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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Juan Muñoz, “Many Times” [Muitas vezes], 1999. Pormenor. Poliéster e resina. Dimensões variáveis. Colecção privada. © The Estate of Juan Muñoz


Juan Muñoz, “Treze a rir uns dos outros”, 2001. Jardim da Cordoaria.


Vista geral da exposição. Em primeiro plano “Minaret for Otto Kurz”, 1985. Ferro, madeira e tapete.


Juan Muñoz, “The Prompter” [O ponto], 1988. Ferro, papier-mâché, bronze, madeira e linóleo. Dimensões variáveis. Cortesia: Tate, doação do Legado de Juan Muñoz, 2008. © The Estate of Juan Muñoz


Juan Muñoz, “The Wasteland” [A terra devastada], 1987. Bronze, aço e linóleo. Dimensões variáveis. Col. Elayne and Marvin Mordes, Palm Beach (FL), USA. © The Estate of Juan Muñoz


Vista geral da exposição. Alguns trabalhos da série “Raincoat Drawing” (1989) e “Ventriloquist Looking at a Double Interior” (1988-2001).


Vista geral da exposição. Ao fundo, a instalação “Towards the Shadow” (1998); em primeiro plano, “Loaded Car II” (1996).


“Hanging Figures” (1997) no átrio do Museu de Serralves.

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JUAN MUÑOZ

Juan Muñoz: Uma Retrospectiva




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

31 OUT - 18 JAN 2008


O Museu de Arte Contemporânea de Serralves recebe, até 18 de Janeiro de 2009, uma exposição retrospectiva sobre Juan Muñoz. Produzida conjuntamente pela Tate Modern e pela SEACEX _ entidade estatal espanhola que assegura a divulgação cultural no estrangeiro (a que o MAC se associa), “Juan Muñoz: Uma Retrospectiva” é comissariada por Sheena Wagstaff e insere-se numa estratégia de mecenato exclusivo com a Fundação EDP, a concretizar ao longo de três anos, com o apoio a outras tantas realizações.


O artista espanhol tem, desde 2001, uma ligação forte à cidade do Porto. Precisamente nesse ano (o da sua morte), o Jardim da Cordoaria, junto à Torre dos Clérigos, recebia “Treze a rir uns dos outros”, escultura permanente, formada por quatro conjuntos distintos (bancadas), reunindo um total de treze figuras cuja facilidade de interacção afectiva com o público tem suscitado, de lá para cá, outras tantas manifestações de afecto e simpatia, sem esquecer também os inúmeros actos de vandalismo a que já foi sujeita. O que este trabalho de Muñoz enaltece é a própria genialidade com que alguma produção artística contemporânea justifica a existência de projectos de arte pública, sagazmente exemplificada, neste caso, pelo artista espanhol. A recepção acessível deste trabalho traduz-se, se quisermos, na dificuldade de se permanecer indiferente aos seus vários elementos e à relação que os une e que, por ignorar descaradamente o observador, o envolve finalmente, de forma engenhosa e estranhamente eficaz.


Todo esse potencial envolvente dos trabalhos de Muñoz percorre as salas e corredores de Serralves, relembrando a diversidade de experiências e influências que, ao longo de uma curta mas marcante actividade criadora (Muñoz faleceria aos 48 anos e a sua primeira exposição ocorrera apenas no princípio da década de oitenta) se instituiria como marca do autor.


Como no Jardim da Cordoaria, outros tantos trabalhos de Muñoz alcançaram uma marca de visibilidade junto do grande público português. As suas figuras orientais transportam a mesma ambiguidade e força dramática, seja numa peça como “Many Times” (cem figuras), seja noutras que, restringindo o número de elementos, se aumenta proporcionalmente o seu potencial individuante. Nos últimos anos, diversas têm sido as oportunidades para apreciar, em Portugal, obras de Muñoz. Relembremo-nos da existência e apresentação de trabalhos em colecções nacionais como a Berardo (“After Degas II”) ou ainda de exposições que os integrem, como foi, por exemplo, o caso de “Um Teatro sem Teatro” (CCB, início de 2008).


Em Serralves, o percurso retrospectivo de Muñoz desenha-se numa constante encenação que a progressão do visitante acciona, incorporando-se no próprio dispositivo, ora perdendo-se na multidão de “Many Times”, ora percorrendo a rua dos “Hotel Declercq” e outras varandas anónimas, ou ainda contornando o tapete oriental de “Minaret for Otto Kurz”, entre escadas de caracol (“Spiral Staircase”) e corrimãos (“El Pasamanos”). Aqui se descobrem alguns dos trabalhos mais curiosos e menos conhecidos do grande público, apontamentos geniais que, fazendo a ponte assumida com as referências culturais artísticas de Muñoz, se permitem abrir a geniais estratégias de perscrutação do lugar do visitante e da sua inquietante condição perante a inevitabilidade de confronto com a escultura ou instalação. Pequenas esculturas humanóides habitam varandas ou saem, provisoriamente, deixando apenas o adereço que lhes pertence. Enquanto ocidentais, validamos o pressuposto da existência de um outro _ não ocidental (por ilação ou genuína alteridade) e, como tal, de uma outra posição. A ambiguidade sobre o enigmático olhar de um asiático será ainda maior porquanto sabemos genericamente serem também diferentes os seus valores e o seu entendimento sobre o mundo (o “nosso” mundo). O prolongamento interminável das expectativas renovadas em cada novo olhar sobre uma nova peça são por demais esclarecedoras de que todo o espaço expositivo se submeteu a uma transformação e que dela resulta um enorme teatro que atravessamos, ora aparecendo da plateia, ora surgindo em palco, vindo de um qualquer lado dos bastidores (“The Prompter”). Tal é a multiplicidade de questões permitidas ao aderente desejo de continuar o jogo, e aqui, como no teatro, também a importância dos silêncios e dos seus ritmos se revela verdadeiramente importante.


Atravessando “Wasteland”, até à série de “Raincoat Drawing”, encontramo-nos diante de um ventríloquo que queremos nós que olhe para um espelho que sabemos não existir. Mas neste ponto da exposição é já total a cumplicidade e o entendimento do que está em cena. Observamos já “quem” observa, percebemos ou adivinhamos “quem” deveria estar mas não está. Duplo, encenação do lugar, variação ou alteração de escalas (também “Dwarf with three Columns” ou “Loaded Car II”). A par de um conjunto de referências que diante de nós vão desfilando (Otto Kurz, Günter Grass, Carl Andre, Eliot, Beckett, etc), são também as referências individuais que se exercitam. Em “One Figure” vemo-nos a nós próprios, ou não fosse o espelho metáfora para outras tantas extrapolações sobre o duplo e a identidade, personificação das questões que Muñoz vai colocando em cena, para nosso deleite.


Miguel Caissotti