|
|
MARTIN CREEDI Like ThingsFONDAZIONE NICOLA TRUSSARDI Piazza della Scala 5 20121Milão 16 MAI - 18 JUN 2006 Imaginemos alguém que, em Milão, atravesse a Piazza Duomo, a praça da catedral, e olhe para o Palazzo dell’Arengario. Esse alguém lerá em enormes letras brancas: “Everything is Going to Be Allrightâ€. Curioso pela mensagem, simultaneamente optimista e reconfortante, este alguém decide entrar no edifÃcio de arquitectura racionalista que coroa o lado esquerdo da praça. Subindo as escadas, quase chocará com um atarefado homem de meia idade vestido de fato e gravata, que desce a correr a enorme escadaria. Onde irá?… O mesmo homem voltará a ser visto, a correr como a lebre de Lewis Carrol, sempre sem uma rota precisa mas com a mesma urgência. Ao passar a porta do Palácio, o nosso visitante curioso será alvo de uma fortÃssima lufada de ar frio que o empurra para trás, quase testando a sua vontade de entrar no espaço. Mais tarde perceberá que acabou de se encontrar com três trabalhos do artista britânico Martin Creed, respectivamente “Work #560†(o néon), “Work #570†(o homem que corre) e “Work #564†(o vento). Já no interior do Palazzo dell’Arengario, umas enormes letras em néon azul, que ocupam a totalidade de duas das paredes da sala, apregoam “Small Thingsâ€. Gigante escultura luminosa?… Declaração artÃstica?… A ideia de estar dentro de uma alucinação composta de elementos e objectos quotidianos começa a surgir. No centro da sala um piano branco realiza um ameaçador baile mecânico e ruidoso, enquanto se abre e fecha violentamente. Com as paredes totalmente pintadas de preto, este espaço parece, entre o azul do néon, o rumor do vento e a presença do piano, um bar desolador e fantasmagórico. Na segunda sala dá-se o encontro com o trabalho que celebrizou Creed, ao fazê-lo vencer o Turner Prize de 2001: “The Lights going on and offâ€, 1996. Mas se no espaço da Tate Britain esta obra era sobretudo um questionar a percepção e o papel do espectador e do artista, aqui, num corredor com colunas enormes e austeras, a mesma obra contribui e prolonga a sensação de abandono e de desorientação que vinha desde a sala precedente. Estamos sós e isolados no mundo. Este pensamento, que é de certo modo a ideia basilar da Bienal de Berlim deste ano, cujo tÃtulo é “Of Mice and Menâ€, enquadra igualmente o projecto desta exposição. Acaso ou não, tanto o comissário, Massimiliano Gioni, como o próprio Creed (com este último trabalho), fazem parte da exposição berlinense… Continuando a percorrer a colunata habitada pelo apagar e acender das luzes, chega-se a uma escada que conduz a um beco sem saÃda, onde se expõe o “Work #503â€, 2006: um vÃdeo de um minuto, no qual uma jovem vomita compulsivamente numa sala branca e imaculada, num white cube. E aqui, o visitante tem duas opções: ou abandona o Palácio, sentindo que, iludido com uma mensagem doce e inofensiva, foi trazido para dentro de uma alucinação artÃstica; ou volta para trás, revê a exposição e, ao fazer o percurso invertido, desmonta o projecto extremamente bem articulado do comissário e compreende a genialidade de Creed, que reflecte sobre a arte e sobre o seu funcionamento através da matéria-prima que enforma o nosso banal quotidiano, tal como o faz no único trabalho que faltava nomear, o “Work #571â€, 2006: uma enorme pilha de folhas de cartão compensado que cria um cubo perfeito.
|














