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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Jimmie Durham, “Encore tranquillité”, 2008. Avião, pedra. 150 x 860 x 860 cm. Cortesia de Pury & Luxembourg, Zurich. © Roman März


Jimmie Durham, “He said I was always juxtaposing, but I thought he said just opposing. So to prove him wrong I agreed with him..., 2005. Cortesia de Pury & Luxembourg, Zurique


Jimmie Durham, “Jesus (Es geht um die Wurst)”, 1992. Técnica mista. 149 x 110 cm. MuHKA, Musée d'Art contemporain, Anvers

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MUSÉE D’ART MODERNE DE LA VILLE DE PARIS
11, avenue du Président Wilson
75116 Paris

30 JAN - 12 ABR 2009

O último nativo americano em Paris

“Art is in the not ending-ness of the experience”

“Foi no Iraque que se construiu a primeira cidade. Era a cidade de Gilgamesh e foi também sob o seu reinado que nasceu a primeira linguagem escrita. Tudo começou com ele e com a forma como construiu a cidade. “

“... Queria criar contra a arquitectura monumental europeia então comecei a atirar pedras como um instrumento, o meu instrumento, contra frigoríficos, televisores e automóveis e finalmente sobre um avião mas basta ir a um cemitério para ver como são delicadas as pedras.” > Jimmie Durham



Como o vídeo “Pursuit of happyness” (2002) testemunha, um jovem artista, pode querer “queimar” as suas origens e sair do seu país natal, onde a institucionalização dos valores e da verdade o incomodam. Neste filme, Joe Hill, alter ego de Jimmie Durham, protagonizado por Anri Sala (Albânia,1974), inicia uma recolha itinerante de objectos, num mítico on the road americano. Segue-se uma primeira exposição aclamada pelo público; o galerista paga-lhe generosamente e o artista decide queimar a roulotte onde vivia e partir para o velho continente.

O Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris apresenta uma exposição monográfica consagrada a Jimmie Durham que reúne obras dos últimos 15 anos da sua produção artística na Europa. O seu título provém da expressão pedras rejeitadas pelos construtores do Salmo 118 - 22 da Bíblia, que se refere ao sistema hierárquico do Estado, rejeitado pelo artista. Nele o arquitecto detém o poder de construir e destruir a Cidade regendo a vida dos cidadãos. Imaginemos, porém, que não conhecemos este artista, nem qualquer facto real sobre a sua vida ou obra e começamos a nossa visita à exposição, onde as obras nos parecem frescos, readymades, dos anos 2000.

Na entrada do Museu encontramos a peça que foi capa da revista Artforum de Janeiro de 2009: “Encore tranquilité” (2008) que consiste num avião partido em dois por uma enorme pedra. A obra é impressionante, exposta no sopé da escadaria do museu, a poucos metros da “Fée Electricité” de Raoul Dufy, a lançar um sortilégio do alto das escadas. Subimos para o primeiro andar do edifício onde se estende a monografia e deparamos com os auto-retratos fotográficos do artista (“Self-portraits” de 1995 a 2006) sob uma máscara de Maria Thereza Alves ou de Rosa Lévy. Prosseguimos com as esculturas de grandes dimensões que fazem o tour da história de arte Ocidental, reinventada por Durham e onde a intervenção pelas pedras do artista é visível. Expõe-se também os vídeos realizados em co-autoria com a sua companheira, a artista americano-brasileira Maria Thereza Alves que datam da chegada do casal à Europa em 1994 até hoje. Por vezes são solilóquios do artista ao telefone, em frente à câmara, ou registos arquivísticos de ateliers com jovens artistas como o realizado para a Fondazione António Ratto, em Como, na Itália (2004), onde entre os participantes se contava Mário Garcia Torres.

Chegamos a uma grande sala onde estão dispostos diversos bidões de petróleo numa instalação. A peça intitula-se “Sweet life crude” (2008), e cada bidão pintado em doces tons pastel tem uma palavra inscrita como: puro, amor, fraternidade, etc.; depois voltamos aos “self-portraits” de Jimmie Durham, com cores guerreiras no rosto. Passamos ainda por “Saint Frigo” (1996), uma obra que pertence à colecção do Ministério da Cultura português. Talvez por mérito de Isabel Carlos subdirectora do Instituto de Arte Contemporânea entre 1996 e 2001, que também levou Durham a realizar a sua primeira obra de grandes dimensões para a Bienal de Sidney em 2004: “Still Life with Stone and Car”, um Ford Festiva vermelho esmagado por uma enorme pedra pintada com um rosto humano.

“Saint Frigo” é uma das primeiras experiências de Jimmie Durham no seu processo de alteração dos objectos, de “modelagem” escultórica através do lançamento de pequenas pedras; muitas vezes os objectos que utiliza estão destinados a ir para a sucata, como é o caso do mono-motor ex libris desta exposição, ou a serem vendidos em África por não possuírem as condições de segurança exigidas pela União Europeia. Ele transforma estes objectos industriais pela sua intervenção artística em objectos de colecção “salvando-os do desprezo do homem”. Finalmente, numa vitrina de grandes dimensões expõe-se pequenos objectos que são fósseis petrificados de pecorino italiano, nuvens, salame entre outras, que se intitulam “The Dangers of Petrification” (1996–2007).

Saímos da exposição com um pequeno sorriso à Mona Lisa, mas sentimos que precisamos de saber mais sobre a pré-historia destas pedras rejeitadas...
Rewind ... Jimmie Durham é um nativo americano descendente dos índios Navajo, lutou entre os anos 70 e 80 pelos direitos do homem e dos índios inclusivamente como seu representante nas Nações Unidas. Em 1994 decide transferir-se definitivamente para a Europa devido à desilusão ideológica em relação ao seu país onde “líderes políticos mandam esculpir o seu rosto nas montanhas”. Jimmie Durham nunca se auto-definiu como um artista pois tem dúvidas sobre a marca da assinatura na arte. As suas preferências artísticas vão para “O Cordeiro Mágico” de Van Eyck e “One of these stupid flower painting” de Monet.

Os símbolos americanos do selvagem transformados pelo capitalismo em jipes Cherokee ou na lingerie da personagem Pocahontas, foram o mote para muitas das suas obras que fazem alusão a todos estes clichés adoçados da cultura americana. Seguiu-se depois a sua acção com as pedras e com elas a um certo retorno à natureza pelo poder do primeiro instrumento pré-histórico do homem. Porque não convidar Jimmie Durham a fazer um atelier com jovens artistas portugueses? É um excelente pedagogo. A obra de Jimmie Durham precisa de um certo substrato conceptual e cultural para ser entendida a um segundo nível, mas desde uma primeira leitura as suas obras são surpreendentemente libertadoras no mesmo sentido em que as vanguardas artísticas o foram no início do séc. XX. As de Jimmie Durham são-no numa época de homogeneização da cultura e das últimas etnias.

As pedras rejeitam estar na arquitectura europeia das catedrais do homem branco para voltarem ao seu estádio inicial na natureza: arte conceptual ou arte primitiva?
Sweet life crude!



Sílvia Guerra