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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Paulo Nozolino, “Bone Lonelyâ€. Provas em gelatina de prata, exemplar único


Paulo Nozolino, “Bone Lonelyâ€. Provas em gelatina de prata, exemplar único


Paulo Nozolino, “Bone Lonelyâ€. Provas em gelatina de prata, exemplar único


Vista da exposição


Vista geral da exposição. Galeria Quadrado Azul, Lisboa


Vista geral da exposição. Galeria Quadrado Azul, Lisboa


Vista geral da exposição. Galeria Quadrado Azul, Lisboa

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ARQUIVO:


PAULO NOZOLINO

Bone Lonely




GALERIA QUADRADO AZUL (ANTIGO ESPAÇO EM LISBOA)
Largo dos Stephens, 4
1200-457 Lisboa

09 JAN - 07 MAR 2009


“Bone Lonely†traz para a Galeria Quadrado Azul de Lisboa um conjunto de trinta e duas fotografias inéditas de Paulo Nozolino, verticais e de pequeno formato (24 x 18 cm). São fotografias a preto e branco, intervencionadas pelo autor durante o processo de revelação, com dedadas, sujas e, por conseguinte, provas únicas. Para a galeria, cuja única parede utilizada se adaptou e pintou a preto mate, Nozolino trouxe uma composição que engloba, não só a ordem e selecção de fotografias, mas também a exacta medida entre cada uma e o seu posicionamento na parede, especificamente criada para as instalar. Também a iuminação, solução de recurso e pouco convencional, contribui para a individuação do projecto.

Um e um só trabalho, como “uma frase†(nas palavras do próprio, referindo-se ao conjunto de fotografias) que perde sentido quando alterada ou subtraída de um elemento. “Uma fraseâ€, de tal forma que eventual análise grafológica revelaria, pelo estudo atento das recorrências e particularidades caligráficas, o autor e o seu estado de ânimo, a sua condição melancólica perante os maiores ou menores infortúnios de uma vida em permanente exercício de desenraizamento, ou ainda a nostalgia de aspirações ou utopias abandonadas há muito. “Bone Lonely†foi sendo construída ao longo de mais de um ano, a partir de um manancial de trabalho que o artista produz desde (no caso concreto das imagens desta exposição) os anos setenta. Imagine-se um fotógrafo que não dorme e fotografa como quem vê, derramando sobre as imagens a intensidade particular de quem sente, se indigna e se manifesta. Cada fotografia respira a sua própria condição de inevitabilidade e sequência, assumindo-se como elo de ligação entre a que lhe antecede e outra que se lhe seguirá, como o pulsar de um coração. Não há batidas insubstituíveis, mas algumas, revelando não conter mais a tensão do momento, adquirem particular ênfase ou intensidade. Não estamos perante repetições ou séries, mas sim perante instantes decisivos, políticos e determinantes à vida. São essas fotografias (as que num exacto momento se destacam pela melhor relação possível com um estado de alma que o autor precisa de comunicar) que Nozolino selecciona, meticulosamente, e se dispõe a partilhar com o público. O que vemos, enquanto observadores, é então o resultado de um estilo tanto mais rico quanto sintético (a “voz do protagonistaâ€, nas palavras de Pavese), que se remete, cada vez mais, para uma constelação onde o silêncio se sobrepõe à palavra, onde o olhar arrisca um instante de empatia e cumplicidade. Onde o desconforto e a angústia, mais do que captados em imagem, perduram em consciência.

Apreender as frases de Nozolino será, porventura, exercício de completa relativização sobre a entidade de desalento que da mesma emana, do mesmo modo que a observação do rasto de um cometa, sendo partilhável por um conjunto significativo de indivíduos, nada diz sobre a experiência do mesmo: Essa, sendo única e indizível, implica o investir cáustico, imprevisível e irreversível na sua própria natureza e na inexorável transformação (e combustão) da matéria que o compõe. Ainda assim, apresentamo-nos perante um testemunho que, como tal, instaura um elemento mais no percurso autobiográfico do artista. “Bone Lonely†assume a inevitável condição de ponto de observação de Nozolino sobre o mundo; Como é possível vivermos, hoje, quando o desconhecimento sobre sucessivas atrocidades e hipocrisias perante a condição humana não pode mais ser invocado para subterfúgio da nossa inacção e passividade? Essa falta de coragem para, no limite, agir em favor de uma indignação ética ― denunciada por Sven Lindqvist em “Exterminem todas as Bestasâ€, constitui chave descodificadora para “Bone Lonelyâ€, necessariamente.

São ainda fotografias e, como tal, a consideração formal das particularidades técnicas (ainda que o resultado estético seja aparentemente supérfluo para o artista) requer uma ponderação: O “preto e branco†têm algo mais, o acto de sujar evidencia pormenores e a luminosidade e o grão dividem o conjunto em duas unidades distintas de significação. A importância e a mestria na fusão do que é, por um lado, a abordagem técnica de uma sombra e, por outro lado, a condição contextual do que, sabendo-se poder ser de outra forma, se impõe como sombrio.

Sombrios são os tempos presentes e, para Nozolino (e para o mundo, assim este recuse a mediação normativa e apaziguadora ocidentalizante), a história mundial após a segunda metade do século XX desenvolve-se pela alternância de episódios em que, sob a égide de um pretenso progresso, a barbárie espezinha, humilha e extermina povos e etnias inteiras, culturas e religiões. Incrédulos, constatamos que o desrespeito pela vida e dignidade humana é sempre defensável, dependendo da mera argumentação cobarde, tecnocrata, xenófoba, racista e ardilosa, flagrantemente desmontada se evidenciados os preceitos maniqueístas que a suportam e que, não raras vezes, alimentam as oposições entre o Ocidente e “o Outroâ€, banalizadas pela ardilosa construção de inultrapassáveis razões de ordem política, religiosa, económica, etc…

Uma vida de viajante e de abertura de horizontes: Paulo Nozolino adquiriu na pele a experiência da viagem, ainda em curso, iniciada no Ocidente (enigmaticamente em Berlim), mas onde se inclui também a imensidão de lugares (tantas vezes sem fisicalidade palpável) onde a tragédia da condição humana se remete à solidão como forma de sobreviver ao inefável que a seca (e a “separa do ossoâ€). Após oito anos de ausência em galerias, uma exposição que irrompe de uma lente em permanente e vigilante inconformismo, para ver sem filtros e em silêncio.

“Bone Lonely†dará origem à publicação de um catálogo com poemas de Rui Baião, a editar pela Steidl, oportunamente.


Miguel Caissotti