E mesmo a náusea existencialista padece de semelhança com uma impertinente oura: alarme em corpos que não conhecem vagar e que confundem a definição de alongamento com definição através de alongamentos: bem mais útil na ginástica. É desta forma, atendendo à busca de sentido e de orientação, que Jacobo Castellano (Madrid, 1976) na exposição Às Apalpadelas apresenta um conjunto de trabalhos que remetem para situações condicionadas ao tactear orientador, concebendo situações de simulacro que nos confrontam com o alongar do sem-sentido. Num dos trabalhos de Castellano podemos ver uma série de cordas embebidas em alcatrão, que delimitam um espaço, assemelhando-o a um ringue de boxe. Imaginamos o corpo dentro dessa arena asfixiante e onde se pode encontrar um microfone e um megafone, que indisponíveis para cumprirem a sua função, invocam a inépcia de um grito mudo. A invalidação de uma qualquer chamada ou auxílio, que parece intentar o sucumbir da luta e labuta que se trava, e que o ringue não poderia deixar de invocar. O mesmo trabalho completa-se com a suspensão de um pequeno tecto de alcatrão, disposto na intencionalidade de uma decadência, ou mesmo, na sugestão de uma ruína. O tecto, mais do que uma velha necessidade, transformou-se numa significante marca a atingir nas medidas de quem faz viver (2) a Vida em lógicas de progressão. É norma(l)!... A disposição ou o dispositivo de ringue, vai repetir-se num outro trabalho de Castellano, feito com barras de ferro (algumas torcidas), que reforçam ainda mais a noção de aprisionamento. Na série de fotografias de dimensão variável e em preto e branco é nos dado a ver diversos objectos, que pelo enquadramento, parecem ser sempre um pormenor: apertando-nos contra os vestígios de uma narrativa que se encontra vedada. A maioria das fotografias de pequena dimensão estão expostas, apenas numa de duas esculturas, que se assemelham a expositores com pequenos degraus a níveis diferentes, e que eleva e sustêm as fotografias. A que não contém fotografias dispostas nos seus diferentes níveis, abriga no interior das suas bordas uma fotografia e um pequeno objecto contendo dois círculos paralelos que lembram uma espécie de armadilhas. E são armadilhas, que se encontram incorporadas noutra escultura de Castellano, que com o recurso a um material mais nobre constrói uma mesa armadilhando-a, sendo esta peça facilmente vista como um antimonumento. E onde o apalpar perscrutador encontra-se, seriamente comprometido. Ao longo da exposição Às Apalpadelas não surge qualquer tentativa de desobscurecimento, como o sugerir de caminhos, para as várias situações claustrofóbicas que os seus trabalhos representam. Todos aqueles trabalhos parecem estar ali abandonados. Nem mesmo se vislumbra – um sentido de regresso à origem, que Jacobo Castellano escreve no texto de sala e que apresenta a exposição. Talvez isso se deva a algo análogo a um dito do poeta cubano Lezama Lima (3): Aquele que se volta para as origens, encontrará origens novas. E o novo é sempre difícil de se reconhecer. Para o novo não há guias. NOTAS (1) Julien Offray de la Mettrie (1709-1751†) (2) Michel Foucault: “Poderíamos dizer que ao velho direito de ‘ fazer’ morrer ou ‘deixar’ viver se substitui um poder de’ fazer’ viver ou de ‘rejeitar’ para a morte”. ( A Vontade de Saber, p.140, Relógio D’Água, 1994) (3) José Lezama Lima (1910-1976†)
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