Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Queiroz, S/título, 2005/06. Óleo s/tela, 190x250 cm

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÁ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


JOÃO QUEIROZ

Paisagens




CAM - CENTRO DE ARTE MODERNA
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

12 ABR - 18 JUN 2006

As pinturas de João Queiroz no Centro de Arte Moderna

Paisagens sedutoras, melancólicas e nostálgicas são adjectivos com que se poderia caracterizar as paisagens que João Queiroz pinta. Mas tratam-se de pinturas que não servem de lamento por um mundo que já todos sabemos perdido, e a que só se tem acesso através de subtis e suaves evocações. Se a princípio a dimensão das telas (190X250cm) parece fazer-nos sentir uma espécie de grandeza inalcançável pela visão, descobre-se depois que só assim é possível a essas pinturas assumir o controlo das faculdades daqueles que nelas se perdem. Perder-se nessa espécie de monumentalidade pictórica é a condição de poder ver as pinturas de João Queiroz: só assim a plenitude de cores e movimentos pode ser tornada visível.

O olhar que está na origem destas telas é um olhar atento e exige, a quem com ele se confronta, a mesma atenção e concentração. No limite pode dizer-se que, no caso de Queiroz, temos de tomar o tempo da pintura e de a acompanhar durante todos os andamentos, como se faz com um tema musical: temos de o ouvir até ao fim. Chegar lá significa ter estado atento a uma sucessão de movimentos. Exigências estas devidas à natureza dos próprios trabalhos: simultaneamente são mancha e cor, estáticas e em movimento, representações e abstracções. A natureza surge como entidade dinâmica e variegada e não um pressuposto intelectual ou uma nostalgia sem sentido. Trata-se em cada um destes trabalhos de ver a natureza, e de transformar essa visão em imagem e em superfície. Tudo se passa como se a tela fosse pele: ao mesmo tempo que cobre e protege os corpos, deixa que se inscrevam na sua superfície as marcas do tempo que passa.

O olhar de João Queiroz é um olhar determinado. Como ele afirma em entrevista a Doris von Drathen: “Com o meu olhar não quero compreender nada, organizar nada, dispor de nada, catalogar nada. Eu não vejo uma árvore. Árvore é uma palavra. Eu vejo o movimento das folhas, vejo a relação de tamanho com uma pedra, a sombra. Procuro sempre deixar a relação com as palavras para entrar directamente em relação com as coisas. Não quero dar um nome a nada, enumerar nada. Só me interessam as relações, o peso entre as coisas…” Abandonar as palavras significa aqui dispensar ou, pelo menos, diminuir até onde lhe for possível as mediações que se tendem a erguer entre a visão e aquilo que se quer ver. Na mesma entrevista, o pintor tira mais consequências desta sua relação com a natureza: “Eu vejo na natureza um imenso campo de possibilidades de me pôr em causa, de me construir de novo e, a partir daí, viver de novo o outro como outro e reconstruir a minha relação com os meus semelhantes…”
Ou seja, está em causa não só a escolha de um tema artístico, mas um compromisso ético e moral que o artista impõe a si próprio. Kant diria que a possibilidade da constituição de uma comunidade humana é a de se poder reconhecer a humanidade fora de si. E este movimento, não de derramamento no exterior, mas de estabelecimento de pontes e criação de elementos comuns partilháveis é central na pintura de João Queiroz. O que não faz dos seus trabalhos armas ou ferramentas políticas. São antes modos humanos de mostrar uma possibilidade, quase esquecida, de ver o mundo.



Nuno Crespo