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COLECTIVABES REVELAÇÃO 2008MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 06 DEZ - 15 MAR 2009 Filiações e partilhasQuando José Maria do Espírito Santo e Silva criou a sua Caza de Cambio em Lisboa, no ano de 1850, estaria longe de imaginar que o seu nome iria ficar associado a um Prémio de Revelação para artistas que sucederam aos inventores do daguerreótipo, seu contemporâneo. Como mecenas, o Banco Espírito Santo, associa-se ao Museu de Serralves para a 4.ª edição deste prémio, que concede um apoio para a realização de uma obra a artistas com idade inferior a 30 anos e que residem em Portugal. Este ano os vencedores foram David Infante, Nikolai Nekh e Mariana Silva. Quando vejo as obras deste três jovens artistas é-me impossível deixar de imaginar subjectivas filiações ou afinidades artísticas. Hoje, o termo filiação deixou de ser um tabu na arte, é mesmo afirmado em exposições recentes como a da filiação de Picasso a Delacroix. O prémio BES Revelação encontra-se no andar térreo de Serralves, naquele último espaço ao fundo de todos os corredores e escadas abertas por Siza, onde aparece como primeiro trabalho uma obra de David Infante, num políptico fotográfico a preto e branco. Lembrei-me por instantes das imagens da artista mexicana Cristina Garcia Rodero e dos seus pretos e brancos místico - populares. Aqui a terra e as gentes são as alentejanas, o artista nascido em Évora elabora as suas imagens compósitas pela sobreposição de elementos que tornam as imagens surreais. Nas suas composições é evidente que o habitante local passou a ser parte de um mundo em que o horizonte deixou de ser o documental regional para ser o da ficção sem fronteiras. Prosseguindo, entramos no mundo de Nikolai Nekh, no espaço central desta exposição colectiva. Uma projecção de grandes dimensões apresenta personagens reais em festas de família, em jogos entre pais e filhos, em encontros onde por vezes a velocidade lenta das imagens sugere personagens fantasmas em acções humanas. A obra de Eija-Liisa Ahtila parece sobrevoar nestas memórias. Mas o que é mais interessante neste projecto de Nikolai não é o vídeo, é o suporte em pequenas dimensões, em cartão, que reafirma a mundialização uniformizante dos nossos dias: “Postais da cidade de Raduzhnyy”, são postais ilustrados de paisagens urbanas sem alma e o elemento de ligação de uma filiação desta vez genética entre um pai e um filho a quilómetros de distância. São a procura do tempo perdido de Nikolai. Emigrado para Portugal muito jovem esqueceu a paisagem da sua cidade natal, Raduzhnyy na Rússia, que reconstitui (substituindo) com imagens de Lisboa, cidade onde agora vive. Lisboa é aqui vista não na sua claridade mas numa solidão cinzenta vinda de norte. Finalmente, num espaço fechado como uma sala de arquivo encontramos o projecto de Mariana Silva. Este trabalho traz-nos também uma nova interpretação da memória e traços de uma nova contemporaneidade artística feita de partilhas entre artistas. Num procedimento metódico de criação de um universo particular tal como no “Bureau d’ activités implicites” da artista italiana Tatiana Trouvé, mas com uma vertente conceptual naturalista encontramos o “Arquivo para a Permanência da Imagem” de Mariana Silva. Numa grande mesa redonda repousam cinco moviolas de 8 mm, dentro destas pequenas máquinas manuais de projecção estão filmes realizados após o 25 de Abril de 1974, num período conhecido como PREC (Período Revolucionário em Curso), que se encontram arquivados no Arquivo da RTP. Mas logo que damos à manivela para ver as imagens, estas tornam-se mais obscuras pois os fotogramas sobrepõe-se à medida que avançamos no filme mudo, e o último fotograma é o somatório dos anteriores. É um apagamento dos vestígios deixados a descoberto pela visita ao arquivo. A obra fecha o nosso acesso ao passado por uma metafórica e real sobreposição lenta de imagens-memórias. Mariana Silva solicita a participação dos visitantes para juntarem sugestões de imagens, bem como a partilha de arquivos artísticos com outros colegas como Pedro Barateiro, Hugo Canoilas, entre outros, que também têm reflectido sobre a memória nacional. Gostaríamos talvez de reactivar o “... em Curso” da sigla mas a impressão que ficamos ao deixar esta exposição colectiva é a de uma tristeza imensa provocada por memórias que com o tempo perdem os contornos e são invocadas por tão jovens artistas que parecem ficar tristes por um tão triste fado. Concluindo poderia dizer que hoje, Lisboa deixou de ter a singularidade local de um cliché em postal de Agnès Varda com mulheres desenhadas pelo sol do meio-dia todas vestidas de preto; mas talvez exista o início de um trabalho em que trocas e partilhas entre uma nova geração de artistas são assumidas e em que o trabalho artístico deixa de ser visto como uma criação autista e passa a abrir antenas para todas as filiações e afinidades possíveis. Este é talvez o único procedimento possível num mundo em que os artistas revisitam a sua história como a última paisagem tentando dar uma forma à amnésia irremediável de terem nascido depois.
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