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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty, “Visionary Iraq”, 2008. Vídeo still


Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty, “Visionary Iraq”, 2008. Vídeo still


Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty, “Visionary Iraq”, 2008. Vídeo still


Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty, “Visionary Iraq”, 2008. Vídeo still


Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty, “Visionary Iraq”, 2008. Vídeo still


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ARQUIVO:


GABRIEL ABRANTES E BENJAMIN CROTTY

Visionary Iraq




GALERIA 111 (PORTO)
Rua D. Manuel II, 246
4050-343 Porto

20 SET - 15 NOV 2008

Algumas Anatomias da Letargia…

A instalação “Visionary Iraq” de Gabriel Abrantes (1984) e Benjamin Crotty (1979) patente na galeria 111, no Porto é constituída por três momentos/cenários que serviram à feitura de um vídeo, que se encontra divido em três projecções, sendo que cada sala apresenta a projecção correspondente ao cenário (instalação) que aí se encontra disposto.

Os dois autores, após uma temporada na galeria que os acolhe, aliaram à construção dos cenários: a execução de uma narrativa em registo vídeo, onde ambos interpretam diversos personagens que proporcionam uma multiplicidade de interacções tendo por pano de fundo a guerra no Iraque.

As maneiras de ser são usadas para revelar as maneiras de pensar: – podia ser esta a fórmula que melhor se afigura corresponder ao trabalho de Abrantes e Crotty quando percorrem e decalcam inteligentemente várias convenções e formas clichés.

A narrativa centra-se em dois irmãos adoptivos, Manuel e Ginja, (sendo Ginja uma órfã de Angola). Ambos mantêm, desde cedo na adolescência, uma relação amorosa, um com o outro, às escondidas dos pais. Ginja irá iniciar uma segunda incorporação pelo exército dos EUA no Iraque e Manuel, também militar, prepara-se para ingressar pela primeira vez. É um ambiente de impotência e fastio que é retratado no primeiro vídeo. Uma cumplicidade de quem pensa ter um destino em comum é partilhado pelos dois irmãos/amantes ao mesmo tempo, que se cozinha (1) algo, que os separa. As expectativas de Manuel, que espera desembarcar num “tão real” e dar o seu contributo para a aventura da democracia são confrontadas com um cepticismo latente de Ginja, cuja as dúvidas e questões ameaçam a crença nos propósitos humanitários e libertadores do seu exército e exercício. É assim que uma impotência sexual (situação que apresenta os irmãos) pode inteligentemente funcionar como símbolo (symbalon) de uma distância que entre os dois germina.

Uma mãe algo alienada numa competência doméstica e permissiva às vontades de quem a solicita e um pai executivo e ausente completam o quadro (clima) familiar. Recorre-se aqui, à oscultação do educacional e do genético, como transmissão e propagação: um piscar de olhos à recorrência das teorias de culpabilização.

Já em 1621, Robert Burton (2) no seu livro Some Anatomies of Melancholy num capítulo intitulado Parents a Cause by Propagation: indicava que uma das causas da melancolia tinha origem numa certa temperatura que passaria de pais para filhos influindo na constituição do seu carácter, que se demonstrava particularmente vulnerável a essa variável. Era uma ideia recorrente que algo tão mínimo como a temperatura mexia em delicada alquimia com o homúnculo-sémen (3) e o uterino lar (4). Talvez um dos primeiros registos que uma engenharia genética poderá invocar. Um dos exemplos mais brilhantes acerca da importância da temperatura na concepção vem de Laurence Sterne (5) na sua famosa saga literária: The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman (6). E ainda nos nossos dias é corrente fazer-se distinções entre características de filhos nascidos no Inverno ou no Verão. Temperatura e temperamento estão assim vinculados. E um exame aos pais é sempre um requisitado método, quando não um requisito.

Numa segunda sala, um segundo cenário/momento e uma segunda projecção representa e apresenta uma exposição numa galeria onde dois amigos de Manuel e Ginja expõem e expõem-se. Sugere-se, assim, um apelo ou citação à situação concreta de Gabriel Abranches e Benjamin Crotty, ou seja, como artistas autores de uma exposição numa galeria.

As duas personagens assumem no vídeo posses de vedetas de rock, com os brilhos, o glamour, e o corporizar do aborrecimento e da letargia. Sintomas de uma iconografia que viu em Warhol um principal semeadouro e que o War-hole do Iraque é uma eficaz antítese.

Os pais de Manuel e Ginja, em visita à exposição, revelam mais alguns dados que adensam a trama. Ficamos a saber que o pai lucra com projectos locatários no Iraque e a mãe é vulnerável aos encantos do galerista.

A última e terceira sala mostra o cenário e a projecção de um reencontro dos irmãos em pleno teatro de guerra. Um ataque inimigo estraga a alegria do reencontro onde ambos desabafavam a inoperante actuação dos que, desta forma, trazem a liberdade e a democracia. Debaixo de fogo Ginja nasce para a solidão (típico de quem sabe que está só, num pensar diferente) quando ao tentar reanimar um iraquiano abatido depara-se com a incompreensão de Manuel. E com sangue nos lábios, como se fosse um beijo vampírico – Ginja olha-nos de uma forma que não deixa de remeter ao grito de Eduard Munch.

A exposição “Visionary Iraq” é um exercício de ousadia e de energia mas é, porventura, insensato esperar que essa postura traga grandes consequências: Um beijo de sangue, mesmo quando libertador, é um gesto ou movimento. E como movimento: só o impulso parece importar. Porém, o sangue só é vivo e rejuvenescido num corpo. O corpo de “Visionary Iraq” possui um forte grau de súmula, onde aquilo que está ausente pertence à súmula que, por sua vez, denotando o ausente – trá-lo a si. Este pesado ausente remete para uma série de questões de compromisso, que entrevem discursos de culpabilidade e de responsabilidade, que é onde o compromisso acha a sua técnica (mesmo quando se trata de arte). São técnicas que, na sua maioria, se formam no apelo despropositado a um voluntarismo e a um humanismo, que insiste em querer entusiasmar, vendo capacidades onde elas não existem, na senda de uma intervenção activa no mundo – o que quer que isso seja.

Estas questões de compromisso, não estão na exposição “Visionary Iraq” que é uma exposição sobretudo de sintomas. Mas estão demasiado ausentes para não se deixarem visionar.




NOTAS

(1) Referência também a um dos cenários de Visionary Iraq.
(2) Lindley, Leicestershire viveu de 1577-1640†
(3 e 4) Era uma das acepções, da altura que está a ser retratada, que o sémen era constituído por um minúsculo homem completamente formado e que o útero era o lar que o acolhia.
(5) Clonmel, Irlanda viveu de 1713-1768† (Londres).
(6) Publicado entre 1759 e 1767.



Rui Ribeiro