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JOãO TABARRA COM A PARTICIPAçãO DE JAVIER PEñAFIELSEA©IN.TRANSIT Edifício Artes em Partes R. Miguel Bombarda, 457 4050-379 PORTO 08 NOV - 27 DEZ 2008 Vagas ocupadas“Quando tudo nos chamava pelo nome e ninguém desconhecia que devíamos à morte uma conta calada, um balúrdio de espuma.” José Miguel Silva, Walkmen, &etc , 2007, p.17 Antecipando o ano do décimo aniversário do projecto In.Transit (1999-2009) está a decorrer um ciclo comemorativo de dez exposições que irá ter continuidade durante todo o ano de 2009. O segundo momento (1) deste ciclo é dedicado a um novo trabalho de João Tabarra (Lisboa, 1966), a vídeo-projecção SEA© (2). O vídeo mostra um plano fixo de João Tabarra e Javier Peñafiel (Saragoça, 1964) sentados num rochedo à beira-mar. É neste cenário de costa que ambos dão as costas à câmara de filmar e ao olhar, executando um exercício de nomeação e contagem, não sabemos ao certo se de vagas do mar ou das suas orlas de espuma. Vemos sim, um apontar no sentido do mar, cabendo ao ângulo do braço desenhar a distância de um aparecimento. Em simultâneo dita-se um nome, ao qual se segue o anúncio de um número de registo e duma hora que marca o início de cada aparecimento. O registo horário é executado de uma forma diegética (e cinematográfica) num tempo não-linear marcado mais pela nomeação desse aparecimento do que pelo rigor cronológico. Por exemplo, se numa vaga ou orla aparecer o pintor Francis Bacon a caminho do seu atelier pressupõe-se que não será cedo. Ou se noutra aparecer Kant no seu passeio diário, bem… é um dado biográfico, efusivamente conhecido, que a sua rotina possibilitava aos seus concidadãos um acertar de horas. E é deste modo que em todas as vagas ou orlas registadas em SEA© surgem autores cuja característica comum parece ser o facto da importância das suas obras, bem como de algumas curiosidades biográficas, terem adquirido o estatuto de referência e de figurações, permitindo que o nome do autor venha a inserir-se numa gramática, ganhando com isso a qualidade de qualificativo. Ou seja, é possível adjectivar com o seu nome ou com a singularidade marcante da sua obra: Quixotesco e Kafkiano, são alguns exemplos. Este exercício de registo representado por Tabarra e Peñafiel permite que se forme uma ideia, ou imagem, de se estar perante uma estrutura lexical e simbólica cuja fabricação sabemos que também existe. Como sabemos que existe o transporte dessa adjectivação para diversas áreas do pensamento e da criação, muitas das vezes executada sem o substantivo ou substância devida. A par de agregações a mecanismos de legitimação, que o Argumentum ad Verecundiam (o argumento de reverência, i.e., que se baseiam unicamente na autoridade de um nome cujo mérito é amplamente reconhecido) sabe potenciar. Nome(s) de guerra (3) diria certamente Almada Negreiros, fazendo aqui também uma referência-reverente. Nomes próprios, muitas das vezes apropriados, despropositados, ou mais grave – desfigurados por figurinos de mimetismos. Que um manejamento e remanejamento ao sabor das marés tende a perpetuar, e revelando-se na totalidade quando, sem dúvidas, intentam conclusões… É indubitável que o mar é uma das entidades físicas que mais metafísica, simbolismo e alegoria produz ou é passível de produzir. E neste ponto, SEA© demonstra uma eficácia plena. O mar a funcionar como verbo ou metáfora absoluta, espelhando e reverberando uma substância: nomes de autores que são fontes de saberes e entidades culturais a que se recorre legitimamente para tecer contrastes. Mas assim todos juntos, num cumulativo vir à tona o que significa? – Estaremos diante de uma representação da síndrome de uma mesclada e barulhenta condição globalizante em que estamos inseridos, com discursos formatados e criações que tendem a reproduzi-los? Uma representação erosiva a que nenhuma frente-de-costa parece fazer frente, pelo menos, eficazmente? “O problema não é a luz é o som” diz Peñafiel no vídeo por altura em que a luminosidade do dia é sobreposta por um filtro, que já não permite uma visibilidade distintiva, o que finda o exercício com a promessa de um amanhã mais prolífero. É de facto uma reverberante barulheira: o que mediaticamente se sobrepõe e se intromete, e que varre segundo as marés, que é o mesmo que dizer modas. E esta expressão de Peñafiel não deixa de escavar um grito. Mas existem outros aspectos que tornam o vídeo de Tabarra interessante. Desde a intermitência da imagem dos dois protagonistas com separadores coloridos em CMYK’s (azul-cião, magenta, amarelo e o preto) que faz com que o vídeo ganhe uma plasticidade, ao mesmo tempo que permite a criação de mais algumas referências de cariz predominantemente cinematográfico. Ou o facto, de ser um português e um espanhol (e nessas duas línguas) a fazer esse apontar, com a inevitável carga histórico-identitária que esse gesto possui. Podemos mesmo pensar que estamos a assistir a uma nova divisão ibérica do mundo, que um novo pacto rematará o registo que ambos estão a realizar, e cuja longitude e latitude de nomes desfilados transmite a amplitude de um globo. E todo este gesto de nomeação, inconsequente e provocatório, uma tarefa tão improvável de concluir-se que é como se assistíssemos à tentativa de esvaziamento do mar. Sentimo-nos a observar dois novos Sísifos. NOTAS (1) O ciclo iniciou-se em Setembro com Imagens Caligráficas uma exposição de Cristina Mateus. (2) DVD, 2008, cor, 52’ (3) Título de um livro de Almada Negreiros.
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